Dia 1: uma pirambeira para dar as boas-vindas

Com os primeiros raios de luz, o grupo dos que buscavam trilhas mais desafiadoras deixou Cuzco rumo ao vale do Rio Urubamba, mais conhecido como o Vale Sagrado dos Incas. Diante da charmosa igreja colonial do vilarejo de Qoya (2.900 m), trocamos a van por robustos veículos 4x4 e iniciamos uma sinuosa subida na recém-aberta estrada de terra, beirando precipícios. Na comunidade de AyarCancha, a 3.800 metros de altitude, com um horizonte nublado e sol tímido, o fim do caminho motorizado se anunciou.

Felipe Mortara/Estadão, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2014 | 02h07

Dali, passamos a caminhar morro acima por uma hora até o Passo de Challwacassa (4.250 m). A primeira pirambeira em grande altitude castigou muitos da turma. Devagar, bebendo muita água e arriscando as primeiras folhas de coca no canto da boca (para combater os efeitos da altitude), todos alcançaram o ponto alto do percurso. Só boas notícias: dali em diante, apenas 30 minutos de descida até o pueblo de Viacha (3.900 m).

Enquanto éramos recompensados por campos de capim dourado, com lindas montanhas ao fundo, o grupo semiativo saiu de Cuzco uma hora mais tarde em outra van, rumo à cidade de Pisac. Ali, visitaram o colorido mercado, que ocorre às terças, quintas e domingos, provaram sabores e se inteiraram do cotidiano dos moradores. Também conheceram o Centro Artesanal Ancasmarca, especializado em tecidos, com destaque para as lhamas, guanacos e alpacas vivos. Foram apresentados aos métodos de tosa, filamento e coloração de fios, entendendo todo o processo de produção, até o tear.

Nos encontramos para um almoço caprichado - eles de van, nós a pé -, armado em uma tenda na pracinha de Viacha, ao som de flauta e tambor. "Começamos a receber visitantes aqui em setembro, estamos muito contentes. Cada dia nos organizamos para servi-los melhor", disse, entre sorrisos, Antonia Mamani Yucra, de 32 anos. Cinco mulheres estenderam panos com seus trabalhos artesanais, como lenços, cachecóis e gorros, sempre muitos gorros.

"Aos visitantes, as batatas", brincou Julian Maqque Ccoyo, de 36 anos, enquanto mostrava em um galpão dezenas das mais de 270 variedades do tubérculo produzidas nos Andes. "Conheço todas", afirmou, categórico. E, já que o prato escolhido foi a pachamanca (refeição preparada em um buraco no chão, repleto de pedras quentes), ele fez questão de servir. "Colocamos camadas de pedras intercaladas com carne de frango, de porco, de cordeiro e cuy (porquinho-da-índia) e, por cima, as batatas. Depois, vamos comendo com a mão, como num churrasco", ensina.

Para digerir a comilança, todo o grupo se uniu para caminhar montanha abaixo, por 1h30, rumo ao impactante sítio arqueológico de Pisac (3.200 m), que domina todo o vale e tem um quê de Machu Picchu. As encostas mais baixas das montanhas exibem longos e curvilíneos terraços para plantio e sistemas de irrigação impressionantes. "Os incas erguiam suas construções sagradas levando em consideração medições de solstícios e equinócios. Tudo tinha um porquê", explicou Andrés Adasme, especialista em arqueoastronomia (estudo da astronomia praticada por povos pré-históricos), que acompanhou o grupo.

O dia terminou com a recepção no lodge de Lamay - inaugurado por nós. Amplo, com oito apartamentos, tem lhamas no jardim e massagem terapêutica para ajudar na recuperação pós-caminhada (um total de 6 horas, para o grupo ativo). Caprichoso, o chef Mario Muro serviu risoto de ervas com um suculento bife de filé mignon, que caiu bem com uma cerveja Cusqueña. Após um dia de sobe e desce na montanha, é bom dormir em uma cama zero quilômetro.

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