Viagem

Filipinas: jeito de Caribe em plena Ásia

Do caos urbano de Manila ao mar azul e cristalino de Boracay, descubra os contrastes desse país que recebe bem os turistas - em alto e bom inglês

14/11/2017 | 04h50    

Gilberto Amendola - O Estado de S. Paulo

A calmaria convidativa do mar de Boracay

A calmaria convidativa do mar de Boracay Foto: Charlie Saceda/Reuters

Porn Star e Jesus Christ aguardam o farol abrir. Os jipes remanescentes da 2.ª Guerra Mundial ainda atravancam o trânsito de Manila, nas Filipinas. Desde a década de 50, o espólio deixado pelo exército americano serve como uma opção barata de transporte público. Por 8 pesos filipinos (cerca de R$ 0,50), o trabalhador local se espreme nos jeepneys – veículos personalizados e batizados pelos seus orgulhosos donos. 

Nas proximidades do aeroporto internacional, eles funcionam como um aperitivo daquilo que o turista ainda está prestes a descobrir. Composto por mais de 7 mil ilhas, esse arquipélago no sudeste asiático é tão contrastante quanto o nome dos jeepneys Porn Star e Jesus Christ, que evoluem devagar pela avenida principal. 

Além do trânsito pesado e um tanto carnavalizado, Manila é temperada pelas contradições de seus distritos ultramodernos (que podem fazer alguém pensar em algo como Manhattan), bairros históricos (que poderiam compor perfeitamente com os nossos Brás, Bixiga e Barra Funda) e pela agitação multicultural, herança da colonização espanhola, do posterior domínio norte-americano e de vizinhos poderosos, como China e Japão.

Na capital, o excesso é um traço cultural. Esqueça as fantasias minimalistas do continente asiático. Em Manila, o excesso vive na própria linguagem, na tendência do filipino em repetir palavras para enfatizá-las. Por exemplo, um dos principais mercados da cidade se chama Market, Market; e a sobremesa mais tradicional é o halo-halo. Se não for para repetir palavras, o filipino pode usar outras estratégias para garantir que não haja ruído na comunicação, como a de batizar a área habitada pelos ricos e famosos de Forbes Park (em referência à revista que trata de empresários e bilionários).

 

 Jeepneys são onipresentes por toda a Filipinas e servem tanto como meio de transporte quanto como atração turística

 Jeepneys são onipresentes por toda a Filipinas e servem tanto como meio de transporte quanto como atração turística Foto: Gilberto Amendola/Estadão

No bolso

Por falar em dinheiro, a relação do dólar com o peso filipino é bastante vantajosa. Na casa de câmbio do aeroporto de Manila, US$ 1 valia (em outubro) 51 pesos. Para se ter uma ideia, uma garrafa d’água sai por 30 pesos. Além disso, come-se bem a apimentada culinária local por menos de US$ 15. O mesmo vale pra quem quiser conhecer a prestigiada coquetelaria filipina (com bares na lista dos 50 melhores da Ásia). Drinques defumados e envelhecidos em barril de carvalho custam em média US$ 8 – metade do que se pagaria por eles em capitais como Nova York e Londres. Para comidas de rua e bebidas menos sofisticadas (água, refrigerante, cerveja ou rum filipino), US$ 5 rendem um banquete. Ah, e com US$ 1 ou US$ 2 come-se (bem) na principal cadeia de fast-food do país. 

Excessos e contradições também estão na relação entre a política e o povo. Os filipinos têm um presidente linha dura. Rodrigo Duterte, espécie de Jair Bolsonaro asiático, que tem empreendido uma luta sangrenta contra usuários e traficantes de droga. A mão pesada do mandatário é visível nos esquemas de segurança da cidade, mas não é perceptível na doçura e cordialidade do povo. O máximo que pode acontecer a um turista desavisado é ser arrastado para passar vergonha em um dos milhares karaokês do país e obrigado a cantar algum sucesso dos anos 90, como More Than Words, do Extreme, que toca nas rádios locais como se tivesse sido lançado ontem.

Relaxar na areia, cantar no karaokê, mergulhar...

Achou Manila um pouco demais? Talvez seja. Mas as Filipinas são como um quebra-cabeças. Pertinho da metrópole agitada existem ilhas de sossego. Em pouco mais de 1 hora de voo da capital, você pode alcançar lugares idílicos como a Ilha de Boracay. Esqueça Porn Star e Jesus Christ atrapalhando o tráfego. Em Boracay, você verá tuk-tuks, estradas de terra e o azul e cristalino Oceano Pacifico. 

Mas a faixa de areia mais famosa é a da Praia Branca, com seus 4 quilômetros de costa. O nome, claro, refere-se a cor da areia. Além de caminhadas à beira-mar, o turista pode gastar energia nas atividades marítimas. Agências de turismo oferecem dias inteiros de mergulho. Com um simples snorkel, você já tem acesso à riquíssima vida marinha (e se você tiver um equipamento adequado vai poder tirar fotos incríveis). Além de mergulho, tem banana boat, stand up paddle, kitesurf, e todas aquelas atividades que eu, pessoalmente, prefiro acompanhar do barco.

