Da natureza nada se leva?

Uma vez mais nosso solerte viajante limitou-se a nos enviar a correspondência da semana sem dizer de que paragens a remete.

O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2013 | 02h19

Caro Mr. Miles: li, numa de suas recentes colunas, sua posição radicalmente contrária àqueles viajantes que trazem cinzeiros de hotéis ou mantas de companhias aéreas. O senhor os chamou de gatunos e devo dizer que concordo com seu raciocínio. Quero, porém, invocar sua infinita sabedoria para saber se também são larápios os viajantes que trazem suvenires da natureza, tais como conchas, flores, pedras, fósseis etc.

Marina Maciel, por e-mail

"Well, my dear: muito obrigado por seus elogios, mas confesso que minha sabedoria jamais será infinita. Mais que isso: afirmo-lhe que quanto mais viajo, vejo e ouço, maior é a minha sensação de que, por mais tempo que eu viva, jamais saberei além de muito pouco. Don't you agree?

Quanto à sua pergunta muito pertinente, cabe uma análise mais acurada dos fatos. Indeed, considero gatunos aqueles que se apropriam de bens que pertencem a outras pessoas ou empresas. A natureza, as you know, é um patrimônio de todos, embora, I'm sorry to say, alguns de seus defensores mais radicais tratem-na como um bem pessoal e inalienável. Frequentemente vejo aqueles cartazes politicamente corretos (e desastrosos) com frases de efeito do tipo: 'Não tire nada senão fotografias, não leve nada senão lembranças.'

Para tudo, nesse tema, há que se ter um meio termo. Imagine você caminhando em um lindo bosque público com milhares de deliciosas amoras silvestres brotando de todos os lados. Será uma delícia provar algumas delas. E será, as well, disgusting levá-las a todos para produzir geleias e privar os demais visitantes do mesmo prazer que você teve. O que há de errado, as well, com o prazer pueril de catar conchinhas em praias onde o mar as despejam como generosa cornucópia? Ou em encontrar uma pedra de formato curioso que lhe pareça, por exemplo, um porquinho ou um jacaré?

Veja, dear Marina: tenho certeza de que, a essa altura da crônica, perdi diversos leitores ambientalmente xiitas. However, acredito, humildemente, que façamos parte da natureza como os esquilos que apanham sementes, as formigas que cortam as plantas ou os castores que roem as árvores. Só quem nunca sai de casa não interage com as belezas que o mundo nos proporciona. Lembro-me de um guia especialmente desagradável que, ao conduzir um grupo de viajantes por uma trilha "interpretativa" (que palavra é essa, my God?) na Mata Atlântica ameaçou agredir fisicamente uma rotunda senhorita que, sem nenhuma intenção, pisou numa centopeia. O fulano quase encomendou uma missa para o pobre inseto falecido.

Mas há, sem dúvida, limites para tudo. Não julgo decentes pessoas que arrancam um pedacinho da pirâmide de Quéops ou uma lasca do Muro das Lamentações. Eis o tipo de pilantragem histórica mais abjeto e sem sentido que conheço. E o pior: nos países mais pobres, atrações milenares vivem desprotegidas com salteadores à solta em sua sórdida missão.

Fósseis: quem derrubar uma parede porque viu um peixinho incrustado na rocha é, definitely, um maluco. Mas, às vezes, é fácil encontrá-los soltos e quase sempre indefinidos entre pedras e seixos. Eu não procuraria um museu nacional para entregar meu 'fossilzinho' porque, of course, os curadores ririam de minha cara. Uma última lembrança: em minhas caminhadas por glaciares ao redor do planeta, confesso que, muitas vezes, apanhei duas ou três pedras de gelo para diluir meu scotch. And you know what, Marina? Não me senti nem um pouco mal. As geleiras vêm encolhendo quilômetros a cada ano por outros erros muito mais graves que cometemos (e não estamos sabendo consertar). Já o meu scotch ficou pelo menos 5 mil anos mais saboroso.

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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