Viagem

Furacões e o turismo: tire suas dúvidas

As tempestades derrubam aviões? Quando cruzeiros desviam suas rotas para escapar delas? Quais são os direitos do viajante em caso de cancelamentos? Especialistas respondem

19/09/2017 | 19h29    

Bruna Toni - O Estado de S.Paulo

Imagem de satélite dos furacões Maria, no Caribe, e  José, no oceano Atlântico.

Imagem de satélite dos furacões Maria, no Caribe, e  José, no oceano Atlântico. Foto: EFE/Marinha dos Estados Unidos

Maria é a tempestade da vez sobre o Oceano Atlântico - e o turisticamente desejado Caribe. Entenda quais são seus direitos e quais os riscos reais que as tempestades representam para viagens.

 

SOBRE DIREITO DO CONSUMIDOR

Fátima Lemos, assessora técnica do Procon-SP e assessoria de imprensa 

- Quem tem viagem marcada para lugares na mira de furacões como o Maria, por exemplo, pode remarcar ou cancelar a viagem sem custos?

O turista tem o direito de trocar a passagem ou o pacote para outra data ou local caso deseje, sem ser cobrado a mais por isso. Outra opção é o cancelamento do contrato, sem pagamento de multa e com restituição da quantia eventualmente antecipada - e com valores atualizados, inclusive. 

O Procon-SP se baseia no artigo 6º, inciso I, do Código de Defesa do Consumidor que "estabelece a proteção da vida, saúde e segurança como direitos básicos". São consideradas situações de emergência, além de furacões, terremotos, pandemias, enchentes etc.

- E nos casos dos viajantes que já estavam em viagem e foram surpreendidos com as consequências do furacão, como mudança de rota e cancelamentos de passeios?

Se o consumidor não conseguir realizar passeios, coisas que estavam contradas e não foram oferecidas porque não houve condição, ele pode pedir o abatimento do valor, porque de certa forma houve frustração de expectativa - o percentual de abatimento é questão de contrato, tem de ver o quanto custou cada serviço, tem de avaliar caso a caso sempre. Mas, se o consumidor não teve a prestação de serviço, independente da classe que ele está, independente de qual categoria, ele tem direito. Cabe para todos. Temos sempre de tentar achar o equilíbrio, o razoável. Mas tem de ter isonomia. 

- Nos casos de remarcação de passagem por questões de segurança, em situações como a do furacão Irma, o consumidor deve arcar com os custos? Quem deve se responsabilizar?

Tem solidariedade aí. Tanto pode pedir para um quanto para o outro, porque tudo bem, não é culpa diretamente do prestador, mas é essa a responsabilidade que chamamos de objetiva. Eu não tenho culpa, só que faz parte do meu negócio. Porque a segurança do consumidor é a regra básica. Se é uma preocupação com segurança e ele quer retornar, ele não vai poder ser cobrado por isso. Quem é que vai resarci-lo? Ele pode tanto pedir para a companhia aérea remarcar sem multa por conta da situação, ainda mais se é uma situação amplamente negociada, quanto para quem está promovendo o próprio cruzeiro. Mas, mais uma vez, é preciso avaliar caso por caso.

*

SOBRE CRUZEIROS EM MEIO A FURACÕES

- Algumas companhias marítimas têm viagens pelo Caribe durante essa época do ano. É seguro?

A Royal Caribbean tem aproximadamente 15 navios circulando pelo Atlântico todos os meses do ano, saindo dos portos da Flórida e do Texas em direção ao Caribe. Segundo a empresa, além do grande aparato tecnológico em seus navios, uma equipe meteorológica própria garante a segurança dos passageiros, cruzando informações com aquelas emitidas oficialmente pelos órgãos meteorológicos e se utilizando de equipamentos e aviões para analisar a situação climática de suas rotas. Em todo caso, a alteração de rota é uma das medidas tomadas em casos de emergência. 

A MSC também tem saídas no período, como o MSC Divina. Procurada, a companhia apenas respondeu por meio de sua assessoria que mantém uma página que atualiza sobre mudanças de rotas nos seus cruzeiros: bit.ly/rotasmsc.

Já a Costa Cruzeiros não realiza viagens para Caribe e Estados Unidos durante o período de furacões, começando sua temporada apenas em dezembro na região.

*

SOBRE VOOS, FURACÕES E OUTROS FENÔMENOS NATURAIS

Paulo Roberto Alonso, comandante e consultor técnico da diretoria de Segurança e Operações de Voo da Abear 

- Um furacão pode derrubar avião?