Boracay é um clichê de paraíso. E isso, na verdade, não deve ser um problema. O que pode ter de errado em voar para o outro lado do mundo simplesmente para ficar de boa? 

Das compras ao vulcão adormecido

O trânsito caótico de Manila se contrapõe à tranquilidade de seus moradores. Mas vale se munir de paciência e enfrentar os congestionamentos para conferir as atrações a seguir

Parque Rizal oferece um contraponto ao ritmo frenético da capital com seus 60 hectares de sossego e área verde

Parque Rizal oferece um contraponto ao ritmo frenético da capital com seus 60 hectares de sossego e área verde Foto: Gilberto Amendola/Estadão

Não dá para escapar do trânsito caótico de Manila. Inspire-se na tranquilidade dos locais e não se estresse ao visitar a capital.

Intramuros

É um histórico distrito murado construído pelos conquistadores espanhóis no século 16 em Manila. Durante a batalha de reconquista das Filipinas, quase no fim da 2ª Guerra, o local foi praticamente destruído pelos japoneses. Dentro dela, ainda sobrevive, com certa imponência, o Forte Santiago. 

Estrategicamente construído na foz do Rio Pasig, permitia a visão de tudo o que acontecia na Baía de Manila em tempos de guerra. Hoje, ainda proporciona uma vista privilegiada da cidade. Apesar das marcas da violência do passado, o local tem um clima romântico. Reserve umas duas horas para o passeio – há calabouços e túneis para serem explorados. 

Ali, o Santuário de Rizal é um museu dedicado ao herói nacional das Filipinas. Foi lá que José Rizal, que lutou contra o domínio espanhol, ficou preso durante seus últimos meses. Do lado de fora, é possível seguir as pegadas dele até o local de sua execução. Pode parecer mórbido, mas as crianças adoram brincar de pisar nas pegadas do herói local. 

 

 Ruínas espanholas em Intramuros tem clima romântico apesar da violência do passado do local

 Ruínas espanholas em Intramuros tem clima romântico apesar da violência do passado do local Foto: Gilberto Amendola/Estadão

Parque Rizal

Também conhecido como Luneta, é um dos maiores parques da Ásia, com cerca de 60 hectares. Trata-se da área verde mais frequentada pelos moradores de Manila, uma espécie de Central Park local. Destacam-se o orquidário e os jardins japonês e chinês. O onipresente herói local também é homenageado com uma estátua de bronze e granito de 13 metros de altura. No meio de uma cidade frenética como Manila, o parque serve como ponto de reflexão, com espaços para meditação e relaxamento. Provável que ao sair de lá você consiga enfrentar melhor o trânsito caótico da cidade. 

Igrejas 

A Catedral de Manila é uma sobrevivente. Na verdade, o que se vê hoje em dia é a oitava versão de uma igreja que nasceu em 1581, feita de bambu e folhas de palmeira. Ao longo dos anos, guerras, tufões, incêndios e terremotos destruíram impiedosamente o templo.

A catedral atual data de 1950 e foi transformada em basílica pelo Papa João Paulo II em 1981 – as Filipinas são um país majoritariamente católico. 

Já a igreja de Santo Agostinho, tombada pela Unesco, traz uma forte influência barroca e a inegável herança espanhola. O jeito mais bonito de visitá-la é durante um casamento. As cerimônias são simples, mas muito sentimentais (assim como o povo filipino). A fama da igreja cresceu por ser o único prédio público que sobreviveu ao maior terremoto que atingiu o país, em junho de 1863. Durante a ocupação japonesa, na 2ª Guerra, ela se transformou em um campo de concentração. 

Bonifacio High Street

É o ponto certo para quem quer ir às compras, no distrito de Bonifácio, em Manila. Trata-se de um shopping a céu aberto com grandes marcas – como GAP, Nike, Benetton – e restaurantes variados (hambúrgueres, sushis, massas...). A presença ostensiva da polícia não passa despercebida no local, considerado o mais vigiado e seguro da cidade. Como a relação do peso filipino e o dólar é favorável, não é difícil ver visitantes carregados de sacolas. Por algum tempo, você pode esquecer que está no Sudeste Asiático e se imaginar em plena Miami.

Vulcão Taal

Vale rodar os 50 quilômetros que separam Manila de Tagaytay para ver o Vulcão Taal. A viagem leva quase 4 horas – por conta dele, do trânsito. Mas, se você tiver paciência, e der sorte com o clima (principalmente escapar da forte neblina), vai ser presenteado com a visão do segundo maior vulcão ativo das Filipinas. Trata-se de uma maravilha da geologia. Acompanhe e tente não se perder: dentro do Vulcão Taal, existe o Lago Taal onde, por sua vez, está a Ilha Taal. O vulcão encontra-se adormecido desde 1977. Para ter uma vista panorâmica, vale ir ao observatório do Taal Vista Hotel, no quilômetro 60 da Aguinaldo Highway.

