Viagem

Deserto do Atacama: o que você precisa saber

Uma semana é o tempo ideal para ver com calma as atrações e deixar o corpo se aclimatar com a altitude

08/11/2016 | 04h20    

Marina Pauliquevis - O Estado de S.Paulo

Em agosto de 2016 surgiu uma nova forma de observar o Atacama: de balão. O tour dura em torno de 1 hora e custa US$ 300

Em agosto de 2016 surgiu uma nova forma de observar o Atacama: de balão. O tour dura em torno de 1 hora e custa US$ 300 Foto: Juan Jaeger/Divulgação

Do avião, partindo de Santiago em direção à cidade de Calama, no norte do Chile, a visão da Cordilheira dos Andes muda drasticamente ao longo das duas horas de voo – os picos nevados vão diminuindo até tudo ficar marrom. É apenas uma dica do que vamos encontrar em nosso destino: o Deserto do Atacama, considerado o mais seco do mundo. Em Calama, a extrema aridez causa impacto à primeira vista. 

Nos próximos 100 quilômetros de estrada até San Pedro de Atacama, a pouca vegetação é de um verde desbotado, arbustos que vão se perdendo no terreno com pedras. No povoado, a umidade zero é sentida na pele logo na chegada. O lugar serve de base para os passeios no deserto e concentra hospedarias – de albergues a hotéis de luxo –, agências de turismo, restaurantes e lojas de artesanato. 

Como nos demais povoados da região, este cresceu ali por causa da presença de água. O Rio San Pedro, abastecido pelo degelo da cordilheira, garante água o bastante para os moradores e para pequenas plantações, sobretudo de alfafa, usada para alimentar animais. A chuva é rara e chega somente entre fevereiro e março, durante o chamado inverno altiplânico. Em cerca de 340 dias do ano, o céu é limpo. De dia, raras nuvens aparecem; à noite, fica coalhado de estrelas.

Não à toa, o deserto foi o local escolhido para a instalação de centros de observação dos astros de diversos países e do projeto multinacional Alma, maior observatório do mundo. Não só as características do clima favorecem o estudo do espaço ali, já que a secura impede a formação de nuvens, mas também a ausência de poluição e a pouca iluminação artificial. Turistas podem aprender sobre planetas, nebulosas e constelações em um tour astronômico oferecido por agências e hotéis.

No nosso caso, fizemos o tour no hotel, o Alto Atacama. Às 22 horas, todos se reúnem no lobby para seguir até a plataforma de observação. Antes de ir, o guia reforça a recomendação de vestir um agasalho mais pesado: os brasileiros costumam reclamar do frio, diz. Uma jaqueta corta vento e um gorro são bem-vindos. 

A observação dura cerca de uma hora e começa a olho nu, sob orientação de um guia que indica as estrelas com ajuda de uma caneta laser. Depois, o momento mais esperado: podemos usar o telescópio. Naquela noite vimos Marte, ainda maior e mais brilhante pela lente, e Saturno.

11 imagens

Nas alturas. O sol só aparece depois das 7 horas da manhã (em compensação, às 20 horas ainda é dia claro). É por volta das 6 horas, quando ainda nem começou a clarear, que partimos para um passeio novíssimo: um voo de balão pelas redondezas de San Pedro, que começou em agosto. 

Depois de um desjejum rápido, com biscoitos, café e leite, nossa piloto, a australiana Elly, passa as instruções de segurança com firmeza e enche de confiança quem, como eu, estava um pouco apreensivo com a primeira experiência em um balão. Ao chamado de “todos a bordo”, os 16 aventureiros sobem ao cesto. Com exceção de alguns gritos de exclamação, o silêncio cresce à medida que o balão sobe; só se ouve o barulho das chamas controladas pela piloto que enchem o balão. 

Sobrevoamos uma região plana nas bordas do povoado cercada pelas Cordilheiras Domeyco e dos Andes. O vulcão Licancabur está sempre à vista. Quando o sol finalmente nasce, estamos a cerca de 600 metros de altura. Nesse momento, já não há sombra de preocupação com o passeio, o balão segue suave enquanto o grupo de viajantes – falando inglês, francês, espanhol e português – não cansa de fotografar. 

