Dia 2: segredo revelado a quem acorda cedo

Sinceramente, minha vontade era não contar para ninguém sobre este lugar. Gostaria de voltar um dia e não encontrar quem quer que fosse no Passo de Huchuyccasa, a 4.414 metros de altitude. Mas vou dividir com você, leitor: dali, vi um dos cenários mais lindos da minha vida.

Felipe Mortara/Estadão, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2014 | 02h07

A mais deslumbrante caminhada que fiz nos Andes começa cedo, antes mesmo de o sol nascer. Depois de sair do lodge de Lamay, duas horas de viagem levam a Quiswarani (3.829 m) por uma estrada recém-asfaltada, cercada de picos nevados banhados pelos primeiros raios de luz. Para melhorar o que já é incrivelmente belo, um bando de lhamas fotogenicamente cruza a via. Os dedos descobertos para clicar o momento lutam contra o friozinho matinal andino. Chegamos à região de Lares, que batiza o percurso todo - uma homenagem mais que merecida.

Singular e compacta, Quiswarani é o ponto de partida para a jornada mais revigorante da nossa semana. Enquanto já dávamos os primeiros passos na trilha, nossos companheiros do grupo semiativo ainda despertavam placidamente em Lamay. Dali, seguiriam de carro para as ruínas de Ancasmarca, a 4.044 metros de altitude, antigo entreposto inca com localização estratégica entre as altas montanhas e a selva amazônica.

Por 2h40, subimos moderadamente até alcançar o citado Passo de Huchuyccasa, seguindo o mantra andino: muitas paradas, muita água e muita folha de coca. As nuvens iam ficando abaixo de nós, enquanto um céu azul descortinava picos ao longe. Translúcida, a Lagoa de Qeuñacocha tinha lhamas pastando ao redor.

Estava tudo muito lindo e inspirador, apesar de a montanha já se fazer mais íngreme. Mas, na hora em que se atravessa o tal passo, caro leitor, o que se vê do outro lado é embasbacante. Impávidas e ensolaradas, Comercocha e Totoracocha, lagoas de tons turquesa, repousam no fundo do vale, rodeadas por um caldeirão de montanhas gramadas.

Não é miragem. Gritos, sorrisos e selfies antes de prosseguirmos por mais uma hora até o Passo de Phoñaccasa (4.387 m), em um chamado "plano andino" - ou seja, nem sobe muito, nem baixa muito. De lá, se vê a Laguna Negra. Uma quebrada à direita e começamos a descer. Em poucos instantes, outra lagoa, lá longe, com três tendinhas amarelas minúsculas na beira.

Neste momento, nossos colegas semiativos deviam estar passando - de carro - pelo Passo de Lares (4.420 m) até chegar a Cuncani (3.884 m), de onde caminhariam suavemente por três horas. Fontes seguras contaram que almoçaram um belo lunch box, com uma salada deliciosa e um sanduíche.

O melhor para o grupo ativo, contudo, ainda estava por vir. Bastaram 30 minutos de descida para alcançarmos a lagoa de Qeywacocha (4.150 m), onde as pequeninas tendas que se viam ao longe se transformaram, de perto, num amplo restaurante. Um capricho, que incluía água quente para lavar as mãos, cervejinha para os mais animados e Inka Cola (o tradicional refrigerante local) para os carentes de glicose. Uma reconfortante sopa de milho com queijo e um lomo saltado (carne picada típica da região) nos deixaram ainda mais perto do céu.

Mas, como tudo o que sobe, era preciso descer. E lá fomos nós, por 1h30, até o vale de Qelqena (3.647 m), onde a van nos esperava. Totalizamos seis horas de dura caminhada em oito quilômetros percorridos. Lá de baixo, podíamos avistar no alto do platô - tal qual formiguinhas - os companheiros semiativos em sua plana e tranquila caminhada de três horas. Logo estaríamos relaxando na jacuzzi, antes de jantar no lodge de Huacawasi (3.800 m), onde todos nos encontramos no fim do dia. E que dia.

Mais conteúdo sobre:
Machu Picchu Peru Cuzco

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.