Fuso horário feliz

Um pouco mais próximo de nós no tempo (e não no espaço) com a mudança de fusos horários, nosso incansável viajante decidiu discorrer sobre o tema, que parece interessar aos leitores.

O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2012 | 02h11

Então vamos à correspondência da semana:

Mr. Miles: estou lhe escrevendo essas linhas ainda abalado pela mudança para o horário de verão. Eu sei: é apenas uma hora, mas costumo ficar deprimido e insone por quase uma semana. Por que isso? Quem inventou o fuso horário?

Everaldo Menezes, por e-mail

"Well, my friend, não entendo porque você fica atrapalhado com o horário de verão. Minha saudosa amiga Tiji Ferreira, que vivia no interior de São Paulo e era muito religiosa, também não gostava que mexessem em seus horários. Para ela, era preciso viver no horário de Deus. À mudança estival ela chamava, indignada, de 'horário dos homens'. E ficava desconfortável ao jantar com o sol entrando pela janela. 'Não nasci para comer com as galinhas', resmungava.

Um atraso ou avanço de uma hora no relógio pode ser plenamente desconsiderado se, of course, isso lhe fizer bem. Simplesmente não mude os ponteiros dos relógios de sua casa e continue dormindo na hora de sempre e acordando na hora de sempre. Well: talvez isso faça com que você se atrase um pouquinho para o trabalho ou perca a soap opera (N. da.R: novela) das nove. Nada, however, que o deixe deprimido ou insone como está ocorrendo.

O fuso horário é, of course, uma convenção humana, baseada na incidência do sol em cada lugar do mundo. In fact, nem precisaríamos dela. Mas provavelmente seria muito confuso se, no Japão, fosse meia-noite, no Brasil, meio-dia, e ambos atendessem pelo nome '18 horas'. Imagine o diálogo entre moradores de Tóquio e do Rio, for instance. O nipônico diria: 'Eu nunca durmo depois das 18 horas'. E o carioca contestaria, com toda razão: 'Dormir com o sol a pino? Como é que você aguenta?' Assim, criamos uma convenção baseada na distância dos meridianos, sendo que o meridiano zero passa bem perto do meu pub em Greenwich, bairro de Londres. De Greenwich para o leste o horário aumenta - e o contrário ocorre na direção oeste. De tal forma que um dia se encontra com o próximo ou o anterior na chamada Linha Mundial da Data, no Oceano Pacífico.

A distância entre um meridiano e outro é de mais de 1.660 quilômetros na linha do Equador. E de apenas 290 quilômetros na proximidade dos polos. In other words: a incidência de luz muda mais rapidamente nas extremidades e é por isso que, no inverno existem noites eternas e, no verão, dias que não acabam.

Não vou me alongar mais, porque um bom amigo meu do passado, o físico Charles Malloney, perdeu a razão discutindo a passagem do tempo e, poor man, hoje está em um hospício de San Andrews, na Escócia, perguntando, sem parar, aos enfermeiros: 'What time is it?'

O fato, my dear Everald, é que o fuso horário é uma convenção e nem todos precisam aceitá-la. Na China, for instance, o mesmo horário é adotado em quase todo o país, abrangendo uma largura de mais de 4 mil quilômetros. Ou seja: em Pequim, o dia amanhece às 7 da manhã, enquanto em Ürümqi, na região oeste, só vai amanhecer perto do meio-dia. Amazing, isn't it?

E tem mais: países como a Venezuela, a Índia e o Afeganistão - só para ficar em três exemplos -, adotam fusos de meia hora. Aqui, 4 da tarde, logo ali, 4h30, e assim por diante. Não é a toa que Malloney enlouqueceu...

Se me fosse dado convencionar o fuso horário no mundo, Everald, eu faria com que todos os lugares estivessem entre as 18 e as 20 horas. E sabe por quê? Todas as horas seriam happy hours! Cheers!"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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