Em Veneza, como pede a tradição

Conduzir, você mesmo, uma gôndola pelos canais da pitoresca cidade converte o manjado passeio em imersão no estilo de vida local, com bônus: um fim de tarde sobre as águas

Shivani Vora, The New York Times

18 Novembro 2014 | 02h06

Atraídos pelos canais, como tantos outros turistas, fizemos uma viagem em família a Veneza. Meenaski, minha filha de 5 anos, esperava o popular passeio de gôndola. Eu queria mais: conduzir uma gôndola.

Este antiquado meio de transporte é parte integrante da cultura de Veneza e vem desaparecendo. Hoje, as gôndolas são usadas para oferecer aos visitantes uma emoção (cara: em torno de 80 euros, por 45 minutos); há quase mil anos, eram transporte de moradores abastados. Hoje, permanecem ativos pouco mais de 400 gondoleiros autorizados - quase todos homens - , trabalhadores do setor de turismo e proprietários das embarcações, e alguns moradores que usam gôndola ou um barco parecido no seu dia a dia.

Durante quatro dias, mergulhamos em família em um mundo onde essa cultura ainda floresce. Tomamos um barco-táxi no desembarcadouro do nosso hotel, no Grande Canal, e chegamos em 15 minutos ao bairro de Dorsoduro. Ao nos aproximarmos do estaleiro, vimos homens carregando uma gôndola nova em folha para colocá-la na água pela primeira vez.

A construção de uma embarcação de 10 metros de comprimento leva três meses e envolve nove tipos de madeira. Preço mínimo: 35 mil. Ainda é preciso contar com os gastos de manutenção do barco, que, em média, chegam a 5 mil por ano.

Diante de custos tão altos, quis entender porque alguém decide ser gondoleiro. De fato, o que atrai é a tradição, não a riqueza. Fomos apresentados a Roberto Veanelo, de 53 anos, gondoleiro que seguiu os passos do pai e do avô e espera que seu filho de 15 anos enverede pelo mesmo caminho. "Não conheço nada mais a não ser este trabalho."

Veanelo conta que o trabalho exige mais do que uma bela voz. É preciso ser aprovado num teste de navegação pelos canais, seguido de um exame oral sobre história veneziana. Depois, é necessário frequentar uma escola preparatória por três meses para aprender mais sobre arte e história e aprimorar os conhecimentos de línguas - um gondoleiro deve falar três. A última etapa é constituída de um exame escrito e de um teste prático, em que se deve conduzir a gôndola sob a vista de seis examinadores. "Parece fácil, mas exige muito fisicamente."

No dia seguinte, ao tentar remar por conta própria, descobri que Veanelo não estava exagerando. Eu me matriculei para uma aula de 90 minutos da organização Row Venice (rowvenice.com), dedica a ensinar um pouco da tradição aos turistas.

Em vez de usar uma gôndola clássica, o grupo dá aulas em uma batela, barco de madeira um pouco mais estável, mas que exige que se use os remos em pé, como a gôndola. Em um fim de tarde ensolarado perto de um canal em Cannaregio, embarcamos na batela ansiosos para aprender. Antes de soltar a corda que nos mantinha atracados, a americana Nan McElroy deu uma aula prática do que seria remar: manter o remo na posição vertical, empurrá-lo para a frente e, ao mesmo tempo, fazer um movimento brusco com uma perna, e, então, trazer o remo de volta na direção do peito. Repetidamente.

O problema surgiu quando estávamos na água. Havia pouca correnteza, mas remávamos contra ela, o que exigia força inesperada do tronco para continuar. Embora eu pratique exercícios regulamente, fiquei sem fôlego por alguns minutos e perdi o controle do remo pelo menos umas seis vezes. Os movimentos ficaram mais fáceis com a prática. Eram quase 19 horas e seguíamos, de barco, de bar em bar - os bàcari.

A aula terminou na Fondamenta Misericordia, canal com meia dúzia de bares acessíveis que servem porções deliciosas. No pequeno e contemporâneo Vino-Vero, por exemplo, tínhamos à escolha fatias de crostini com tomate siciliano e anchova, ou presunto com rúcula, a 1 ou 2 euros cada, e variedades de vinho e prosecco em taça que não custavam mais de 3.

Encomendamos pratos e bebidas para serem servidos na batela, ao pôr do sol e com outros barcos repletos de venezianos como pano de fundo. "Não é que você não veja lanchas a motor se deslocando de bar em bar", disse Nan. "Mas esta é a hora em que as pessoas de Veneza que ainda dependem de gôndolas e outras embarcações não motorizados se reúnem."

Um sonho. À parte da aula, embarcamos numa gôndola para dar uma volta pelo canal próximo à Praça São Marcos. Quando atravessávamos o Grande Canal, margeado por palácios centenários, desfrutamos do cálido calor do sol. O rosto de minha filha era pura alegria. Posamos para fotos com largos sorrisos.

À nossa volta, outros turistas também pareciam felizes em suas embarcações. E foi neste momento que me tornei mais uma entre os muitos visitantes que vêm do mundo todo para Veneza sonhando com um passeio de gôndola. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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