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Grafite transforma Lisboa em tela para a arte de rua

A efervescente cena da arte de rua em Lisboa conta com apoio do poder público e o empenho de artistas para revigorar áreas degradas e incentivar um turismo literalmente alternativo

Diane Daniel, LISBOA/THE WASHINGTON POST

26 Julho 2016 | 00h48

O grafite começou a cobrir Lisboa nos anos de 1970 como forma de protesto político. Atualmente, contudo, a capital portuguesa se transformou em um museu ao ar livre, orgulhosamente inundada por murais chamativos, muitos deles feitos com apoio da própria cidade. 

Recentemente, participei de um tour com uma das curadorias mais destacadas dessa cena, a galeria e loja Underdogs, dedicada à arte pública e à educação, que abriu um animado ponto de vendas de frente para o Rio Tejo, onde os tours começam e terminam. 

Em nossa primeira parada, no bairro de Marvila, a 10 minutos do centro da cidade, precisamos de binóculos para ver o que nossa guia, Marina Rei, apontava no topo de um prédio, um “splash” de vermelho, amarelo e azul. “É do espanhol Okuda”, disse. “Ele ama cores fortes e sempre inclui uma mulher gorda e uma bandeira dos Estados Unidos.” 

Chegamos depois a um jardinzinho atrás da Braço de Prata, antiga fábrica de munição transformada em centro cultural. Desta vez, a arte estava tão perto que poderíamos contornar suas linhas com os dedos. As imagens cobrem o concreto das paredes internas, e há obras assinadas pelo fundador da Underdogs, Vhils, também conhecido como Alexandre Farto. Com sua técnica, Vhils ajudou a ampliar as fronteiras da arte ao ar livre em Lisboa e internacionalmente. Em vez de adicionar camadas de tinta às paredes, causa nelas fissuras com martelos, brocas e até explosivos, expondo assim pedaços de tijolos e concreto. 

Retratos esculpidos de pessoas comuns são sua marca registrada. O rosto do artista também está espalhado pela região metropolitana de Lisboa, levando visitantes a uma caçada. O trabalho de Vhils pode ser encontrado pelo mundo, e ele abriu um estúdio em Hong Kong. 

Fomos até o velho galpão que funciona como a galeria da Underdogs, a 7 quilômetros da loja de arte, em uma vizinhança industrial. O local é usado para concertos e performances. Perto, nos deparamos com uma obra inesperadamente acolhedora e gentil. O artista francês Olivier Kosta-Théfáine cobriu uma casa de azulejos brancos e azuis-claros, uma ode aos tradicionais azulejos portugueses das construções centenárias de Lisboa. 

O artista incluiu desenhos de trepadeiras floridas que comumente crescem entre frestas das paredes, uma lembrança da persistência da natureza. “É muito importante para nós mostrar mais que grafite”, disse a guia. “Esta foi parte de um programa no qual pedimos para as pessoas doarem suas paredes para a arte. Nós doamos a arte como um serviço público.”

Quando a Underdogs apoia um artista, fornece espaço e materiais, organiza mostras e oferece impressões em edições limitadas para venda. A lista de artistas é internacional e inclui o coletivo Cyrcle, de Los Angeles, e os gêmeos How e Nosm, nascidos na Alemanha, criados na Espanha e atualmente baseados em Nova York.

Lisboa tem seu próprio programa público, o Galeria de Arte Urbana, iniciado em 2008, que organiza eventos e viabiliza espaços para artistas em paredes e prédios. Ironicamente, quando Marina nos levou a uma obra do artista brasileiro Nunca, que mostrava o navegador Pedro Álvares Cabral pedindo esmola, esta tinha sido “bombardeada” pelas tintas de outro grafiteiro. “Minha primeira reação foi pensar ‘sério?’, mas depois pensei que tudo o que você faz na rua pode ser desfeito, é efêmero”, disse a guia. 

Passamos ainda por obras do Crono Project, que convida artistas a reavivar prédios abandonados com desenhos gigantes em áreas como o bairro Padre Cruz, em geral percebidos como perigosos – o que faz do trabalho uma missão social, além de artística, segundo a guia Marina. Os trabalhos são impressionantes. O artista português AKACorleone pintou um prédio de seis andares com rostos angulares e tipografia clean. Gonçalo Mar criou uma brilhante e gigantesca figura metade homem, metade tartaruga marinha. Vanessa Teodoro, uma das poucas mulheres na cena, esboçou linhas que seriam preenchidas com cor. E até os brasileiros OsGemeos fizeram um de seus gigantes por lá. 

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Tour autoguiado pelos grafites de Lisboa

Por cerca de R$ 15, compre um mapa e saia para uma 'caça ao tesouro' artística

Diane Daniel, Lisboa/The New York Times

26 Julho 2016 | 00h46

A loja da Underdogs, que fica na área turística do Cais do Sodré, vende trabalhos de seus artistas em edições limitadas, espertos objetos artísticos e camisetas. O local divide espaço com o outlet da Montana, uma loja alemã de tinta em spray. Ali há também um café com um pátio à beira d’água, uma parada perfeita para um descanso. 

O tour guiado oferecido pela Underdogs custa no mínimo R$ 110 por pessoa, dependendo do tamanho do grupo (agende: 011-351-210-991-678). A loja também vende um mapa para um tour autoguiado pela arte urbana, por cerca de R$ 15.

Com esse mapa em mãos, saímos para uma caçada à arte pública. Na parada Alcântara-Mar do metrô encontramos um explosivo desenho geométrico de How e Nosm, pintado com a paleta característica do duo, vermelhos, cor-de-rosas, pretos e brancos, e vimos um dos retratos de Vhils. Tudo perto da Ponte 25 de Abril e da LX Factory, antigo complexo manufatureiro, artisticamente reformado para abrigar cafés, butiques e a indústria criativa. 

Ao lado fica a Village Underground, aglomerado de contêineres convertidos em espaços compartilhados, decorados com pinturas de AKACorleone. 

No dia seguinte, ainda cuidamos de passar por uma obra de Vhils no centenário bairro de Alfama, enquanto arrastávamos nossas malas a caminho do aeroporto. O mural, de frente para o rio, em colaboração com o italiano PixelPancho, mostra uma figura com um barco, um aceno ao passado marítimo de Portugal. À distância, um navio de cruzeiro atracava para o dia – trazendo mais alguns milhares de espectadores para a galeria pública de Lisboa.

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