Viagem

Golpes clássicos e outras ciladas em viagens

É preciso ficar atento em lugares movimentados e ter sempre dinheiro trocado à mão para gastos de menor valor, como táxis e museus

28/10/2014 | 02h07    

Adriana Moreira, Monica Nobrega, Felipe Mortara - O Estado de S.Paulo

É preciso ficar de olhos bem aberto em lugares movimentados, como as Ramblas, em Barcelona

É preciso ficar de olhos bem aberto em lugares movimentados, como as Ramblas, em Barcelona Foto: Albert Gea/Reuters

Do Louvre ao metrô de Londres, da Broadway nova-iorquina à Avenida Paulista. Grandes centros urbanos concentram não só multidões, mas batedores de carteiras, ávidos por caminhantes distraídos. Alguns destinos têm ainda golpes específicos. Aqui, reunimos os mais comuns para você ficar atento - o que não significa riscar qualquer desses lugares da sua lista de viagens.

Orlando. Em setembro de 2014, relatos de brasileiros furtados nos hotéis de Orlando alarmaram quem tinha viagem marcada à meca dos parques de diversão. Embora não haja razão para pânico - segundo o Consulado-Geral do Brasil em Miami, 223 brasileiros foram vítimas de furtos em toda a Flórida até 23 de setembro daquele ano, um caso a cada 1,62 dia -, é hora de repensar alguns movimentos simples. Começando da escolha do hotel.

Depois de frequentar na infância, trabalhar nos parques da Disney e perder as contas de quantas vezes voltou a Orlando, Renata Costivelle criou, ao lado do marido Felipe Almeida, o blog Vai pra Disney? (vaipradisney.com), com dicas para os brasileiros. Segundo ela, é bom evitar os hotéis da International Drive, repleta de opções baratas e muito visada por ladrões. "Nós preferimos nos hospedar em Lake Buena Vista, que chama menos atenção e não está longe dos parques."

Outra dica é, antes da reserva, checar se há cofre nos quartos e portaria no hotel. Importante também é olhar os comentários de sites como TripAdvisor - vá direto aos que classificaram o hotel como ruim ou péssimo e verifique se há denúncias sobre furtos no local.

Não chamar a atenção é outra recomendação, dada também pelo Consulado-Geral do Brasil em Miami. Renata aconselha não deixar caixas das compras fora do quarto - o melhor é descartá-las longe dali. Guardar as sacolas no carro e voltar ao shopping para comprar mais é outra péssima ideia, já que alguém pode estar observando. "O ladrão em Orlando é oportunista - uma abordagem violenta é muito rara. Ele vai aproveitar um descuido para agir."

Oriente Médio e Ásia. Eles estão em toda parte: nos souks, nas medinas, no Grande Bazar de Istambul (cidade turca metade na Ásia, metade na Europa), nas milhares de portinhas enfileiradas pelas ruas comerciais e nos shoppings populares. Quando sai às compras sem informação prévia, você corre risco de voltar para casa com produtos falsificados na bagagem e ainda achar que fez um ótimo negócio.

O jeito de minimizar o risco é um só: buscar referências. Mesmo que a barganha seja um hábito em muitos destinos do mundo árabe, saiba antes qual é o preço médio do item de seu interesse e desconfie de valores muito mais baixos. Também vale usar lojas concorrentes como parâmetro para comparação.

Priorize endereços indicados por conhecidos que já atestaram a qualidade e autenticidade dos produtos vendidos neles. Na falta de um amigo bem informado, o concierge e outros funcionários do hotel podem dar boas dicas. E lembre-se: grifes exclusivas e badaladas jamais enviam seus produtos para serem vendidos por pequenos comerciantes de mercados populares.

