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Adriana Moreira, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2015 | 03h00

Antes das selfies, das promoções de passagem aérea, da internet, da União Europeia e do euro, do parcelamento no cartão de crédito e de tantas outras facilidades para o viajante moderno, desbravar fronteiras demandava recursos financeiros, apurado espírito de aventura e, muitas vezes, até uma carta de recomendação para conseguir hospedagem. Na semana de comemorações pelos 140 anos do jornal O Estado de S. Paulo, completados em 4 de janeiro, resgatamos curiosidades sobre as viagens do passado, guardadas no Acervo Estadão.

Enquanto o inglês Thomas Cook levava seus grupos de excursão pela Europa em 1845, por aqui o conceito de “turismo” ainda era um tanto misterioso. A primeira menção à palavra no jornal foi em 1906, em um artigo sobre a criação de um circuito europeu de turismo convocado pelo Automóvel Clube da França.

O que não significa, claro, que as pessoas não viajavam antes disso. Anúncios de hotéis sempre foram uma constante no periódico – na edição de 3 de janeiro de 1880, por exemplo, quando o jornal ainda se chamava A Província de São Paulo, o mais luxuoso da cidade, o Grande Hotel, localizado na Rua São Bento, 53, se gabava de oferecer banhos “frios, quentes e de chuva”. 

Nessa época, os viajantes eram, em sua maioria, estudantes de famílias endinheiradas ou homens de negócios. Viajava-se também em busca de saúde, para destinos de águas termais, banhos de cachoeira ou clima ameno. Em 1911, o Grand Hotel Pocinhos do Rio Verde, em Minas Gerais, fundado em 1886 e ainda em funcionamento, já era citado em notas que discorriam sobre os benefícios de suas águas sulfurosas.

O conceito de turismo organizado, com guia e roteiro programado, ainda não existia por aqui – surgiria apenas no início do século 20, conforme as cidades melhoravam estradas e meios de transporte. Antes disso, em 1914, o jornal já questionava o pouco aproveitamento turístico das atrações nacionais. “Na Europa, o turismo tem dado os melhores resultados”, dizia a reportagem de 9 de abril, que citava as excursões promovidas pela França para mostrar o país aos estudantes locais. E questionava por que o mesmo não era feito no Brasil. “Nós, que temos vários dos mais belos sítios do mundo, não sabemos ainda, entretanto, o que é o turismo.”

Catorze anos depois, outro artigo afirmava que o turismo ainda não fazia parte “de nossos hábitos” e cobrava iniciativas para estimular a população a sair da cidade a lazer. Essa mudança só ocorreria a partir da década de 1930, quando aumentam os anúncios de excursões ao Rio de Janeiro e ao Circuito das Águas, no interior de São Paulo.

A partir da década de 1940, o tema passa a ganhar cada vez mais espaço no Estado. Até que, em 24 de junho de 1966, o jornal cria o suplemento Turismo, que mudaria de nome outras três vezes (Viagem, em 1991; Viagem & Aventura, em 2004, e novamente Viagem, em 2010).

Mais do que um guia, as reportagens documentaram as transformações pelas quais passaram os destinos. Para chegar a Foz do Iguaçu, alertava a primeira edição, levava-se 45 horas, parte em trem e parte de ônibus. Quem quisesse cruzar a fronteira para o Paraguai não precisava de visto de entrada, mas de saída, fornecido pelo DOPs. Conheça outras curiosidades retiradas do primeiro ano do Turismo a seguir. 

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Adriana Moreira, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2015 | 03h00

A viagem até a capital do Paraguai foi o tema da primeira capa do antigo Turismo – uma série, que seguiu por cinco edições. O Paraguai já se mostrava cobiçado para compras, mas cruzar a fronteira demandava um visto de saída, fornecido pelo DOPs. Se estivesse em carro próprio, mais burocracia: era preciso buscar também o visto de entrada, no consulado paraguaio.

A principal parada era, claro, em Foz do Iguaçu. A viagem – hoje feita em 1h40, em voo direto – levava 45 horas num percurso de trem, ônibus e barco. Voar era possível, mas dispendioso, e demandava várias escalas. E se hoje há dezenas de hotéis na região (150 no Booking.com; 117 no Decolar.com), na época não era fácil escolher onde ficar. “Ou aceita os hotéis de categoria internacional, com seus preços, ou se conforme com o que encontrar, alguns razoáveis, os demais péssimos.”

A beleza das quedas d’água continua a mesma e atrai cerca de 1 milhão de visitantes por ano, mas houve mudanças. Dentro do Parque Nacional era permitido pescar, e um barco levava a Puerto Iguazu, na Argentina, para observar as cataratas. Hoje, há outras opções de passeio, como o Macuco Safári, que chega pertinho das cachoeiras. O ingresso para o parque custa R$ 31,20, com transporte. Mais: cataratasdoiguacu.com.br.

Mas a maior mudança diz respeito a outra atração turística local. O Salto Sete Quedas, na vizinha Guaíra, desapareceu em 1982, com a criação do lago da Usina de Itaipu. Em 1966, a reportagem do Estado já alertava: “Vá ver o Salto de Sete Quedas antes que acabe”. A usina, atualmente, é uma atração por si. Para ter a vista panorâmica paga-se R$ 26; turismoitaipu.com.br.

