Fábio Vendrame/Estadão
Fábio Vendrame/Estadão

Extravagâncias um tanto selvagens

SAN JOSÉ DE SARAPANGA - "It's so exciting! So exciting!" Era notável a ansiedade dos turistas americanos diante do primeiro desembarque no meio da floresta. Eles haviam se preparado para aquele momento. Tinham um kit completo, com agasalhos impermeáveis, repelente, primeiros socorros, binóculos, lanternas e outros itens que nem imagino. Tudo poderia acontecer. A "rainforest" era um sonho a se materializar. E eles estavam perto de conquistá-la.

Fábio Vendrame, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2013 | 02h12

Fiquei ressabiado. Será que eles estavam exagerando ou eu, brasileiro, teria vacilado? Minha preocupação se resumia a cobrir cabeça, braços e pernas - evito repelente, mas recomendo, com uma observação: se os mosquitos estiverem com fome, ninguém escapa. As botas de borracha, eu sabia, seriam fornecidas a bordo, assim como o cantil de água - este, sim, indispensável.

As expedições consistem em trilhas na selva, banhos de rio, pesca de piranha e observação da natureza. São dois desembarques por dia, a depender das condições climáticas. Debaixo de chuva torrencial o passeio pode ser cancelado. Questão de segurança. Quando desaba o aguaceiro, rios tranquilos mostram uma força descomunal. Correntezas arrastam o que houver pela frente e o encontro entre duas correntes cria redemoinhos que, segundo relatos, tragam pequenas embarcações. Por isso, não foi exatamente agradável estar no meio de uma delas (leia abaixo).

Pessoalmente, prefiro as caminhadas na selva. É uma experiência completamente diferente de uma trilha na Mata Atlântica, por exemplo. O solo arenoso coberto de folhagens, a vegetação alta e densa, o calor intenso sem sombra que o aplaque.

Basta parar, ficar em silêncio e esperar. A bicharada está toda ali. Formigas de cores e tamanhos diferentes, algumas mais ferozes que outras e todas igualmente frenéticas. Libélulas. Aranhas. Taturanas. Borboletas. Pica-paus. Macacos à espreita. Quase não se deixam ver, mas fazem barulho.

Para curtir o passeio, é preciso se concentrar. Os mosquitos tentam tirar a gente do sério, por isso tinha à mão uma toalhinha com a qual os espantava e secava a testa, constantemente molhada de suor. Apesar de me hidratar o tempo todo, sentia que estava derretendo. Não importava. Estava envolvido pela mata.

Microferas. As duas caminhadas que fiz terminaram em locais de extrema beleza. A trilha de Yucuruchi revelou as temíveis formigas militares, que atacam em arrastão e são capazes de devorar qualquer ser vivente que surja no caminho, e me levou até uma concentração de vitórias-régias, a maior flor do planeta.

Em San José de Sarapanga, conheci duas das oito espécies de rãs venenosas - minúsculos e reluzentes habitantes da floresta -, encontrei um senhor com uma anaconda filhote enrolada no braço e dei de cara com um ficus de 200 anos e 40 metros de altura, que tragou três palmeiras e uma árvore em um abraço letal.

Não há como negar que foi algo insólito nadar no encontro entre os Rios Yanayacu e Pucate, no coração da Reserva Nacional Pacaya Samiria, o grande cenário da viagem. Ainda mais depois de termos experimentado a pesca de piranhas a poucos metros dali, num outro igarapé. Até fisguei uma, usando como isca um cubo de carne. Me deu dó. Tentei soltá-la e quase levei uma mordida. Bicho voraz.

Mesmo assim, me joguei naquelas águas turvas. Como disse um guia na palestra de introdução, "nunca haverá um rio azul no Amazonas, isso só acontece no Google Mapas". As águas são densas, escuras. Marrom é a cor predominante.

Não dá pra enxergar nadinha. Mas, ao cair n'água, os peixes vêm para cima e enchem a gente de mordiscadas. São milhares deles. Fazem cosquinhas. A primeira impressão não é exatamente agradável. Pensei nas piranhas e achei melhor voltar à lancha.

De repente, lá estavam os botos. Eram vários. Chovia sem parar desde cedinho. As águas continuavam numa temperatura agradável, mas... algo até então impensável para mim na Amazônia aconteceu: senti frio nos deslocamentos de voadeira.

Dou o braço a torcer: seria bom ter trazido um agasalho. Ponto para os americanos. O restante do kit que eles carregavam, contudo, não passava mesmo de exagero.

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