Bruna Tiussu/Estadão
Bruna Tiussu/Estadão

Juliana Diógenes, BRUMADINHO

10 Janeiro 2017 | 05h00

Contam os moradores da cidade de Brumadinho que a origem da palavra Inhotim remete a um inglês. O minerador Sir Timothy teria morado na área ocupada hoje pelo Instituto, mistura de museu, jardim botânico e galeria de arte a cerca de 60 quilômetros de Belo Horizonte. “Sir” ou “senhor”, em português, era muitas vezes abreviado para “nho” – assim, Sir Timothy teria virado “Nho Tim”. 

Embora não haja confirmação da veracidade da história – no Centro Inhotim de Memória e Pesquisa (Cimp) há outras versões mais plausíveis para a origem do nome da região –, a lenda conquistou os moradores, que não cansam de repeti-la. Mineiros são chegados em uma boa prosa, e não poupam teorias, histórias e lendas, como a de Nho Tim. Dedicar tempo para ouvi-los é a receita para quebrar a desconfiança inicial e engatar narrativas sem fim – se você der sorte, a conversa ganha café, pão de queijo, bolo e até “quitandas”, como eles chamam as rosquinhas, biscoitos de polvilho e outras delícias. 

É possível unir a visita ao Instituto Inhotim, que completou 10 anos em 2016, à boa prosa em uma só viagem. A essa combinação, dá-se o nome de turismo de vivência. Inhotim está no perímetro do município de Brumadinho, cidade simples no Vale do Paraopeba. Embora tenha 634 km², a população local é de somente 35 mil pessoas, que vivem espalhadas em sítios e fazendas. 

Com cada vez mais visitantes – foram 2,5 milhões ao longo de seus 10 anos –, o Inhotim agora serve de ponto de partida para um roteiro de experiências em seus arredores. Por trás das montanhas e descampados, há vilarejos, povoados e distritos que podem passar despercebidos ao turista menos atento. Nesses “esconderijos”, estão personagens do cotidiano mineiro que são a tradução da hospitalidade e dos sabores locais.

Para quando você for a Inhotim:

Como chegar: de Belo Horizonte a Brumadinho são cerca de 60 quilômetros – a partir do Aeroporto de Confins, leva-se de 1h30 a 2 horas de viagem, a depender do trânsito. Alugar carro dá mais mobilidade, especialmente se você pretende fazer a visita em dois dias, mas também há ônibus diários – saída às 8h15 da rodoviária e retorno às 17h30, R$ 47,35 ida e volta; saritur.com.br

 

Ingressos: se a sua visita for no fim de semana, compre o ingresso (terça e quinta R$ 25; quartas, grátis; R$ 40 às sextas, sábados e domingos) com antecedência pelo site para evitar filas. Você também pode comprar o transporte interno do parque (R$ 25), que percorre cinco rotas definidas. Compre um dia de transporte e concentre nele a visita de todas as atrações mais distantes.

 

O que levar: embora tenha jeitão de parque, o Inhotim é um instituto de arte. Por isso, não são permitidos piqueniques, nem entrar com alimentos. Mas deitar no gramado pode – não esqueça protetor solar, canga e água. Leve roupa de banho e toalha: a instalação de Jorge Marchi, uma piscina onde os visitantes podem nadar, é convidativa nos dias ensolarados. Dentro do Inhotim há três restaurantes e quiosques de comida rápida.

 

Site: inhotim.org.br

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Novas galerias e obras que não se deve perder

A comemoração pela primeira década do Instituto Inhotim não poderia ser de outra maneira: com novas exposições. No início de setembro, foram inauguradas duas novas mostras. Por Aqui Tudo é Novo e Light têm como objetivo criar uma nova leitura sobre o acervo do museu ao ar livre. 

Juliana Diógenes, BRUMADINHO

10 Janeiro 2017 | 04h55

Apresentada na Galeria Mata, Por Aqui Tudo é Novo é baseada no relato de um certo viajante, James W. Weels. No final do século 19, Weels passou por Brumadinho e ficou surpreso com a região. A exposição mescla produções de artistas mais novos da coleção do instituto com trabalhos que marcaram os primeiros anos do lugar. 

