Daniel Teixeira/Estadão
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DUBAI, PARADA DE LUXO

Chamada pelos moradores de ‘Dubuy’, a cidade dos superlativos inspira consumo. Em quatro dias, é possível conhecer um pouco do passado comerciante - e histórico - e da ostentação atual

Texto: Bruna Toni, Fotos: Daniel Teixeira, O Estado de S. Paulo

31 Março 2015 | 03h00

DUBAI - Encostados em pilhas de mercadorias ou nos barcos de madeira ancorados, comerciantes aguardam a chegada de mais produtos no porto do Creek, canal de mar que entra pela cidade. São homens de partes diferentes do mundo carregando nos ombros pacotes de todos os tamanhos entre as ruas estreitas dos mercados de especiarias e do ouro. Por alguns minutos você será Marco Polo, esquecerá que o século 21 chegou e que está na mais moderna das cidades, a poderosa Dubai.

Conhecida por ser um grande centro de compras – seus moradores costumam chamá-la de “Dubuy”, uma referência ao verbo “comprar” em inglês (buy) –, pelo rápido crescimento e por suas construções futuristas e grandiosas, ainda preserva traços de uma história que vai além de suas divisas e de seu desenvolvimento recente. E que se contrapõe ao cenário globalizado visto do Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo, com 828 metros. 

Entre passado e presente, Dubai mantém o espírito multifacetado. A começar por seus moradores, cujas origens estão fora dos Emirados Árabes – há paquistaneses, indianos, marroquinos, filipinos... Todos parecem seguir à risca uma citação do Alcorão, livro sagrado do Islã: “Quem tem paciência consegue o que quer”. 

A vocação para entreposto comercial continua, mas, hoje, a maior fonte de renda de Dubai vem mesmo de outro tipo de viajante: o turista. Hub importante entre o Ocidente e o Oriente, o emirado tem recebido visitantes interessados em aproveitar a conexão em um stop over, pausa que as companhias aéreas permitem que o passageiro faça antes de seguir ao próximo destino, sem pagar a mais por isso.

Quatro dias são suficientes para conhecer a cidade, seus arranha-céus, shoppings e hotéis. O deserto e a praia, as construções mais antigas do bairro histórico. E as baladas na cobertura dos hotéis, encerramento sob medida para cada dia turístico.

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A chegada: prévia da vocação monumental

Chamada pelos moradores de ‘Dubuy’, a cidade dos superlativos inspira consumo. Em quatro dias, é possível conhecer um pouco do passado comerciante - e histórico - e da ostentação atual

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

31 Março 2015 | 03h00

Partindo de São Paulo, o voo até Dubai consome 15 horas. Por causa do fuso lá, sete horas a mais em relação a Brasília, e porque os voos partem no começo da madrugada, você não verá a luz do dia.

Chegar ao Aeroporto Internacional de Dubai (dubaiairports.ae) já é uma atração. Construído em 1960, suas grandes dimensões chamam a atenção logo de cara. Além de ter o maior terminal de passageiros do mundo (o de número 3, inaugurado em 2008), assumiu no ano passado o posto de hub mais movimentado, ultrapassando Heathrow, em Londres. São 66 milhões de passageiros subindo e descendo suas escadas a cada ano, embalados por músicas árabes e cercados de lojas com todos os tipos de produtos.

Quem estiver interessado em renovar a casa, o escritório, o bar e o guarda-roupa, portanto, pode começar por ali. Os preços costumam ser bons e as opções vão de alimentos a capas de ouro para iPhone.

Além disso, seus serviços também são um diferencial. Casa da Emirates, o Terminal 3 (oesta.do/terminal3dubai), por exemplo, tem cadeiras reclináveis ao longo dos corredores para os passageiros que quiserem dormir, banheiros com ducha, restaurantes, cafés, spas e até dois jardins zen.

Como você vai aterrissar tarde, o ideal para não perder tempo e aproveitar a cidade desde o primeiro minuto é sair para jantar e esticar a noite em um bar. A presença predominante de imigrantes mostra sua força nos cardápios, tão diversos quanto as origens dos moradores. 

Na região da cidade chamada de Bur Dubai você encontra comida indiana, paquistanesa e, sobretudo, libanesa, como no Awtar (oesta.do/awtar), no hotel Grand Hyatt. O restaurante serve pratos como mezzes e kebabs enquanto dançarinas do ventre convidam os clientes a dançar.

