Gravatas e croatas

Nosso viajante se embrenha na enrolada história dos nós no pescoço

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo, O Estado de S. Paulo

10 Fevereiro 2009 | 02h53

Nosso impávido viajante viu-se obrigado a calçar as botas com grampões que usa para escalar picos nevados por causa da inesperada nevasca que cobriu a Inglaterra e, particularmente, o Condado de Essex, nos últimos dias.

Feliz com o que chamou de "reação dos céus contra o global warming", mr. Miles escreveu-nos a bordo de um single malt, aos pés da lareira e ao lado de Trashie. Aproveitou para enviar suas apologies aos muitos argentinos que se sentiram ofendidos com a brincadeira que fez sobre a Guerra das Falkland, dizendo, however, que aceita em troca qualquer chiste portenho. "If you can do it, of course."

A seguir, ele responde à carta da semana:

Prezado mr. Miles: o senhor poderia me dizer se a gravata ainda é um acessório obrigatório na Europa, para onde estou viajando? Aliás, de onde veio este hábito estranho?

João Marcelo Cançado, por e-mail

"Well, my friend: leve sempre pelo menos uma, just in case. Aquilo que você chama de estranho hábito já não tem o vigor de antigamente, mas, of course, há diversos lugares onde o uso do curioso suplemento é exigido e inúmeros outros onde ele será, at least, bem-vindo.

Como é de conhecimento dos leitores, sou de um tempo em que o uso da gravata era tão disseminado que, in fact, sinto-me quase despido se não a visto. Olhando de outro prisma, however, usar uma tira de tecido - não importa quão valioso e bem estampado seja ele - pendurada ao pescoço é tentar assemelhar-se a um cão com a língua de fora. Don't you agree?

O costume de portar panos sobre os ombros é mais que milenar e derivou da necessidade do homem de enxugar o suor do rosto durante o trabalho. Sir Alex Calmingham, um velho amigo 'gravatófilo' capaz de executar todos os nós existentes com a destreza de um espadachim, relatou-me, certa vez, que os primeiros a tentarem dar status a esse adorno foram os romanos, com seus primitivos focales. A moda não pegou.

E vejam a ironia: foi justamente de uma linhagem de reis cujos pescoços acabaram cortados pela guilhotina que derivou a moda do uso da gravata. O precursor foi Luís XIV, da França. Durante a Guerra dos Trinta Anos, o chamado Rei Sol viu-se diante de um batalhão de mercenários croatas a seu serviço e encantou-se com uma espécie de cachecol de linho e musselina usado pela tropa. Pediu, então, aos reais alfaiates que lhe produzissem lenços à moda croata (croate, em francês), de onde derivou a palavra cravate.

A Croácia (Hrvatia, em croata) é, portanto, a pátria da gravata, embora seus cidadãos gostem mesmo do modelo tipo toalha de cantina nas cores azul, vermelho e branco, as mesmas que estampam sua bandeira.

Luís XIV, therefore, foi apenas uma espécie de divulgador do acessório entre as cortes europeias, que, como sempre, acabaram sendo copiadas pela burguesia e assim alcançaram os dias de hoje.

De minha parte prefiro a bow tie (N.da R.: gravata borboleta), que leva a grande vantagem de jamais mergulhar no prato de sopa. Mas, no dia-a-dia, pratico a gravata tradicional com um sóbrio nó de Windsor.

O curioso, fellow, é que a gravata acabou se tornando uma espécie de símbolo da cultura ocidental. Povos que usam túnicas, sarongues ou galabeias - entre outros tantos trajes para nós exóticos -, jamais se vestem à maneira ocidental envergando jeans e camiseta. A forma que encontram de aproximar-se de nós é usando a gravata. Uma história muito enrolada, isn't it?"

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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