Arte/Estadão
Arte/Estadão

'Devil's bood' e outras experiências

Ainda no Canadá, apreciando as belezas de Vancouver, nosso correspondente enviou a resposta para mais uma pertinente questão de seus leitores. Veja na sequência.

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

11 Agosto 2015 | 00h00

Querido Miles, estou muito curiosa: acabo de comprar uma viagem para a Ásia, que promete ser uma “experiência” rara. Qual é a diferença entre viagens e experiências, nobre viajante? - Ana Cristina Maglione, por e-mail

Well, my dear: em princípio, toda viagem é uma experiência, boa ou ruim. O problema é que, nowadays, ninguém mais viaja, nem mesmo se alimenta. Todo mundo passa por experiências. Experiência é a palavra da moda no marketing do prazer e, unfortunately, tem sido tão usada que já perdeu o sentido. Eu confesso que continuo viajando e comendo – bem ou mal –, mas não vejo qualquer sentido em transformar uma atividade, que deveria ser trivial, em experiência, palavra que, na verdade, significa ensaio ou prova e, em outro significado, longa convivência com uma atividade.

 

Devido à minha sempre polêmica e provecta idade, sou o que se chama de uma pessoa experiente. É, quem sabe, um bônus (ou um ônus) que carregam os seres longevos.

Na minha infância, I must say, experiência era uma palavra intrinsecamente ligada à química. As experiências conhecidas eram todas no ramo da alquimia. Quando pequeno, em Essex, ganhei um brinquedo que servia para as primeiras experiências na matéria. Entre outras coisas inocentes – mas nem sempre bem-intencionadas –, aprendi a produzir um líquido chamado devil’s blood. Era uma mistura de ingredientes dos quais não me recordo. O resultado, facilmente obtido, era uma infusão de cor vermelha que, no entanto, não tingia nada. O objetivo era assustar os amigos arremessando o líquido nas camisas engomadas que eles usavam para ir à escola. As vítimas ficavam aterrorizadas com a perspectiva de que suas roupas enrubescessem e isso lhes custasse golpes de palmatória por parte dos nada pedagógicos professores de então. Mas o máximo que ocorria era que os trajes ficavam ligeiramente molhados.

Hoje, ir a Aparecida do Norte ou Jerusalém são viagens chamadas de experiências místicas ou sagradas. Ir a qualquer praia é uma experiência balneária. Visitar um museu é uma experiência sensorial. However, quase sempre o resultado é inócuo como um copo de devil’s blood.

Anyway, há o que se pode chamar de experiências de fato. Na África do Sul, são muitas as pessoas que descem ao fundo do mar em uma jaula para ficar frente a frente com um tubarão branco. É, of course, uma ‘experiência’ atemorizante, pela qual meu jovem amigo Mick Fanning não pagaria um níquel. Don’t you agree?

Mas há experiências concorridas que são ainda piores. Praticar caving na Nova Zelândia, com a necessidade de encontrar saídas para as entranhas das cavernas no escuro e dentro da água é uma experiência que nem as marmotas apreciariam. Dormir a cinco graus abaixo de zero, sobre uma espécie de túmulo gelado nos chamados ice hotels, é ótima prova para sorvetes e salsichas que precisam durar algum tempo. Comer em restaurantes completamente escuros, sem poder ver o conteúdo de seu prato ou a cor de seu vinho, é outra das chamadas ‘experiências sensoriais’ que funcionariam melhor caso houvesse, ao menos, um cardápio em braile. 

Espero que você tenha felicidade em sua experiência. Se isso ocorrer, ela ganhará seu verdadeiro nome: uma boa viagem.

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

Mais conteúdo sobre:
Mr Miles

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.