O voo custa US$ 300 e pode durar até uma hora, conforme as condições do vento. Para nossa tristeza, o vento nos levava em direção ao Vale da Lua, onde o sobrevoo não é permitido, e tivemos de descer em apenas 30 minutos. Pousamos tranquilamente, seguindo a orientação da piloto de sentar e segurar as cordas de apoio. Ela já havia alertado que não é raro que, nesse momento, o cesto do balão quique ou mesmo tombe. Em terra firme, brindamos com espumante depois de derrubar algumas gotas na areia para honrar a Pachamama, a mãe terra na crença inca. Ver o deserto de cima: que bela maneira de começar o dia.

VIAGEM A CONVITE DA LATAM, DO TURISMO CHILE E DO ALTO ATACAMA HOTEL 

O QUE LEVAR

Para o dia

À tarde, faz calor – bermuda e camiseta são bons companheiros. Protetor solar e labial, hidrante para o rosto e para as mãos devem estar sempre com você. Boné e óculos escuros são fundamentais. Roupa de banho para as piscinas e termas

Para a noite

Nada de salto alto: à noite, a temperatura cai cerca de 20 graus e você vai precisar de gorro, luvas, cachecol e casaco corta-vento. Vista-se em camadas

Para os passeios

Uma mochila pequena ajuda a acomodar o tira e põe de roupas. Use bota ou tênis para caminhada e tenha uma garrafa d’água sempre à mão. Soro fisiológico para o nariz e colírio ajudam a diminuir o desconforto causado pela baixa umidade

SAIBA MAIS

Aéreo: SP-Calama-SP, com conexão em Santiago: em dezembro, a partir de R$ 2.279,07 na Latam

 

Altitude: San Pedro está a 2.300 mil metros acima do nível do mar e há passeios que chegam a 5 mil. Há quem experimente falta de ar, dor de cabeça e enjoo. Beba muito líquido, evite álcool e prefira comidas leves. Há remédios específicos para o mal de altitude, mas aspirina ajuda – peça orientação a seu médico

Bebidas alcóolicas: Em San Pedro, bebidas alcoólicas nas ruas são proibidas e não há bares. Nos restaurantes, para beber, é preciso consumir alimento. Para se refrescar, há sorveterias perto da praça da igreja, onde turistas usam o Wi-Fi livre

Dinheiro: Troque dólares (ou reais) por pesos chilenos já em Santiago – a maioria das lojas de artesanato só trabalha com moeda local e não aceita pagamento com cartão. Em caso de emergência, nas ruas centrais de San Pedro há algumas casas de câmbio

ONDE FICAMOS

Entre montanhas de terra marrom, o Alto Atacama Desert Lodge & Spa tenta se mimetizar com a paisagem. Do bloco de entrada ao dos quartos, tudo tem a cor do entorno e lembra algumas das casas locais, feitas de adobe, uma mistura de barro e palha que contribui para o conforto térmico. 

À noite, para andar entre uma construção e outra, espere um pouquinho para a vista se acostumar com a escuridão: propositalmente, a iluminação é feita apenas por pontos de luz no chão; assim, é possível admirar o céu estrelado. Entre um passeio e outro, arrume um tempo para ficar à beira de uma das piscinas ou mesmo para um mergulho – uma delas é aquecida. 

O hotel fica a 10 minutos de carro da rua principal de San Pedro de Atacama e oferece bicicletas para os hóspedes (são menos de 30 minutos de pedaladas). O sistema é all-inclusive, com passeios e refeições. Diárias a partir de US$ 650 o casal.

 

 

 

 

Lagunas altiplânicas

Flamingos, lhamas e burros surgem no caminho para as lagoas Miscanti e Miñiques

Caminho cercado por pedras indica a Laguna Miscanti, 4 mil metros acima do nível do mar

Caminho cercado por pedras indica a Laguna Miscanti, 4 mil metros acima do nível do mar Foto: Marina Pauliquevis/Estadão

Com mais tempo para levantar e tomar o café da manhã, saímos por volta das 9 horas para conhecer as Lagunas Miscanti e Miñiques, a 126 quilômetros de San Pedro de Atacama. No caminho, uma rápida parada nos povoados de Toconao e Socaire para conhecer as igrejinhas erguidas no século 18 e ver um pouco de artesanato. Artesãs mais antigas ainda usam os espinhos do cactos gigantes como agulhas para tricotar. 