Com pique, é possível conhecer um dos sofisticados bares da cidade. Em geral, ficam abertos até as 3 horas. O 360 Degrees (oesta.do/360ddegrees), no Jumeirah Beach Hotel, é um dos mais famosos. Vale seguir a dica dada por Sintia, a aeromoça carioca que conhecemos durante o voo: apreciar ali o pôr do sol. A construção circular no fim de uma passarela que se projeta mar adentro garante uma linda vista de qualquer ponto. Bons DJs e o menu de cozinha asiática completam a lista de atrativos. 

No coração financeiro da cidade, uma opção mais tranquila é o 40 Kong (40kong.com). O lounge reúne de hóspedes do H Hotel, onde está localizado, até clientes na faixa dos 30 a 40 anos interessados em terminar o dia com drinques e bate-papo. A área é pequena e aberta, mas está sempre cheia, mesmo em uma terça-feira.

SAIBA MAIS

Dubai tem táxis guiados por motoristas mulheres para atender às muçulmanas que não podem, por tradição, andar em carros com homens desconhecidos. Corrida desde 8 dirhams (R$ 6,95). Nos demais táxis, desde 5 dirhams (R$ 4,35)

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A tradição: bairro histórico de um lado, especiarias e ouro de outro

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Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

31 Março 2015 | 03h00

“Quando eu falo no passado estou falando de 40 anos atrás, entende?”, começa nosso guia, Azir, ao se referir à antiga Dubai. Marroquino de origem, emirate de coração, aprendeu a falar português de tanto ir ao Brasil visitar o irmão, dono de uma pousada no Nordeste. 

A história de Azir, como a de tantos outros estrangeiros – 80% da população dos Emirados Árabes não nasceu no território –, acaba por testemunhar as várias facetas que essa região do Golfo Pérsico sempre teve, mas que ficaram em segundo plano durante o recente e estrondoso surgimento da nova Dubai. 

É no trajeto para Bastakia, em Bur Dubai, que a cidade das compras nos conquistou. Não por motivos que fogem ao estereótipo. Se hoje Dubai é conhecida como o lugar certo para se fazer e se gastar dinheiro, antigamente não era diferente. Às margens do Creek, indianos e persas negociavam mercadorias muito antes de a cidade cair no radar mundial. 

Por isso, fazer a travessia desse rio de água salgada em um abra, o tradicional barco de madeira que serve como táxi aquático, é indispensável. Custa 1 dirham (R$ 0,87) e leva, das 6 horas à meia-noite, aos souks, mercados típicos de especiarias e do ouro, ao lado de moradores. 

Caminhar pelos apertados e movimentados corredores fará com que você se sinta de fato no Oriente. Vendedores parados à porta de suas lojas gritam em inglês para chamar a atenção dos turistas, mas basta dizer sua nacionalidade para ouvir frases decoradas em português, um reflexo da grande quantidade de brasileiros morando na cidade. 

O aroma dos temperos ao sair do túnel que liga o porto ao mercado vai se tornando mais forte a cada passo. Girassol, gengibre, canela, açafrão, pimenta, baunilha, menta, pedra ume... Tudo pode ser levado dentro de saquinhos, na quantidade desejada. Barganhar é do jogo. Também há narguilés, incensos, roupas, sapatos e chocolate de camelo em formato de pedra (R$ 9).

Adiante está o mercado do ouro. São mais de 300 lojas com produtos feitos com o metal (inclusive roupas), de 18 a 24 quilates. Não procure os valores nas vitrines. Tudo depende da cotação do dia, exposta em um telão.

Antes ou depois da travessia do Creek, caminhe pelas ruas do bairro histórico. Suas construções baixas e largas, cujos tons não fogem muito do bege e do marrom, chamam a atenção pelos arabescos decorativos e torres de vento para amenizar o calor.

Com o guia Azir, tivemos a chance de entrar com o pé direito, um sinal de respeito, em uma casa de beduínos, habitantes do deserto desde o século 7º. Na porta, Youssef Mohamed Sharif Albastek, um emirate de fato, nos recebe com chá de jasmim e tâmaras. Empolgado, mostra mapas, roupas e antigas fotos de Dubai e das personalidades que já recebeu, entre elas o jogador brasileiro Kaká. Youssef, que vive na região há 50 anos, ganhou do governo o direito de cuidar da casa, mantendo as portas abertas aos turistas.

