Viagem

Etiqueta para quem for a um pub

Não, ao contrário do que muitos leitores supunham, Mr. Miles não conhecia David Bowie, embora apreciasse alguns de seus trabalhos. “Acho que a conjunção entre as minhas múltiplas viagens e as múltiplas caracterizações de Mr. Bowie não permitiram que nos encontrássemos, mesmo que, sometimes, eu talvez estivesse ao lado dele.” Nosso correspondente, porém, conta que tem uma Bowie knife, a faca de duelo da qual o artista emprestou seu nome. E mais: diz que chegou a duelar, uma vez, com a ajuda do instrumento perfuro-contundente, contra um hondurenho que se sentiu traído pela mulher. Quem ganhou o duelo? Mr. Miles não informou, mas... well, sabemos que ele continua escrevendo até hoje.

19/01/2016 | 02h59    

Mr. Miles - O Estado de S.Paulo

 

  Foto:  

A seguir, a carta da semana:

Mr. Miles: fui a um pub londrino com minha família no último verão e fiquei esperando que nem um bobo até descobrir que esses estabelecimentos não têm garçons. No que mais eles diferem de outros bares? Argemiro Nunes, por e-mail

“Well, my friend: eis um assunto que domino. Os pubs (que chamamos, as well, de public houses) são os mais tradicionais e antigos pontos de encontro de nós, britânicos – e, como tal, têm muitas regras não escritas, consagradas, however, pelo tempo. Veja, dear Argemiro: há pubs, como o The Bingley’s Arms, em Leeds, na Inglaterra, ou o Seans Bar, em Athlone, na Irlanda, que datam dos anos 900. Ou seja: funcionam há mais de 1100 anos, tendo sido, provavelmente, responsáveis por dezenas de milhões de ébrios soltos nas ruas. Eu diria, quase sem pestanejar, que cada britânico tem o seu próprio pub – o que não significa que haja um pub para cada cidadão, of course. Muitos adotam o mesmo. Lembro-me de ter lido que são perto de 60 mil apenas em nossas ilhas.

No pub falamos de política, futebol, mulheres, aristocratas escandalosos e rúgbi. Devem haver outros temas, mas não no meu pub – onde o assunto viagem se faz presente quando estou por aqui.

Historicamente, os primeiros pubs eram inns – ou seja: hospedavam viajantes, o que é louvável. Ainda existem alguns assim. Se você não quiser cometer gafes como a que cometeu (I’m sorry to say, mas uma das coisas mais engraçadas do verão é observar turistas sedentos sentados em mesas de pub à espera de que alguém venha em busca de seus pedidos), é importante conhecer algumas de nossas idiossincrasias. Primeiro: a nenhum pub é permitido abrir as portas antes das 11 da manhã (meio-dia aos domingos). Quase todos fecham, as well, às 11 da noite – embora o horário da meia-noite venha sendo adotado com crescente frequência. Antes da casa fechar, um sino avisa que é hora de pedir seu último drink. Quando você ouvir o segundo, esteja sóbrio ou não, saiba que as portas se fecharão logo em seguida e há um risco do cliente ser arrancado do estabelecimento a pontapés.

Não importa o tamanho de seu grupo: só um (no máximo dois) da turma devem ir ao balcão para fazer a encomenda. E não adianta gritar ou gesticular alto. Nos melhores pubs, os atendentes só prestam atenção aos praticantes de um tipo gentil de pantomima. Uma mexida de sobrancelha, for instance. Ou um toque no nariz.

Se você tem alguma dúvida, vá ao balcão e observe.

Ah: outra coisa importante, que já resultou em altercações. Atendentes de pub ficam ofendidos com gorjetas (embora, nowadays, unfortunately, esse hábito ande caducando). O que você pode fazer para alegrar um serviçal competente – e é isso que ele espera! – é pagar-lhe um drink. Why not?

Há muito mais a dizer, inclusive sobre comida de pubs. Mas vamos deixar para outra ocasião, se houver freguês, of course.


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