Esperança em formas e cores Galerias coletivas transformam cenário cultural

Galerias e espaços de exposição de Kigali exibem uma parafernália de cores e estilos. Há pinturas penduradas com parcos centímetros de espaço entre elas ou inclinadas em pilhas contra a parede. Artistas trabalham e, às vezes, vivem nos ateliês. Em algumas galerias, ações comunitárias - aulas de arte para órfãos e programas para garotos do bairro centrados na ajuda aos portadores de HIV ou a mulheres carentes - desempenham papel importante.

KIGALI, RACHEL B. DOYLE / KIGALI , THE NEW YORK TIMES, KIGALI, RACHEL B. DOYLE / KIGALI , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2014 | 02h07

Desde 2002, os 13 artistas residentes no Inema Arts Center (inemaartcenter.com) pintam e criam instalações, e membros de uma cooperativa de mulheres fazem joias e acessórios. Três vezes por semana há performances de dança tradicional - amaraba para garotas, intore para rapazes.

Emmanuel Nkuranga fundou o Inema com seu irmão, Innocent Nkurunziza, após viajarem aos Estados Unidos para residências em arte e visitarem MoMA e Guggenheim em Nova York. A viagem deu o impulso que faltava, embora plano para a galeria em Kigali, foi a próspera Ivuka Arts em Kacyiru, (ivukaarts.com), da qual foram sócios.

Nkuranga vê como sua missão encorajar uma cena artística vibrante em Ruanda. Igualmente importante, acredita, é "criar um movimento para os que não têm uma consciência da arte".

Em minha visita, um artista de 23 anos chamado Timothy Wandulu me mostrou a galeria e explicou suas instalações feitas com material reciclado. Ele havia construído uma casinha de caixas de leite e feito móveis com garrafas de plástico. "Quando viemos para o Inema havia problemas de água e tínhamos de trazê-la em garrafas de plástico", contou. Já Carole Karemera, atriz e música, disse que vê o mundo artístico ruandês como uma ponte entre passado e futuro. "Nosso passado não é nada glorioso, mas estamos gloriosamente presentes. E empolgados com o que podemos nos tornar." / R.B.D.

"Não tem chance de você encontrar sozinha", disse-me o artista Strong Karakire ao telefone, quando lhe pedi indicações para chegar ao seu estúdio em Nyamirambo, um bairro movimentado na capital de Ruanda, Kigali, onde ruas de terra sobem colinas íngremes passando por moradias modestas. "Espere no posto de gasolina que vou apanhá-la."

Alguns minutos depois, Karakire chegou na traseira de uma daquelas onipresentes motocicletas táxis e me recolheu. Naquele dia balsâmico de novembro, a corrida até seu estúdio percorreu vielas labirínticas e um agitado mercado de frutas e vegetais onde os vendedores exibiam suas mercadorias sobre lençóis coloridos; fiapos melódicos de música emanavam de miniônibus parados adornados com retratos de artistas de hip-hop; e criancinhas jogando futebol num terreno vermelho inclinado e irregular na frente de uma mesquita verde e branca gritaram saudações excitadas quando passamos.

Entramos por um muro alto de tijolos e imediatamente topamos com uma das criações de Karakire. Um amontoado de mocassins e sandálias de dedo descartados que haviam sido colados num pedaço de papelão de forma estranha sobre os tijolos e pintados de azul e vermelho com spray.

Vinte anos após um genocídio ter matado estimadas 800 mil pessoas, a maioria homens, mulheres e crianças tutsi, num período de 100 dias, Ruanda está em ascensão. Sua economia está crescendo e o turismo, aumentando. E, inesperadamente, um mundo artístico floresce em Kigali, a agradável capital de mais de 1 milhão de habitantes com suas colinas luxuriosas e árvores floridas.

Karakire é um dos muitos jovens que estão forjando um cenário artístico, onde numerosas galerias, centros comunitários e estúdios independentes pipocaram nos últimos anos. O agitado cenário artístico transformou uma cidade que já foi silenciosa e traumatizada num lugar onde ocorrem regularmente vernissages, leituras, apresentações de dança e concertos nos pátios de galerias. Empresas de tecnologia e um coletivo de moda tocado por estilistas novos também encontraram um ponto de apoio na capital ruandesa.

Os artistas são na maioria autodidatas. Alguns, como Karakire, ainda estão tentando superar as experiências difíceis do passado. "Estou fazendo arte como terapia", disse ele. "É a maneira que escolhi para viver."

Durante o genocídio desencadeado por extremistas hutus de abril a julho de 1994, o pai de Karakire e dois irmãos mais velhos foram mortos. Ele tinha 8 anos e se escondeu com a mãe num orfanato. Outro irmão estava no exército rebelde que libertou o país após mais de três meses de matança. Este ano, Ruanda registra o 20.º aniversário do trágico episódio com eventos educativos.

Agora, os espaços de arte se espalham pelas colinas da cidade e variam de estúdios independentes em bairros humildes, como Nyamirambo, a galerias brilhantes em Kacyiru, um distrito de embaixadas, e às imaginativas esculturas de metal no quintal diante de uma cooperativa de arte em Kimihurura - o Uburanga Arts Studio (bakunziart,com/uburanga-arts-studio) - onde jovens de Kigali frequentam baladas.

Há exposições em Kiyovu, no grandioso Hotel des Milles Collines ( millecollines.net), que foi descrito no filme Hotel Ruanda; no Heaven (heavenrwanda.com), um restaurante fino; e num espaço de trabalho compartilhado curiosamente decorado chamado Office (theoffice.rw).

Encontrar esses lugares pode exigir esforço. Muitos anos atrás, o inglês virou língua oficial junto com o kinyarwanda, usurpando o francês, e os nomes de rua francófonos viraram números. Apesar de ter ficado mais fácil para visitantes anglófonos, a maioria dos locais não usa os novos nomes e, por isso, as galerias de Kigali só são encontradas com o GPS.

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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