Bem perto dali está o Museu Dubai. Acomodado no que antes era o forte Al Fahidi, construído com corais e a ajuda dos portugueses, em 1787, acredita-se que seja o prédio mais antigo de Dubai. A entrada custa entre 1 e 6 dirhams (R$ 0,87 a R$ 5,20). 

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A natureza: o verde do Golfo Pérsico e o ocre do deserto

Chamada pelos moradores de ‘Dubuy’, a cidade dos superlativos inspira consumo. Em quatro dias, é possível conhecer um pouco do passado comerciante - e histórico - e da ostentação atual

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

31 Março 2015 | 03h00

A cena atípica chamava a atenção. Um japonês vestido com a gandora, túnica e turbante brancos que compõem o traje dos homens árabes, cruzava os braços e franzia a testa na tentativa de parecer tão poderoso quanto um xeque. Caminhava pelas areias da praia de Jumeirah em busca do melhor ângulo diante do Burj Al Arab, o hotel em formato de vela náutica que se consolidou como a primeira imagem de Dubai para o mundo e um símbolo de sua ostentação. Uma noite ali custa de 12 a 70 mil dirhams, ou R$ 10,5 mil a R$ 60,8 mil. 

Outros tantos turistas se espalhavam ao longo de um quilômetro de orla (parte em obras), em busca do enquadramento perfeito para a selfie. Apesar do calor do inverno – sim, do inverno, de novembro a abril, época de temperaturas mais amenas mas, ainda assim, que chegam à casa dos 30 graus – pouquíssimos arriscavam trajes de banho e entrar nas águas verdes do Golfo Pérsico, que encontram a areia sem fazer alarde, como piscina natural. Não há quiosques ou som alto. 

O bairro está a sudoeste do centro, distante 30 a 40 minutos, e conta com passeios organizados por agências. Ir por conta própria – dá para combinar metrô e táxi – é boa pedida: como não ocorre em várias outras áreas da cidade, em Jumeirah se anda a pé por largas, limpas e floridas calçadas. 

No bairro fica a Mesquita de Jumeirah (oesta.do/jumeirahmosque), a maior das 1.200 existentes em Dubai e a única a permitir a entrada de não muçulmanos, apenas nas visitas guiadas, de sábado a quinta-feira, sempre às 10 horas. Para entrar, mulheres precisam usar calça e camisa de manga comprida e cobrir os cabelos com um véu – que eu não tinha em mãos e precisei comprar. Todos são obrigados a lavar os pés e entrar descalços. 

Nas dunas. Depois de uma manhã à beira-mar, uma imersão entre as dunas ocres do deserto de Margham. O guia chega ao hotel às 15h30 para o início de um passeio que se estenderá até as 22 horas. Hoje, 40 agências locais fazem o safári pelo deserto – com a mais antiga, Arabian Adventures (oesta.do/arabianad), o pacote com transporte e jantar sai por 360 dirhams (R$ 313) por pessoa.

O carro 4X4 leva seis turistas. Zaheer, nosso guia paquistanês, conta, em seu inglês peculiar, detalhes da vida local, como o grande consumo de leite de camelo e as corridas no lombo do animal, organizadas de outubro a março. 

A primeira parada é para assistir à apresentação de um falcoeiro, que mostra sua habilidade com o animal. O falcão é o melhor amigo do homem na caçada pelo deserto. As dunas que vêm a seguir têm até 4 metros de altura. Por elas chacoalhamos ao sabor das manobras de Zaheer. Aos poucos o sol, que parece ser o maior do mundo, vai se escondendo – um pingo de desatenção e perde-se o momento de vê-lo encontrar-se com a lua por breves instantes. 

São 30 carros autorizados a entrar na área protegida do deserto a cada dia, o que rende uma turma grande de turistas no acampamento montado para nos receber. No meu dia, eram cerca de cem pessoas. Fica mais difícil viver a solidão e o silêncio a que o deserto convida, mas, mesmo assim, vale esquecer o celular para admirar as cores que o céu vai assumindo quando a noite cai. Ou para escorregar com os pés descalços nas dunas, já geladas às 18 horas. Leve casaco.

As estrelas iluminam a voltinha de camelo. São, no máximo, 3 minutos, que serão fotografados por profissionais e vendidas a cada turista por, no mínimo, US$ 30. 

