Em tom de aniversário

Com vocês, detalhes do Teatro Colón, em Buenos Aires, restituído ao seu esplendor original a tempo das comemorações pelo bicentenário da Revolução de Maio

Ilana Lichtenstein, BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2010 | 02h19

Noite especial. Para a reabertura do teatro foram escolhidos trechos de 'O Lago dos Cisnes' e o segundo ato de 'La Bohème', de Puccini. Com orquestra e balé do próprio Colón.

 

Quando as portas do Teatro Colón voltarem a se abrir para o mundo, tente reduzir a ansiedade de chegar à sala de concertos, famosa por sua acústica perfeita. Antes disso, deixe-se admirar os detalhes do foyer, do vitral na abóbada ao mais singelo pedacinho que forma o chão de mosaico - talvez o melhor símbolo da reforma que o prédio acaba de passar. Cada peça foi cuidadosamente restaurada. E as que faltavam, refeitas com material da época.

Dedicação mais que merecida ao gigante em forma de ferradura que estava fechado para o público desde 1º de novembro de 2006, noite em que Mercedes Sosa encantou a plateia, acompanhada pela orquestra do teatro. Foram mais de três anos em que os turistas só puderam ver nesgas do edifício, quase totalmente coberto por andaimes montados para proteger sua estrutura com traços do renascimento italiano e muito da decoração francesa.

Anos em que o Obelisco no cruzamento das Avenidas Corrientes e 9 de Julho centralizou os cliques dos viajantes que passavam por aquele trecho da cidade. Uma situação que deve mudar assim que o Colón for finalmente reaberto, em 24 de maio, um dia antes das comemorações pelo bicentenário da Revolução de Maio, que marca o início do processo de independência da Argentina.

 

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As celebrações oficiais começaram no ano passado, com um show para 200 mil pessoas na frente do próprio Obelisco. E incluíram eventos dos mais diversos - da instalação de uma estátua da menina-filósofa Mafalda, em agosto, à revitalização do farol no topo do Edifício Barolo, conhecido por ter a arquitetura inspirada na Divina Comédia, de Dante Alighieri.

A música, principalmente a clássica, se destaca na programação dos dias próximos à festa. No roteiro, a abertura do Colón e de sua temporada, além de concertos ao ar livre na Plaza de Mayo, cartão-postal da cidade. Os eventos seguem até dezembro (confira no http://www.bicentenariociudad.gob.ar/).          

 

    

Intimidade. Em cada um dos camarotes, há uma antessala protegida por cortinas de veludo. A especialista que restaurou o Santo Sudário ajudou a analisar os têxteis para que não perdessem o o tom original.

  Dedicação. Até lá, mais de mil pessoas estarão trabalhando diariamente no famoso teatro para que cada degrau de mármore, vitral ou cadeira de veludo esteja à altura do som que voltará a ecoar ali. Construído por Francesco Tamburini, Vittorio Meano e Jules Dormal, o Colón foi inaugurado em 1908 e só agora vê o fim da maior reforma de sua história. 

Restauradores foram a Veneza estudar, artesãos-ourives retocaram os corrimões recheados com resina e técnicos criaram sistemas mirabolantes de segurança. As medições acústicas no teatro - eleito em 2000 o melhor do mundo para ouvir ópera pela Sociedade Americana de Acústica - foram feitas no Japão. Tudo para o seu deleite. 

Quem não conseguir um dos cobiçados ingressos para a noite de gala poderá acompanhar o evento numa tela de projeção gigante, instalada na frente do Obelisco. Dali, claro, fica impossível ver detalhes como o chão de mosaicos do foyer, mas a fachada do Colón se mostrará em todo seu esplendor, restaurada e pronta para as fotos.

 

Divino. O 'Paraíso', no alto, tem ingressos baratos e uma das melhores acústicas do teatro

 

Destaques. A temporada regular começa em 26 de maio, com La Bohème (www.teatrocolon.org.ar). E segue com outras óperas, balés e concertos. O palco que já recebeu nomes como Stravinski, Maria Callas e Anna Pavlova abrirá as cortinas para o violoncelista Yo-Yo Ma, o regente Zubin Mehta e o pianista brasileiro Nelson Freire.

 

O exímio maestro argentino Daniel Barenboim se apresenta em agosto e deve se lembrar bastante do discurso que fez em 2008, quando o teatro passou seu aniversário de 100 anos fechado. Barenboim, que acabou tendo de se apresentar no ginásio do Luna Park, convocou à época "responsáveis e irresponsáveis" a apressar a reabertura do teatro. E conseguiu.

Quando garantir ingresso para um espetáculo - por enquanto, a única forma de entrar no teatro, já que as visitas guiadas só serão retomadas em setembro -, deite bem os olhos em cada detalhe do prédio antes de a sessão começar. Porque no instante em que uma soprano soltar a voz ou um cello emitir a primeira nota, pode ser que você queira fechá-los. Só para ouvir melhor.

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