Light, por sua vez, expõe trabalhos que têm a luz como elemento sensorial sob a perspectiva de diferentes artistas. Instalada na Galeria Lago, a mostra estabelece relações entre obras de Cao Guimarães, Cildo Meireles e Cláudia Andujar e trabalhos apresentados em diferentes momentos da existência do Inhotim. 

Além das novas exposições, o Inhotim conta com um acervo de aproximadamente 700 obras de mais de 100 artistas brasileiros e estrangeiros, espalhadas por seus 140 hectares de área de visitação. Adriana Varejão, Tunga, Lygia Pape, Hélio Oiticica estão entre os mais conhecidos, mas há diversos tesouros escondidos pelo museu-parque – selecionamos alguns deles abaixo. Para visitar a maior parte das obras e curtir o belo paisagismo do local, no entanto, você vai precisar de no mínimo dois dias. 

Centro de Educação e Cultura Burle Marx e Yayoi Kusama. Um dos cantinhos escondidos de Inhotim, o Centro de Educação e Cultura Burle Marx é um espaço com salas de reunião e biblioteca voltada para o estudo de botânica. Ali, é possível sentar às mesas – quase sempre vazias – para descansar e admirar a quietude. Subindo as escadas por trás do café está a obra Narcissus Garden (2009), da artista japonesa Yayoi Kusama. Instaladas sobre uma lâmina d’água, bolas espelhadas se juntam, se espalham e mudam o cenário de acordo com a movimentação do vento. O trabalho é entrecortado por um jardim de plantas tropicais.

Galeria Claudia Andujar. Camuflado em uma densa mata tropical, o pavilhão é o segundo maior do parque e foi inaugurado em 2015. Exibe mais de 400 fotografias realizadas pela artista suíça Claudia Andujar entre 1970 e 2010 na Amazônia brasileira com os índios ianomâmis. O prédio foi projetado especialmente para receber a obra de Claudia – de tijolinhos artesanais, a ideia é que o lugar se confunda com a paisagem natural. Em alguns espaços da galeria, dá até para sentir o cheiro de terra. É o lugar ideal para gastar horas de contemplação sobre a cultura indígena. Destaque para a série de imagens das festividades xamânicas, que parecem estar em movimento. 

Forte Solitário. O nome não é a toa: o Forte Solitário (em inglês, Beehive Bunker) fica em um dos pontos mais altos do parque. De lá, é possível admirar a bela vista montanhosa da região. O forte é uma escultura do artista americano Chris Burden e foi instalada no ano de abertura do Inhotim. O local simula uma estrutura bélica de defesa, utilizada na Segunda Guerra Mundial, demonstrando uma preocupação de Burden com questões políticas. A obra é formada por 332 sacos de concreto instantâneo que, por um sistema de irrigação, enrijeceram de forma compacta. Se for subir a pé, prepare-se: o terreno é íngreme. Pouco antes está a obra Bean Drop, do mesmo artista. 

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Onde comer e dormir em Brumadinho

No centro de Brumadinho, uma rua principal conecta pousadas e restaurantes, além do mercado, da praça e do bar (apelidado de Pior Boteco do Mundo). Poucos moram no distrito, e todos se cumprimentam como se fossem membros de uma família grande. Angela Aparecida da Cruz Maia, de 47 anos, é um desses patrimônios culturais da cidade. Todo fim de semana, a quitandeira de sorriso tímido vende pães, bolos, broas, biscoitos e rosquinhas em uma simpática feirinha na Praça São Sebastião, ponto de encontro de moradores. 

Juliana Diógenes, BRUMADINHO

10 Janeiro 2017 | 04h55

Quitanda, explica ela, é como o povo da roça chama esse conjunto de comidas que ornam com café. O bolo de mexerica de Angela, com pedacinhos de fruta misturados à massa, é o carro-chefe. E não se acanhe mais do que a Ângela: caso queira a receita para testar em casa, peça e terá. A quitandeira não vê problema em dar todos os detalhes do preparo. 