Perto da estrada, grupos de burros pastam na escassa vegetação rasteira. Animais que antes eram usados para transportar carga em minas de cobre foram abandonados no deserto nos anos 80, substituídos por veículos, e se reproduziram. Hoje, vivem soltos e sem dono.

Ao longe, vemos a entrada do projeto astronômico Alma, mas as mais de 60 antenas do observatórios estão instaladas a 5 mil metros de altitude. Quando descemos em Socaire, a 3.200 metros do nível do mar, percebemos a mudança no clima – está mais frio e o céu, que em San Pedro estava totalmente limpo, aqui já tem nuvens. Os terraços de cultivo, método de plantação em níveis desenvolvido por povos andinos, ainda são usadas na plantação de batata, feijão e alfafa. Assim como o sistema inca de canalização dos rios.

Quando atingimos 4 mil metros de altitude, a vegetação muda e surge uma gramínea amarelada e espaçada, a paja-brava. A altitude pode causar desconforto, como dor de cabeça, enjoo e falta de ar. Tomar muita água alivia os sintomas. Deixar para fazer os passeios de maior altitude nos últimos dias de viagem, quando o corpo estiver mais aclimatado, também ajuda.

As lagoas ficam ao pé dos vulcões Miscanti e Miñiques e refletem o azul do céu – foto boa garantida e sem filtro. O passeio é feito por caminhos demarcados com pedra e não é permitido chegar perto da água. Pequenas aves, gaivotas e vicunhas, uma parente das lhamas, estão por ali. No inverno, o frio é intenso e a visitação é suspensa. Em outubro, um casaco corta-vento foi suficiente para proteger da temperatura mais baixa.

A partir de janeiro de 2017, quem busca isolamento vai poder se hospedar em uma casinha à beira da Miscanti, por 20 mil pesos por noite (R$ 100). O lugar é administrado por uma comunidade local e a entrada custa 3 mil pesos (R$ 15). Há banheiros simples, mas limpos. 

No fim do passeio, os hotéis que organizam a visita montam uma mesa para refeição ali mesmo, com direito a vinho chileno. Agências podem incluir na mesma saída o Salar de Atacama e outra lagoa, a Piedras Rojas, em um passeio que dura o dia todo.

Entre flamingos. No Parque Nacional dos Flamingos, o Salar do Atacama é apenas uma parte de um grande salar com 3 mil quilômetros quadrados, localizado a 2.300 metros metros de altitude. Ali vive uma colônia de flamingos que não deixam o local nem mesmo no inverno, quando essas aves costumam migrar. Na Lagoa Chaxa eles convivem com pequenas aves e gaivotas. A água ali é rica em artêmias, crustáceos que são o alimento preferido dos flamingos – e os abastecem com o corante natural que dá a cor rosada às suas penas.

Gêiseres del Tatio

É preciso sair antes do dia amanhecer para ver o espetáculo da natureza

Gêiseres del Tatio: é preciso madrugara para chegar a tempo de ver as fumarolas e os jatos d'água, quechegam a atingir 10 metros de altura

Gêiseres del Tatio: é preciso madrugara para chegar a tempo de ver as fumarolas e os jatos d'água, quechegam a atingir 10 metros de altura Foto: Dennis Fidalgo/Estadão

O sol ainda nem saiu quando os turistas entram nas vans para seguir em direção aos Gêiseres Del Tatio, por volta das 4 da manhã. Nesse dia, vestir-se em camadas é fundamental. A temperatura é próxima ao zero (às vezes negativa) na saída do hotel. 

A atração fica a cerca de 100 quilômetros de San Pedro. É ali, em meio aos gêiseres, que se vê o sol nascer. O vapor da água quente, a cerca de 80 graus, contrasta com o ar frio, e forma um espetáculo difícil de ser esquecido. Alguns jatos d’água chegam a 10 metros de altura.

Depois do passeio, os guias servem o café da manhã e é possível se banhar em piscinas termais, com água a 40 graus. Se estiver disposto, vá com roupa de banho por baixo. 