Aliás, já que está em Tagaytay, aproveite para dar uma passadinha no Sonya’s Garden (sonyasgarden. com). O magnífico jardim tradicionalmente abriga festas de casamento. Além de conhecer uma variedade de flores e toda a vegetação nativa, o Sonya's Garden também funciona como um restaurante, para um almoço saudável e com cheiro de flor, e como um concorrido Bed & Breakfast.

Onde ficamos

Detectores de metal e revista detalhada são parte da rotina dos hóspedes em Manila

Old Fashioned defumado: iguaria do hotel que vale a pena encarar a revista minuciosa na entrada

Old Fashioned defumado: iguaria do hotel que vale a pena encarar a revista minuciosa na entrada Foto: Gilberto Amendola/Estadão

- Shangri-la Manila  e Boracay 

O esquema de segurança para entrar no complexo do Shangri-la em Manila é impressionante. Na entrada do hotel, detectores de metal e uma detalhada revista acaba fazendo parte da rotina do hóspede. Para compensar, fui recebido no saguão com uma taça de gim tônica.

O quarto é espaçoso, com tudo aquilo que se espera de um hotel de luxo. Destaque para seus restaurantes e o bar principal, que tem a pretensão de ser o melhor da cidade. Tomei ali o oldfashioned defumado, com base de uísque, e não me arrependi. 

Já o Shangri-la de Boracay é mais relax. Ao chegar, a recepção é no estilo Ilha da Fantasia, com funcionários sorridentes e coquetéis de boas-vindas. O quarto repete o padrão Shangri-la, com a vantagem da vista. Se em Manila pouca graça havia em olhar pela janela, em Boracay o que se vê é um mar azul e uma praia de areia branquinha, com quiosques para petiscar e beber cerveja o dia todo. A partir de R$ 2.300; shangrila.com.

Sabores inesquecíveis

De fast-food até cabeça de porco fervida, picada e grelhada, tudo acompanhado do típico rum local

Pratos típicos da Filipinas fazem a cabeça de locais e até mesmo de chefes internacionais

Pratos típicos da Filipinas fazem a cabeça de locais e até mesmo de chefes internacionais Foto: Gilberto Amendola/Estadão

- O barato 

A cadeia de fast-food onipresente é a Jollibee. Uma espécie de McDonald’s filipino (com restaurantes em vários países europeus). O cardápio é extenso – de hambúrgueres a algo parecido com os nossos PFs. Quase custa US$ 1. Você não precisa do endereço de nenhum Jollibee: eles estão espalhados por qualquer canto de Manila. 

- Os típicos

Lechón, o leitão assado, é o prato mais famoso. Ainda falando em porco, o sigsig fez a cabeça do chef-celebridade Anthony Bourdain. A cabeça de porco é fervida e, depois, picada e grelhada ou selada. Já o adobo é mais um modo de preparo – uma mistura de temperos, como pimenta, páprica, alho, cebola, shoyu e vinagre. Mas também dá nome a um prato que leva carne de porco ou galinha cozidos em leite de coco. É bem apimentado – como quase tudo na culinária local. De sobremesa, o halo-halo é desafiador. Em um copo de milk-shake, vem sorvete de batata roxa, gelatina, pudim de leite e...feijão branco, milho, grão de bico, queijo. Com tudo isso no copo, você tem que “halo-halo” (algo como misturar e misturar). Boa sorte. 

- Aqui tem rum

Além do mar azul e da areia branca, as Filipinas têm em comum com o Caribe a produção do próprio rum. Não é parecido com o cubano, mas tem o seu valor. As duas principais marcas são a Tanduay e o Don Papa. A Tanduay faz um rum acessível e barato. A garrafa de 250 ml é uma boa lembrança de viagem e custa US$ 1 nos mercados. Já o Don Papa é bom para ter no bar de casa. A garrafa de 1 litro sai por cerca de US$25. 

 

Saiba mais

Conheça as companhias aéreas e a melhor época do ano para conhecer o país

Melhor momento para conhecer a ilha de Borocay é de novembro a abril, quando não há perigo de tufões

Melhor momento para conhecer a ilha de Borocay é de novembro a abril, quando não há perigo de tufões Foto: Gilberto Amendola/Estadão

Voos: Não há voos diretos para Manila. Uma das opções é com a Ethiopian ( ethiopianairlines.com), fazendo conexão em Adis Abeba. A partir de US$ 1.297,10, ida e volta.

Quando ir: a melhor época vai de novembro a abril; de julho a setembro tufões são comuns.

Site: experiencephilippines.org.