Tudo na mesa dela custa R$ 10. Além de pousadas, tem clientes fixos que marcam presença na praça. “Só fiz um curso de profissionalização para aprender a cozinhar doce de leite com geleia de maracujá. O resto fui aprendendo mesmo com a vida. A gente vai testando as receitas”, conta. Além do bolo de Ângela, a feirinha é repleta de outros quitutes mineiros, ideais para levar de presente.

Na diagonal da praça, o “Pior Boteco do Mundo” abriga no máximo quatro mesas por vez. Dizem que o apelido surgiu porque Serginho Coutinho, o dono, fechava o bar de repente, quando bem entendia. O novo nome colou e, na porta do local, uma placa ostenta o título, com orgulho.

Mas se você estiver em busca de uma refeição mas substanciosa, um ponto obrigatório é o sofisticado almoço mineiro do Restaurante Abóbora (facebook. com/aboborarestaurante). Não saia sem tomar ao menos um drinque preparado por Antonio Carlos Caldeira. Ao lado da mulher, Carmelita Chaves, eles tocam o negócio desde 2010. Cravado na margem de um riacho, o sobrado de portão cor-de-abóbora dá as boas-vindas com flores roxas de flamboyants. 

O lugar é também um ponto de parada Harley Davidson, ideia de Antonio, alucinado por tudo da marca. Ele também é fã da saga Star Wars e de Halloween (por isso o nome Abóbora), temática de decoração do lugar. 

Antônio, que se define como “meio mágico, meio alquimista”, inventou quase todas as combinações encontradas ali: chocolate amargo com morango, melancia com menta e limão siciliano, manga ou tangerina com pimenta rosa... De um pé de manjericão na pia puxa umas folhinhas aqui e acolá, amassa um pouco com a ponta dos dedos e joga nos copos. O preço, de R$ 17 a R$ 22, varia de acordo com o álcool base escolhido (vodca, saquê ou cachaça). Como mineiro da gema, Antônio é chegado a uma conversa: puxe um banquinho e aproveite.

Enquanto beberica, peça uma costelinha de porco marinada na goiabada (R$ 65,90 para duas pessoas). Ou, talvez, um costelão de boi besuntado em cerveja preta (R$ 39 para uma pessoa). Depois da comilança, deitar no redário é uma ótima recompensa.

Hora de dormir. Enquanto o hotel que está sendo construído dentro do Inhotim não fica pronto (serão 44 bangalôs, em parceria com o luxuoso hotel Txai), quem visita o instituto normalmente se hospeda em Brumadinho. Escolher uma pousada que tenha restaurante facilita, já que as distâncias são grandes e você vai precisar de carro para os deslocamentos. Ficamos na Vista da Serra, na entrada da cidade, que exala tranquilidade e romantismo. O café da manhã recheado de opções típicas de Minas Gerais é o ponto alto. As diárias, que incluem o café colonial e chá da tarde, começam em R$ 285; vistadaserra.com.br

A Nossa Fazendinha tem chalés para casal ou para famílias e restaurante de comida típica, também aberto a não hóspedes. As diárias para casal vão de R$ 290 a R$ 390, com direito a café da manhã e acesso à área de lazer que inclui piscina, lago para pescar, contato com animais como cavalos e vacas; o quarto para quatro pessoas sai por R$ 480.

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Mais passeios nos arredores

É ao ar livre que estão as atrações do entorno de Brumadinho, como bem se notou até aqui. Algumas delas remetem ao passado da região; outras transferem para a tranquilidade local modismos que estão a todo vapor nas grandes cidades. 

Juliana Diógenes, ITABIRITO

10 Janeiro 2017 | 04h55

Mercadinho. Uma das mais famosas quitandas de Minas Gerais é adepta do escambo com trabalhadores rurais como forma de valorizar a agricultura local. Uma tradição preservada desde 1894, quando o negócio foi aberto. A Mercearia Paraopeba, no centro de Itabirito, é abarrotada de produtos do chão ao teto. 

De grampo de cabelo a goiabada cascão, de penico a gaiola de passarinho, reza a lenda que há todo tipo de mercadoria ali. Basta procurar. Mas, como quase todas as informações sobre o lugar, pode ou não ser lenda – ninguém revela. E esse é o charme do negócio. 

