Duas historietas para divertir

Nosso viajante já arrumou as malas e partiu para o Equador. Seu objetivo é comemorar os 50 anos de seu afilhado Juan Bolaños, um próspero fabricante de chapéus panamá na cidade de Montecristi. Trashie, a raposa das estepes siberianas, vai junto, apesar do calor.

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

31 Março 2015 | 02h07

Querido mr. Miles: o clima anda muito negativo no Brasil com a corrupção, as brigas nas redes sociais e a falta de perspectivas política e econômica. O senhor poderia compartilhar algumas histórias engraçadas que presenciou em viagens?

Laura Otaviani, por e-mail

"Well, my dear: as you know, como cidadão britânico, não me sinto no direito de dar palpites sobre a vida alheia - a não ser quando os descalabros ultrapassam os amplos direitos e liberdades do ser humano. Nevertheless, conforta-me saber que algumas poucas recordações possam elevar o astral reinante.

Se não me falha a memória, há cerca de 20 anos, fui com mr. Val Kun Ha, um amigo e fotógrafo de Formosa, visitar o templo de Tanah Lot, construído em um penhasco à beira-mar na ilha de Bali. O propósito de Kun Ha era aproveitar a luz do sol poente para fazer uma foto no contraluz da efígie do templo. Entramos, fomos convidados a vestir nossos sarongues cor de laranja e advertidos em inúmeras placas sobre a presença de macacos com o hábito de roubar pertences dos turistas.

Eis que, tendo vivido experiências anteriores com símios celerados, caminhamos com muito cuidado, sempre atentos aos movimentos em árvores próximas. Deixe-me contar-lhes, as well, que Kun Ha, apesar de grande fotógrafo, era incapaz de enxergar um palmo à sua frente sem seus óculos.

Eis que chegamos ao ponto que o daguerreotipista taiwanês considerou ideal para capturar sua imagem. Eu estava cerca de cinco jardas atrás, observando pássaros, o que, as you know, é um antigo hobby meu. De repente, quase fui derrubado por alguém que passou zunindo. Mal me refiz e, of course, lá estava o macaco ladrão atracado às costas do fotógrafo.

A cena já era naturalmente cômica. Pois tornou-se ainda melhor quando reparei que o ladrão tinha subtraído justamente os óculos de sua presa. De seu lado, Kun Ha, agarrado a uma mísera haste, gritava e trocava sopapos com o primata. A luta era acirrada. Eu, unfortunately, não podia intervir nem ajudar, porque estava sentado no chão de tanto rir. At last, prevaleceu o instinto de sobrevivência profissional de Kun Ha. O mono, dolorido, tomou o caminho de volta e o fotógrafo, triunfante, teve apenas o trabalho de desentortar sua armação. Funny, isn't it?

Ou será mais divertida a história, já contada nessa coluna, que envolve outro fotógrafo, o chileno Jaime Trauco Ibañez Acuña, a quem fui encontrar, certa vez, na Polinésia? Dom Jaime, I must say, já esteve tantas vezes nas ilhas francesas que desconfia-se de que tenha uma segunda família por lá. Whatever... O fato é que duas semanas antes de nosso encontro ele me incitou a comprar um tipo de calçado especial para caminhar sobre os corais, sem quebrá-los ou ferir os pés. Um parêntese para dizer que, assim como Kun Ha, Jaime também tinha um problema de visão: era daltônico.

Cheguei ao aeroporto de Faaa (assim mesmo, com três "as") de madrugada e recebi o recado de que Jaime estaria na praia da frente, taking pictures. Decidi encontrá-lo e... oh, my God! Lá estava o chileno vestindo um par de melissinhas cor-de-rosa. Eram o tal calçado especial de que falara. A cor? Ele jurava que era verde!"

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos 

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