As agências recomendam deixar o tour para os últimos dias, não apenas para encerrar em grande estilo, mas também em razão da altitude: os gêiseres estão a 4.300 metros acima do nível do mar, e seu corpo estará mais adaptado no fim da viagem.

Vales da Lua e da Morte

A 25km de San Pedro de Atacama, a impressão é de estar em outro planeta

Turistas caminham pelo Vale da Lua, que deve ser um dos primeiros passeios do Atacama: paisagens que parecem de outro mundo e nenhum sinal de vegetação

Turistas caminham pelo Vale da Lua, que deve ser um dos primeiros passeios do Atacama: paisagens que parecem de outro mundo e nenhum sinal de vegetação Foto: Marina Pauliquevis/Estadão

O Vale da Lua me deu as boas-vindas ao Atacama. Não poderia ter começado melhor minha viagem pelo deserto. A 25 quilômetros de San Pedro, o passeio não exige muito do turista e é até aconselhável que seja feito no início da viagem, para que o corpo vá se aclimatando com a altitude. No caminho, cruzamos com vários turistas que optaram por fazer o trecho de bicicleta.

Ali, a secura é extrema e não há traço nenhum de vegetação. Só formações rochosas e dunas avermelhadas. Caminhamos por cerca de 3 quilômetors, passando por subidas que pedem um pouco mais de fôlego – estamos a 2.550 metros do nível do mar e o corpo reclama. Carregue sempre com você uma garrafa d’água, de preferência, térmica.

Do alto de uma duna, vemos por que o lugar foi batizado de Vale da Lua. Em um terreno plano, a superfície esbranquiçada pelo sal, muito presente no solo de toda a região, lembra as fotos que vemos do satélite natural da Terra. 

De lá, rodamos mais 10 minutos de carro em direção ao Vale da Morte para ver o pôr do sol. Se no Vale da Lua o calor chegou a incomodar, aqui, ao cair do dia, tivemos de tirar da mochila o casaco corta-vento – companheiro indispensável na viagem.

Segundo os guias, não há consenso no motivo que batizou esse pedaço do deserto. Uma das explicações seria uma confusão com a tradução do nome dado pelo padre e explorador belga Gustavo Le Paige, que estudou o lugar e pretendia chamá-lo de Vale de Marte. O que faria muito mais sentido, considerando que é o lugar é considerado o mais inóspito do Atacama.

Termas de Puritama

Águas termais para relaxar a 3.400 metros de altitude

A 36 km de San Pedro, as Termas de Puritama são formadas por várias piscinas naturais, com algumas quedas d'água. Não importa a temperatura exterior: lá dentro vai ser sempre quentinho

A 36 km de San Pedro, as Termas de Puritama são formadas por várias piscinas naturais, com algumas quedas d'água. Não importa a temperatura exterior: lá dentro vai ser sempre quentinho Foto: Marina Pauliquevis/Estadão

A 36 quilômetros de San Pedro, as Termas de Puritama definem bem o que é um oásis. No meio do deserto, surge um rio subterrâneo que forma piscinas naturais de água quente, cercadas de vegetação. Em um vale a 3.400 metros de altitude, o lugar tem vestiários e espaço para refeições, mas nada é vendido ali. 

A água transparente tem temperatura constante de cerca de 30 graus. Se o passeio for organizado pelos hotéis, toalhas e roupões estão garantidos, assim como lanche e bebidas. As piscinas têm no máximo 1,20 metro de profundidade – perfeitas para relaxar. Se estiver ventando, pode ser difícil sair da água quentinha de uma piscina para experimentar a próxima – são vários poços, separados por cachoeiras. A primeira é exclusiva para hóspedes do Hotel Explora, que administra o lugar. As agências cobram, em média, cerca de 12 mil pesos (R$ 60) pelo passeio.

Por causa da aridez, há poucos animais à vista. Mas tivemos a sorte de avistar ali um condor em pleno voo. No percurso até as termas, é possível observar os cactos gigantes típicos da região, que surgem entre as pedras. Os cardones crescem até 1 centímetro por ano – fica claro que muitos deles são centenários. No passado, o tronco era usado em construções. Leve e resistente, o material ainda pode ser visto no teto de igrejas dos povoados. Hoje, as plantas são preservadas. 


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