Buenos Aires e Santiago. Dinheiro falso é, certamente, um dos maiores problemas dos turistas em Buenos Aires. Há relatos de gente que recebeu notas falsas ao trocar dólares e reais por pesos argentinos em agências bancárias. O problema é tão sério que no aeroporto e em várias casas de câmbio oficiais são distribuídos folhetos que ensinam a reconhecer as cédulas originais. As informações estão também no site www.bcra.gov.ar - no menu à esquerda, vá em Billetes y Monedas e em Emissiones Vigentes.

Tente sempre ter dinheiro trocado para gastos de baixo valor, como táxi, café e ingressos de museus: a chance de receber plata falsificada como troco é grande. Com a força atual do câmbio paralelo na Argentina e o benefício que ele traz aos turistas ao reduzir os custos da viagem, é preciso redobrar a atenção. No blue, como a cotação paralela é conhecida, cada dólar está valendo cerca de 14 pesos (contra 8 no câmbio oficial) e o real, de 6 a 7 pesos (oficialmente, 3,40).

Jamais ceda às ofertas dos arbolitos, os cambistas que abordam turistas em vários pontos de Buenos Aires (a Calle Florida, no centro, é um deles). Prefira fazer a troca com prestadores de serviço com quem você terá contato mais frequente e intenso, como o recepcionista do seu hotel, o guia dos passeios ou o motorista dos transfers. E lembre-se: embora não haja repressão, a operação é ilegal. Se algo der errado, não há para quem reclamar.

Em Santiago, fique atento às notas falsas em táxis. Há relatos de viajantes desavisados que entregaram uma nota alta ao taxista e receberam outra nota de mesmo valor de volta, sob a alegação de que haviam passado dinheiro falso. Mas, na verdade, os taxistas trocam as notas sem que o passageiro veja, entregam a falsa ao turista, ficam com a original e ainda levam mais dinheiro pela corrida.

Jamaica. Há uma certa tensão entre locais e turistas fora dos luxuosos resorts, especialmente em Montego Bay, principal balneário do país. A abordagem simpática e sorridente é comum. Depois de algum papo, o novo "amigo" oferece maconha, que não é legalizada no país. Muitos fazem negócio e, em seguida, são abordados por um policial, que pede dinheiro para não levar o turista para a delegacia.

Europa. Seja nas Ramblas, em Barcelona, na Piazza del Duomo, em Milão, ou na escadaria da Igreja Sacré Coeur, em Paris, evite os ambulantes que tentam amarrar fitinhas no seu braço. Uns dizem ser "um regalo(presente)", outros para "ajudar a igreja", mas todos vão pedir um valor surreal pela tal pulseira. Outras abordagens comuns são de ciganas, que pedem uma moeda, leem o destino na palma da mão ou vendem jornais. Na menor distração, algumas surrupiam carteira, bolsa ou celular. Por sinal, batedores de carteira são comuns em países como Espanha, Suíça e França. Metrôs, atrações turísticas clássicas e lojas de museus são os principais alvos. 

 
DEPOIMENTO
'Fale com estranhos, só não prometa nada a eles'
Rodrigo Dionisio, fotógrafo
 
"Em Havana, eu e minha namorada fomos abordados por um casal jovem. Vestidos com certa elegância, falantes, queriam saber de onde éramos. Minha reação foi cortar a conversa, mas a Fernanda decidiu entrar na história e ver onde dava. 
 
Após um momento descontraído, começou então uma choradeira sobre o racionamento de comida e os quatro filhos em casa. Seguimos até uma venda ali perto para comprar-lhes uma lata de leite em pó. Fiquei na porta fumando. Em menos de um minuto a mulher saiu apressada, com quatro ou cinco sacolas cheias. Afinal, não era só uma lata de leite? Fernanda veio atrás, chocada e desolada. Para nós, sobrou uma conta que equivalia ao que prevíamos gastar em dois ou três dias em Cuba. 
 
Não foi um roubo ou assalto, apenas um abuso típico da boa-fé de turistas. Demorou a passar a sensação de termos sido enganados. Em caso como esses, sugiro que fale com estranhos, mas não prometa comprar nada a eles."