Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão

Delta do Okavango: safáris são mergulho na África selvagem

Destino obrigatório de Botsuana, 'joia' ao norte é de tirar o fôlego e leva o turista a mergulhar no que a África selvagem tem de melhor

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2015 | 00h00

CHITABE - O bafo quente típico do clima árido anunciava a mudança de ecossistema. Ao descer na pista de pouso da reserva natural privada de Chitabe, em Maun, nem desconfiávamos que seria a única vez que teríamos o prazer de encontrar um leão adulto – e o desprazer de sentir o cheiro indigesto de uma zebra morta. Era fim de tarde, e outros dois veículos, além dos do nosso lodge, cortavam as trilhas da reserva. Por preservação, há sempre um número limitado de carros que podem circular em cada uma das áreas protegidas – em Chitabe, são apenas cinco por dia. 

Uma fileira de urubus no alto das árvores chamou a atenção. Duke, nosso guia, pediu silêncio. A metros dali, um grupo de turistas observava algum animal que parecia ser importante. Nos aproximamos. Sentado, a contemplar o horizonte, lá estava ele, o rei da selva.

Se sentir medo é algo particular, a felicidade de estar ali era comum. Diante do leão livre, ninguém pareceu entrar em pânico ou pensou em sair correndo – o que, de toda forma, não é o melhor a ser feito. A vontade era irracional: pular do carro só para tocar a juba do animal.

Toda a tranquilidade leonina tinha um motivo – o mesmo que nos permitiu chegar perto de outros felinos selvagens ao longo da viagem. Alimentados, eles passam cerca de 80% do dia deitados, rolando preguiçosamente, repondo as energias gastas na difícil tarefa de caçar. Se não se sentirem ameaçados, não darão a mínima para sua presença. 

No fim da tarde, estacionamos à beira de um lago que reluzia as múltiplas cores assumidas pelo céu até o anoitecer. Uma equipe do lodge nos aguardava diante de uma mesa. No cardápio, vinho africano, cervejas locais e internacionais, amendoim e o clássico biltong: carne seca curada, vendida em saquinhos e produzida na África do Sul.

Conforme entardecia, a luz do lampião era a única a iluminar nosso ponto de parada. Passamos cerca de uma hora ali, assistindo ao pôr do sol dar lugar a um borrão de estrelas, falando sobre a época em que a caça ainda era permitida no país – a atividade foi proibida em 2014 – e ouvindo sons que, não fosse Dawson, jamais saberíamos de onde vinham. “São hipopótamos se comunicando... E leões.”

A pé. Também foi em Chitabe nossa experiência de caminhar em meio à selva, embora seja possível fazer o safári a pé em outras reservas. Partimos de carro logo cedo, sob o comando de Duke e Dawson. Em um local seguro, descemos do carro e recebemos as instruções. Sempre em fila indiana, acompanhamos os guias, que empunhavam uma espingarda para qualquer eventualidade. 

É preciso silêncio, atenção e estar com todos os sentidos apurados. Claro que boa parte fica por conta dos guias. São eles que sabem seguir pegadas e narrar os acontecimentos a partir delas – como a luta de um animal pela sobrevivência na noite anterior –, distinguir sons e explicar particularidades do caminho: troncos de árvores rasgados pelos elefantes, a ossada de um búfalo. 

A concessão privada de Chitabe ocupa cerca de 25 mil hectares do sudeste do Delta do Okavango e conta com dois acampamentos, o Chitabe Lediba e o Chitabe Camp (desde US$ 903 por pessoa a diária), onde ficamos. Tem oito tendas do estilo Meru, espécie de cabana ampla, com abertura de zíper e uma varandinha na frente. Abrigam duas pessoas e têm camas e banheiro conjugados, o que pode ser um problema dependendo do seu apego à privacidade. 

A vantagem é acordar e se deparar com um elefante. Distraída, segui para tomar café da manhã sem perceber que um grandalhão estava parado ao lado da ponte que dava acesso às tendas – e entendi por que, à noite, é proibido caminhar pelo lugar sem a companhia de um guia. 

Os colegas à frente chamaram minha atenção e parei também para observá-lo. Enquanto um dos guias explicava a rotina do mamífero, algumas colegas faziam selfies. A agitação o irritou o suficiente para que ele desse um passo em nossa direção, bramindo em alto e bom som. Não tive dúvidas: elefantes, apesar de fofos, me dão mais medo do que leões.

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