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Adriana Moreira, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2015 | 03h00

Apesar de não ter sido capa da edição (que ainda seguia com os desdobramentos da viagem a Assunção), a reportagem sobre Berlim guarda muitas curiosidades. O Muro, erguido cinco anos antes, dividia a capital, e, do lado Oriental – hoje, repleto de bares e lojinhas descoladas –, havia pouco para ver. “As ruas de Berlim Oriental são melancólicas e as vitrines, totalmente inexpressivas”, dizia o texto.

Era melhor não comer lá, avisava o repórter. “Se tiver fome e não puder esperar, tente os restaurantes Budapest, Neva e Warschau. São tristes e alguém disse que o melhor alimento que podem oferecer é para a mente dos sociólogos.” 

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Adriana Moreira, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2015 | 03h00

Numa época em que viajar de avião era para poucos, a reportagem de capa, que desbravava as atrações de Manaus, alertava que os navios de cruzeiros levavam apenas até Belém, por isso a única maneira era voar. Mas a maior curiosidade é culinária: carne de tartaruga ainda era uma iguaria comum. “Você poderá comer tartaruga do jeito que quiser: picadinho, peito, filé, ensopado”, dizia o texto, que alertava: “Algumas vezes, é preciso encomendar porque a tartaruga está desaparecendo da região”. A caça já era proibida, mas os restaurantes “davam um jeitinho” de agradar os clientes.

Outro artigo de destaque na edição foi a inauguração da Ponte do Rio Tejo ou Salazar – hoje, Ponte 25 de Abril –, entre Lisboa e Almada. Tratava-se, segundo o texto, da maior ponte pênsil da Europa, com mais de 2 quilômetros de extensão e 70 metros acima do nível do rio. Antes dela, a ligação entre as cidades se dava por barcas. Era, de fato, um marco: o primeiro projeto de ligação entre as cidades datava de 90 anos antes.

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Adriana Moreira, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2015 | 03h00

Com apenas seis anos, Brasília ainda não inspirava os visitantes. A Catedral estava inacabada – não se havia encontrado solução para os vitrais projetados por Niemeyer (a construção só seria inaugurada oficialmente em 1970). A reportagem continuava na edição seguinte e falava um pouco da noite no Planalto Central. “Cada um se veste como quer, alheio às etiquetas” e as poucas boates existentes eram “animadas pelo Iê-iê-iê”. Foi nesse ano também que surgiu o Bar Beirute, o mais tradicional da cidade e, até hoje, um dos mais queridos pelos brasilienses.

As atrações recomendadas, aliás, não são muito diferentes das que o Viagem recomendaria hoje. Subir à Torre de TV ou à Ermida Dom Bosco para um panorama da cidade; ver o pôr do sol no Lago Paranoá; conhecer o Catetinho, primeira residência oficial do presidente Juscelino Kubitschek; e, claro, percorrer o Eixo Monumental, que fez da cidade uma obra de arte ao ar livre.

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Adriana Moreira, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2015 | 03h00

Antes do bastão de selfie virar febre entre viajantes e camelôs, o jeito era improvisar. A capa da edição trazia um autorretrato do fotógrafo Jack O’Brien, que usou um sarrafo, a quatro metros de distância, para fazer um registro seu no 72º andar do Empire State – na época, o edifício mais alto do mundo, título ostentado até 1972, quando foi erguido o primeiro World Trade Center. 

Atualmente, o prédio é apenas o 25º mais alto, mas não menos querido. Para chegar ao observatório do 102º andar (e, segundo a reportagem, sentir-se “como um astronauta”), pagava-se US$ 1,50 – hoje, são US$ 46. 

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Adriana Moreira, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2015 | 03h00

Nada de dromedários nas dunas, tampouco hotelões em Ponta Negra. O único hotel à beira-mar na Natal de 1967 era o Hotel Internacional dos Reis Magos, inaugurado um ano antes da reportagem. Fechado desde 1995, o estabelecimento seria demolido; depois, decidiu-se pela reforma. Atualmente, contudo, não se sabe ao certo qual será o destino da construção. 

O esquibunda, uma das atrações turísticas tradicionais nos passeios de buggy de hoje, na época era uma “moda”. “Os mais ‘snobs’ chamam de surfe na areia”, dizia o texto. “Comece sentado e use um calção bem resistente”, avisava o repórter. Paciência também era necessária: os voos para Natal faziam cinco escalas: Rio, Salvador, Aracaju, Maceió e Recife.

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Adriana Moreira, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2015 | 03h00

Apenas o parque de Anaheim, na Califórnia, havia sido inaugurado até então; a Disney World de Orlando só seria aberta em 1971. Nada de Woody e Buzz Lightyear, de Toy Story, ou Ariel, de A Pequena Sereia. Dumbo, Os Três Porquinhos e Pinóquio eram os mais queridos pelas crianças da época. As xícaras giratórias, hoje um brinquedo secundário, eram disputadíssimas. 

It’s a Small World, passeio de barco com canção-chiclete e figuras animadas que cantam e dançam, estava entre os grandes hits do parque. Até hoje é um clássico, presente em todos os parques do grupo. Mas o mais surpreendente era o preço do ingresso: US$ 1,25. Pagava-se as atrações à parte, por US$ 0,75 cada – o talão, com 15 ingressos, saía por US$ 5,50. Hoje, a entrada dá direito a todos os brinquedos e vale US$ 96 para um dia – quanto mais dias de visita, mais barato o ingresso.

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