Fiéis cremam parentes em ritual à beira-rio

Ainda que esteja a 30 minutos de caminhada de Bodhnath, o santuário hinduísta de Pashupatinath (templo de Shiva) está a uma distância incalculável da experiência budista. Prepare os sentidos para entrar em órbita. Devo ter comigo para sempre a tarde passada no mais importante templo hinduísta do Nepal. Nunca hei de esquecer o dia em que vi alguém ser cremado.

KATMANDU , O Estado de S.Paulo

03 Junho 2014 | 02h07

À beira do Rio Bagmati - outrora afluente do Rio Ganges, hoje em dia meio morto -, um ato de fé divide espaço com um agradável parque. Em pequenas plataformas de concreto na margem das águas, coveiros preparam camas de madeira, sobre as quais os mortos, enrolados em lençóis brancos, são cobertos com plantas e ervas aromáticas. Os filhos dão voltas em círculos ao redor do defunto, o mais velho segurando a chama que ele mesmo coloca perto do queixo do morto. Assistir a poucos metros de distância três filhos cremando a própria mãe foi, de longe, uma das coisas mais impressionantes que já vi.

Três em um. Lado a lado, três rituais ocorrem simultaneamente. O forte cheiro é disfarçado pelas ervas e pela naturalidade com que tudo acontece. Dali a pouco, os filhos homens teriam de raspar o cabelos e as sobrancelhas, vestir branco e permanecer reclusos por 13 dias em um espaço anexo dedicado a eles, onde se alimentariam apenas de arroz com manteiga.

Macacos e vacas, sagradas para hindus, procuram por comida no que sobrou do rio. Também às margens, lindíssimas e centenárias imagens de deuses como Vishnu, Ganesha e Shiva ganham templos próprios de vários tamanhos e cores, além da devoção dos fiéis. Kedar, meu guia, se entusiasmou ao contar as benesses de louvar a Shiva, e todos os louros que sua fé lhe trouxe. Seus olhos brilham ao ser perguntado no que crê.

Num canto do templo, cinco sadhus - religiosos do hinduísmo que optam por uma vida de desapego - mostram que têm plena consciência da fotogenia de sua indumentária (apenas um calção, turbante e o resto do corpo pintado de branco ou laranja) e cobram alguns trocados por fotos com turistas. Em troca lhes dão uma tikka ou terceiro olho, aquela marca com um pó colorido, entre os olhos, que simboliza sabedoria e concentração - acredita-se que o espírito viva ali. Como as marcas levam alguns dias para sair da pele, também comprovam que você esteve no Nepal. / F.M.

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