Arquivo Pessoal/Divulgação
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'É preciso ouvir os povos nativos'

ENTREVISTA - Felipe Varela, especialista em cultura andina e nos caminhos incas

Fábio Vendrame - O Estado de S. Paulo,

10 Maio 2011 | 06h00

Conhecido como "El Chaski" (‘O Mensageiro’, em quéchua), Felipe Varela é especialista em culturas ancestrais andinas e um intrépido aventureiro peruano. Há 15 anos vem percorrendo o Qhapaq Ñan, rede de caminhos que interligava o Império Inca. Recentemente, Varela conduziu um documentário sobre a civilização inca para o History Channel. A seguir, os principais trechos da entrevista:

 

Por que decidiu trabalhar com os caminhos pré-hispânicos?

Depois de muita pesquisa, decidi percorrer a vasta rede de caminhos a pé, vendo de perto tudo o que nossos ancestrais aprenderam com o conhecimento do território, de sua geografia e dos recursos disponíveis. Os povos andinos desde sempre cruzaram as cordilheiras nevadas, dos pampas do altiplano até a costa ou a selva. Essas mesmas rotas de intercâmbio se mantiveram e foram sendo aperfeiçoadas por culturas como as de caral, moche, wari e outras. Delas os incas herdaram tudo isso e, em menos de 100 anos, conseguiram articular mais de 5 milhões de quilômetros quadrados por meio de caminhos interligados.

 

O que é exatamente o Qhapaq Ñan? Quantos quilômetros tem?

Bom, a tradução é "caminho supremo" e o impressionante dos trajetos é que sua tecnologia transpassou o tempo e ainda segue funcionando, articulando povos que seguem a intercambiar seus produtos. Durante seu esplendor deve ter alcançado mais de 40 mil quilômetros.

 

Quais são os atrativos?

Definitivamente, o povo, suas tradições e os costumes que ainda guardam. Depois, o desenho dos caminhos não apenas por sua construção, mas também pelo funcionamento: há depósitos de alimentos, canais de drenagem, pontos de apoio, pousadas, centros administrativos e de manufatura, zonas de produção e de cultivo agrícolas... Além disso, a planificação e a logística desses caminhos são incríveis. Seu calçamento adaptado a diferentes altitudes permite cruzar uma região com neve e chegar a uma área bastante quente dentro de um vale, diante de paisagens diferentes.

 

Que caminhos incas estão abertos ao turismo?

O principal deles é mesmo a Trilha Inca. Mas tem um modelo de desenvolvimento que não beneficia as comunidades locais. Apenas operadoras e empresas do ramo obtêm lucros. A proposta pela qual trabalho defende uma modalidade de turismo comunitário que pode e deve ser administrada pelos líderes locais, com visão e organização próprias. Enfim, que haja envolvimento dos verdadeiros donos do território por onde passam os caminhos.

 

O governo tem investido nisso? Há projetos de desenvolvimento e conservação das rotas incas?

Sim, existe interesse dos seis países que fizeram parte do Império Inca (Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile e Argentina), mas apenas de maneira simbólica. Há instituições que parecem ‘descobrir a pólvora’ a cada vez que veem os caminhos e alucinam com o turismo, mas ninguém consulta os moradores... Não os veem porque só querem ver o dinheiro que podem ganhar com o turismo.

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