O furacão pode interferir na medida que faz necessário o desvio de voos, não há como fazer voo na rota dele. Na aeronave, o tempo todo há a visibilidade pelo radar. O furacão é um amontoado de cumulonimbus, uma formação compacta de cumulonimbus, e esse tipo de nuvem de desenvolvimento vertical vai à altíssimas altitudes. Mas elas são muito bem detectadas pelo radar de bordo da aeronave. O furacão afeta mais no contato do avião com o solo. Em voo, toda a aeronave desvia, é impossível entrar no furacão. 

 

- Há alguma chance de o avião ter de mudar de rota no meio do caminho por conta de um furacão inesperado?

Não, ele é detectado com muita antecedência. Ele ainda está em formação na costa da África e, nos EUA, já se sabe até a rota que ele vai seguir. Isso é muito preciso. Muito disso se deve aos caçadores de furacão. Eles conseguem penetrar no olho do furacão com aeronaves especiais.

Você até pode passar por cima, dependendo do tipo de aeronave. Mas não é conveniente. Se você tem algum tipo de inconveniente, por exemplo, uma despressurização a bordo, e aí tem de descer, vai descer no nível do furacão. Não compensa. Geralmente o furacão não é tão alto, vai até um nível de 400 mil pés, tem aeronaves que voam acima disso, mas mesmo assim não é conveniente. O próprio controle de tráfego áereo evacua essas rotas, como se faz no solo.

 

- Quais outros fenômenos podem ocorrer no Atlântico que são perigosos a voos?

Além do furacão e tufão, há a chamada ITCZ (ou ZCIT), a Zona de Convergência Intertropical. Ela fica na zona do Equador e é a grande responsável pelas chuvas na região amazônica, por exemplo. Às vezes, nessa área, pode ter um tal de CCM, Complexo Convectivo de Mesoescala. Ele tem uma duração menor do que a do furacão, mas é muito forte, muito violento. Para voo, chega a ser mais violento do que o furacão. 

Há os tornados também, que já ocorreram no Brasil e causaram muita devastação. Geralmente estão associados a zonas de baixa pressão. O vento sempre sopra da alta para a baixa pressão e, nessas trocas, as diferenças podem ser muito grandes, causando os tornados. E tudo aquilo que tem vento muito forte é prejucial ao voo. Você só pousa e decola com vento de proa e até uma determinada velocidade.  

- O tamanho do avião interfere na segurança também nessas situações?

Os maiores sofrem menos com esse tipo de fenômeno natural, um menor é levado pelo furacão no solo.

- E intensidade dos furacões? Muda se eles são de categorias menores ou maiores para os voos?

Seja tempestade, seja furacão, caia fora. Não arrisque, sempre desvie. E sempre se afasta no mínimo uns 50 quilômetros para não sofrer nenhum tipo de risco. Porque mesmo as nuvens de tempestades sozinhas podem cuspir pedras de gelo durante seu percurso.

 

*

SOBRE FURACÕES

Mamedes Luiz Melo, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet)

Como se formam os furacões?

Tudo depende das condições atmosféricas e da temperatura da superfície do oceano. O furacão só se forma em cima do oceano e onde a água está mais quente. No Oceano Atlântico, normalmente, os furacões se formam a partir de uma perturbação vinda ali da África, alguma tempestade que acontece e vem em direção ao Atlântico. Quando chega nele, encontra condições favoráveis, que é calor e umidade. Essa tempestade vai se intensificando, passa a ser tempestade tropical, chegando à fase de furacão.

Quando começa a temporada de furacões no Caribe? 

A temporada de furacões no Oceano Atlântico começa em junho, julho e vai até outubro.

Há alguma área do Caribe que está livre do furacão Maria?

Eu diria que não tem muitas, não. Estão todas sob influência do Maria, que ainda vai atingir parte do leste de Cuba. São esperados em torno de 20 furacões na região nesta temporada, mas não sei dizer exatamente quantos.

Ele pode ser devastador como o Irma?

Onde o Maria está agora  já se equiparou com o Irma, porque está com nível 5. Mas vai continuar com esse nível? Isso vai depender muito para onde ele está se deslocando. Sabemos que ele vai passar pela República Dominicana, passar por todas as ilhas da região, indo quase na mesma direção do Irma, mas seguindo para a direção do José, que está numa categoria mais baixa do que o Maria.

Mas depende muito da temperatura da superfície do mar. Normalmente, depois que o furacão passa, a água esfria e ela leva um certo tempo para esquentar de novo, para dar condições à formação de um furacão. Para se ter uma ideia, ela tem de chegar pelo menos em torno de 28 graus, daí para cima, para que possa se formar um furacão. O combustível do furacão é calor e umidade. 

DÊ O PLAY!

UM DIA NO MAIOR CRUZEIRO DA TEMPORADA BRASILEIRA