Para o jantar – pão árabe, tabule, azeitonas, purê de batatas, kafta, shish taouk, arroz, tudo preparado com especiarias como canela e pimenta – nos acomodamos ao redor de mesas longas, sentados em almofadas. Em uma saleta você pode vestir roupas típicas e ser fotografado; fora, mulheres fazem tatuagens de rena. Há apresentação de dança do ventre protagonizado por uma dançarina brasileira, a sergipana Sumaya, na função há sete anos. 

Antes de ir embora, uma rodada de narguilés para fumar essências, mais café árabe e tâmaras. 

SAIBA MAIS

A fé muçulmana é predominante em Dubai, dita comportamentos e influencia costumes. Quartos de hotéis têm uma seta que indica a direção de Meca, para onde os fiéis se voltam nos horários das cinco orações diárias.

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O presente: prédio mais alto, o maior shopping

Chamada pelos moradores de ‘Dubuy’, a cidade dos superlativos inspira consumo. Em quatro dias, é possível conhecer um pouco do passado comerciante - e histórico - e da ostentação atual

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

31 Março 2015 | 03h00

A sombra da torre alcançava o complexo viário do centro da cidade. Como uma intrusa, invadia a grande maquete ou jogo de Lego que parece ser Dubai vista do alto. E bota alto nisso. Estávamos a 454 metros do chão, no 124º andar do Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo. E, ainda assim, a apenas meio caminho do topo. 

O prédio de 828 metros engole, andar por andar, os vários vizinhos que estão longe de serem baixos. Dividido em 160 níveis, é uma das atrações mais visitadas da cidade – tanto que é importante comprar ingressos com antecedência (oesta.do/ticketsdubai). Os preços vão de 95 a 500 dirhams (R$ 83 a R$ 439) e variam segundo dia e horário. Até as 15h30 e depois das 19h30 é mais barato 

Todo o caminho até o deque é tecnologicamente impecável. Logo no início, uma linha do tempo mostra a evolução arquitetônica dos arranha-céus espalhados pelo mundo. O elevador, que sobe numa velocidade de 10 metros por segundo, funciona como uma sala de cinema: as paredes exibem vídeos curtos sobre a construção, que teve início em 2004, envolveu trabalho braçal e intelectual de profissionais do mundo todo, driblou a crise financeira de 2008 e só terminou em 2010 com a ajuda de Abu Dabi.

O nome Khalifa é uma homenagem ao xeque do emirado que emprestou o dinheiro, Khalifa bin Zayed Al Nahyan. “Mas se você der mais de US$ 6 bilhões, nós podemos mudar o nome para Burj Daniel”, brincou Azir, o guia, dirigindo-se ao fotógrafo do Viagem.

Labirinto: O prédio faz parte do mesmo complexo que o maior shopping do mundo, o Dubai Mall (thedubaimall.com). São mais de 1,2 mil lojas, centenas de restaurantes, hotel, mostras e atrações.

É possível visitar pinguins e nadar com tubarões no Dubai Aquarium & Underwater Zoo (thedubaiauqarium.com); deslizar na pista de patinação Dubai Ice Rink (dubaiicerink.com); e curtir o parque Sega Republic (segarepublic.com).

A parte mais bonita do shopping é a que recria um mercado árabe, só que com luxo. The Dome Souk tem bons restaurantes frequentados por locais, como o elegante e sofisticado Times of Arabia (oesta.do/timesofarabia). 

Termine a temporada em Dubai com o show de fontes The Fountain Dubai (oesta.do/fontedubai), na parte externa do shopping. Os jatos chegam a 150 metros (o equivalente a 50 andares), envoltos pelo jogo de luzes que alcançam 20 quilômetros de distância. Grandiosidade à moda de Dubai. 

SAIBA MAIS

Aéreo: a Emirates faz o voo direto São Paulo– Dubai–São Paulo, desde US$ 1.125, além da taxa de embarque. Site: emirates.com/br

Visto: é exigido de brasileiros e liberado pelo hotel (veja a lista dos que emitem: uae.org.br) ou pela própria Emirates. Mais: oesta.do/vistodubai

Moeda: R$ 1 vale 1,16 dirham. Cartões de crédito são aceitos; tenha dinheiro local para pequenas compras

Site: visitdubai.com

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