Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Dia 3 - Os navegantes

Conheci Ari na área livre do convés superior, que a dinâmica do dia a dia do barco transforma em ponto de encontro, praticamente uma praça...

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h10

"Tenho 20 reais”, contou o argentino Ari Blanch, de 22 anos, que desde o começo de 2017 viaja pela América do Sul apenas com o dinheiro dos trabalhos que consegue pelo caminho. Antes de Manaus, estava em Búzios, no Estado do Rio; seu plano agora era passar pelo menos um mês na Colômbia. O esquema do M. Monteiro era perfeito para a dureza financeira dele: uma semana de transporte, hospedagem na rede e três refeições por dia, tudo por R$ 385. Ari era um dos oito mochileiros estrangeiros a bordo: havia ainda mais uma argentina, quatro franceses e duas alemãs.

Conheci Ari na área livre do convés superior, que a dinâmica do dia a dia do barco transforma em ponto de encontro, praticamente uma praça. Fica ali a lanchonete, que também faz papel de mercadinho. Ali eram celebrados cultos evangélicos todas as noites, ao fim dos quais os adolescentes dominavam o espaço, enquanto a lanchonete despejava música sertaneja, arrocha, cumbia e outros ritmos caribenhos. 

O fato de não haver passeio previsto deixou o terceiro dia especialmente interessante. Deu tempo de passear entre as redes trocando sorrisos com uns, papeando com outros. De acompanhar a recreação que a enfermeira do barco, Nery, de 35 anos, oferecia às crianças, com papel, lápis de cor e leituras de histórias. De conhecer Joelma, que viajava com a filha Ágata, de 2 anos, de volta a Santo Antônio de Içá, depois de visitar o marido que está trabalhando em Manaus.

Também deu tempo de descobrir que não se vende bebida alcoólica a bordo. Já tiveram problemas, não querem mais, explicou Augusto, arrendatário da lanchonete do barco, que vende sanduíches a R$ 5 e cigarros por unidade, R$ 0,50 cada. 

Augusto tem 52 anos e virou comerciante depois de uma vida inteira de trabalho em departamentos de recursos humanos em empresas do polo industrial de Manaus, o que lhe rendeu uma crise de estresse. Diz que ganha menos, mas está mais feliz. Lamentamos o fato de não podermos compartilhar uma cerveja para brindar à conversa. Ele oferece café de coador.

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