Gary Hershorn/Reuters
Gary Hershorn/Reuters

É hora de falar sobre réveillon

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Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2017 | 03h00

Eu não sou o chato do réveillon. Definitivamente, não sou aquele que vai passar a noite do dia 31 de dezembro azucrinando a paciência alheia com discursos sobre o quanto é idiota comemorar a mudança de um dia banal no nosso calendário. 

Na noite do dia 31, pretendo estar tão distraído com algum brinquedinho alcoólico que não vou me dar ao trabalho. Por isso, vou fazer o meu discurso agora, com mais de três semanas de antecedência.

Eu, no máximo, sou o chato do pré-réveillon. 

Problema nenhum em acreditar que no dia 1.º do ano vindouro tudo será diferente. Normalmente, considero a esperança um sentimento fadado ao fracasso. Mas ter esperança no ano novo é diferente. É como fracassar coletivamente. É crer naquilo que 90% das pessoas no mundo estão acreditando também. Acho bonito. E gosto de me envolver nesse ritual.

Se precisar me visto de branco, uso uma peça vermelha ou escondo uma nota de dólar na carteira. Também quero paz, amor e grana. Já pulei sete ondinhas – usando apenas 5 para meus pedidos pessoais e as outras duas para temas mais gerais, como o fim da fome e de alguma guerra no Oriente Médio.

Ou seja, não sou como aquele velho do conto do Charles Dickens que precisa ser visitado por um fantasma para ser menos rabugento (eu sei, eu sei, o conto é de Natal, mas, convenhamos, Natal e ano novo fazem parte de um mesmo pacote). Só acho demais comer lentilhas. Sou visceralmente contra lentilhas.

Mas o tema aqui é viagem, não é? 

Pois então, tenho um amigo que foi passar o réveillon na Austrália e me ligou assim que o ano virou por lá. Com mais de 10 horas de fuso na minha frente, o sujeito, bêbado, gritava que já sabia como seria o meu ano novo, que já tinha visto tudo o que iria acontecer comigo, e que, para o meu próprio bem, eu não deveria me empolgar muito com os próximos 365 dias. Na época, xinguei. No ano seguinte, dei o braço a torcer. Antes tivesse me passado os números da Mega Sena da Virada.

Outro conhecido foi realizar o sonho de passar a noite da virada na Times Square, em Nova York. Ele e a namorada chegaram cedinho. A ideia era arrumar um lugar privilegiado, tirar muitas fotos e se banhar na energia de uma virada ao som de New York, New York. Mas, antes do meio-dia, eles já estavam debaixo da neve, sentindo um frio que nunca haviam experimentado na vida. 

Não demorou e a Times Square começou a encher. Não parava de chegar gente. A namorada dele estava com fome e disse que iria procurar algo para comer. Erro fatal. Naquela noite, ela não mais seria vista. Meu colega, ficou prensado feito um dogão de rua. Na hora da bola cair, o que também caiu quentinho foi o xixi que ele tentou segurar, um xixi que começou em um ano e foi escorrer no outro. Uma bexiga que estourou feito champanhe na hora do “zero”. 

O casal só conseguiu se reencontrar com o dia quase amanhecendo, no quarto do hotel Pennsylvania (me diga qual turista brasileiro nunca se hospedou lá). Ela chorando. Ele mijado. Dois meses depois, ela contou que no meio da muvuca da Times Square, perdida e sem nenhuma perspectiva de reencontrá-lo, acabou passando a virada com um grupo de mexicanos.

Aliás, um dos mexicanos era bastante simpático e comunicativo, uma espécie de Gael García Bernal anônimo e melhorado. O Donald Trump nunca pensaria em erguer aquele muro se tivesse conhecido um mexicano tão gente boa. 

Mas ela teve a sorte de conhecê-lo. Não aconteceu nada no dia da virada. Mas os dois se tornaram amigos e começaram a trocar mensagens por WhatsApp. Eles estavam apaixonados. A festa da Times Square é mesmo mágica... No ano seguinte, ela passou o réveillon no México. Ele passou na minha casa, jogando videogame. Como já disse, não sou o chato do réveillon. 

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