Roney de Almeida, o proprietário, conhecido como Roninho, recebe uma avalanche ininterrupta de gente. Embora seja considerado ponto turístico, o lugar é referência de mercadinho para os moradores da cidade. 

Roninho herdou a Mercearia Paraopeba do bisavô, o fundador do negócio. Com ajuda de duas funcionárias, fica na linha de frente e atende vários fregueses ao mesmo tempo. Ainda acha tempo para perguntar sobre detalhes da vida dos clientes assíduos. Conta que as visitas mais emocionantes são a de velhinhos nascidos no início do século passado, que viveram o tempo áureo das mercearias no estilo armazém e, com nostalgia, visitam a Paraopeba para relembrar as próprias experiências. 

Prove a goiabada cascão com queijo minas que ficam expostos no balcão. Para presentear, em meio a tanta informação visual, procure pelo doce de leite vendido em uma leiteira super charmosa, já pensado para levar de lembrança.

Parapente. O Topo do Mundo, uma elevação de 1.500 metros na Serra da Moeda, é base para voos de parapente operados por empresas como Fly Monster (flymonster.com.br) e Base da Nuvem (basedanuvem.com.br) – em ambas o custo do voo duplo, na companhia de um instrutor, é de R$ 350. 

É preciso ter um pouco de sorte com a brisa. Para voar, o ideal é que a velocidade do vento não passe dos 15 quilômetros por hora. Se as condições do tempo estiverem inadequadas, a atividade é reagendada. Também é possível fazer aula experimental, elevando-se a 3 ou 4 metros do solo sobre uma rampa inclinada. 

Cerveja. O movimento de cervejeiros artesanais encontrou boa acolhida em uma cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. Em Nova Lima, consolidou-se um polo cervejeiro que levou à criação da Feira Experimente (bit.ly/viaexperimente). Todo segundo sábado do mês, na praça principal do bairro Jardim Canadá, o festival reúne novidades do mercado artesanal da cerveja, cozinheiros convidados e shows musicais. Cervejarias conceituadas como a Wäls e a Backer já participaram. 

Em outubro, foi reinaugurada uma cervejaria escola com temática medieval. Com shows de rock e blues, além de noite de vinil, a Taberna do Vale (tabernadovale.com.br) oferece 17 estilos de cerveja. As almôndegas de porco e boi com ervas e especiarias são a especialidade da casa (R$ 38, serve 3 pessoas). A degustação de cerveja com três copos custa R$ 28; com seis, R$ 39. 

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Gostinho de tradição

Pastel de angu. Diz-se que o pastel de angu nasceu em Itabirito. Consideradas parte do patrimônio cultural do município, as quitandeiras Nadil Fátima de Aguiar, de 59 anos, Conceição de Paula, de 76, e Irene Maria de Araújo, de 55, perpetuam o jeito tradicional de preparar a iguaria. Para manter viva a tradição e repassar para novas gerações, a Secretaria de Cultura de Itabirito leva o trio às escolas para ensinar aos alunos o preparo da receita. Para provar do famoso pastel de angu, basta entrar em contato e ir até a casa delas, onde produzem e vendem a iguaria. Anote: (31) 3561-2376 e (31) 3563-1231. 

Juliana Diógenes, ITABIRITO

10 Janeiro 2017 | 04h55

Fogão à lenha. É quase uma regra na região – e muitos restaurantes mantêm o costume. Em Moeda Velha, um distrito que se resume a uma praça, uma igreja e ruínas, o único restaurante do local, o Casa da Moeda Velha (31-99306-1723), não foge ao costume. Com clima hospitaleiro e cardápio com os pratos escritos à caneta, o espaço é rústico e a comida, caseira. Entre as opções mais saborosas estão o frango com quiabo e angu e o feijão tropeiro com costelinha. O local produz a própria cerveja artesanal, chamada de Moeda Velha. Depois de comer, dê um passeio pelas ruínas da antiga casa de moedas, que fica ao lado da Igreja de São Caetano. 

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