Festa no terreiro

Visitar casarões de pau a pique, dormir em fazendas históricas, comer como um barão: tudo isso é possível no Vale do Café, região no Estado do Rio que preserva o legado do século 19

Mônica Nobrega - O Estado de S.Paulo

09 Julho 2013 | 02h08

VASSOURAS - "Faça três pedidos, sinhazinha", sugere a guia Andreia Pit antes de entrarmos na igreja matriz, uma construção que começou a existir em 1828, quando Vassouras ainda nem era cidade, condição que só viria a atingir 29 anos mais tarde. Em pleno city tour a pé pelo centro histórico que parece ter congelado no século 19, a sinhazinha aqui não teve nenhuma grande ideia de pedido a fazer.

Talvez por estar concentrada demais nos detalhes do interior da igreja, uma salada feita de ingredientes como barroco mineiro e rococó, bem como na linda praça em frente e na narrativa envolvente da despachada Andreia. Ou melhor, de Mariana Crioula, a escrava rebelde que a guia interpreta para reforçar nos turistas a sensação de retorno ao passado, a uma época em que ali no Vale do Paraíba, no sul do Estado do Rio, viviam algumas das famílias mais nobres do Brasil, sustentadas pelo café e pelo trabalho de escravos. A região chegou a produzir 75% do "ouro negro" consumido no mundo, isso lá nos idos de 1860, o que lhe rendeu o atual nome turístico de Vale do Café.

As lavouras desapareceram, mas o legado da nobreza ficou: ruas de pedra, casarões de pau a pique, móveis preservados e ainda em uso, fazendas restauradas e transformadas em hotéis cheios de classe.

De 16 a 28 de julho, a esse patrimônio histórico se juntam os concertos de música instrumental do Festival Vale do Café, que tem como principais atrativos exatamente os espetáculos que ocorrem em fazendas históricas, seja em salões elegantes ou nos terreiros de secar o café antigamente. Há ainda muitos espetáculos gratuitos. Trata-se da melhor época para ir à região que, nos 15 municípios, tem cerca de 30 fazendas históricas abertas à visitação.

Pecadora. Moça independente demais para o padrão das mulheres de sua época, a rica e instruída Eufrásia Teixeira Leite ficou conhecida pelo romance mais ou menos secreto com o abolicionista Joaquim Nabuco. Conta-se que, em uma viagem de navio de ambos à Europa, Eufrásia desapareceu por horas e, ao voltar à cabine, sua irmã mais velha, Francisca, que a acompanhava, a teria censurado. "Não sei como consegue dormir depois de tanto pecar."

O caso apimentado é lembrado pela guia Andreia a caminho da Casa da Hera (casadahera.wordpress.com; entrada gratuita), antiga residência dos Teixeira Leite em Vassouras que ganhou o nome por causa das trepadeiras nas paredes externas. Nos 22 cômodos do casarão de 69 janelas pode-se observar objetos de uso diário da família, inclusive um raro piano francês Henri Herz do século 19. Nos jardins há trilha e um bambuzal conhecido como Túnel do Amor.

Foi graças à sinhazinha Eufrásia, que doou a propriedade, que o local virou museu. Quanto à sinhazinha aqui, depois de tanto bater pernas, consegui pensar no pedido que ficou perdido na entrada da igreja: uma xícara de café. Foi o único ponto destoante de todo o encanto da viagem: não consegui beber um único café memorável no Vale do Café. 

 

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