Histórias de um castelo assombrado

Do 'doutor' que teria feito pacto com o diabo ao fantasma de Galgorm

Mario Vargas Llosa, El País

13 Outubro 2009 | 01h41

O Castelo de Galgorm, em Ballymena (Antrim, Irlanda do Norte), foi construído na primeira metade do século 17 pelo dr. Alexander Colville, doutor não em medicina, mas em "divindades", ou seja, teologia, e que, por ter enriquecido da noite para o dia, atraía a desconfiança de seus contemporâneos, que suspeitavam que ele teria feito um pacto com o diabo ou praticado artes mágicas. Um retrato dele decora até hoje a entrada do castelo e o atual dono, Christopher Brooke, diz que ninguém se atreveu a tirá-lo de lá porque, segundo a crença, quem ousar fazê-lo morrerá no ato.

Visto a partir do prado arborizado que o cerca, o castelo - de aspecto cúbico e formado por robustas pedras negras, torres, amplas janelas, chaminés, escudos e uma fachada de catedral - é imponente. Por dentro é uma ruína caindo aos pedaços. Christopher e sua família, refugiados em alguns poucos cômodos do primeiro andar, têm a esperança de que em um desses desmoronamentos cotidianos um espesso muro comece a vomitar os sacos de ouro que, segundo o que se diz em Ballymena, o diabólico reverendo Colville teria escondido antes de morrer.

Assim reuniriam o capital necessário para converter o castelo numa luxuosa residência de 14 apartamentos restaurados em seu velho esplendor. Já o fizeram, com bom gosto e rigor histórico, com os pátios e as dependências exteriores e o resultado não poderia ser melhor.

Como todo castelo irlandês que se preze, o de Galgorm tem seu fantasma. Não é o espectro de Colville, mas o de uma moça da época dele que a BBC, quando há alguns anos fez um documentário sobre o castelo, quis filmar. Para isso, contratou uma célebre médium grega que, para azar da televisão britânica, só fez contato com a fantasma quando as câmeras já estavam desligadas e os cinegrafistas dormiam. Mas segundo Christopher, a moça espectral não é nada antissocial e aparece com frequência para médiuns, espiritistas, demonólogos e especialistas em fantasmas que peregrinam até aqui para convocá-la e praticar com ela coisas do além. Sem avançar mais, certa manhã ela surgiu diante da mulher de Christopher e as duas tiveram uma boa conversa.

HERANÇA

O castelo está nas mãos da família de Christopher, os Young, desde o século 19. E um dos antepassados ilustres do atual dono é Rose Maud Young, que, apesar de pertencer a uma família solidamente unionista - protestante e favorável à Grã-Bretanha -, fez parte de um punhado de damas de Antrim que participaram de maneira ativa, no fim do século 19, do renascimento da língua e da cultura gaélicas, empenho que as foi aproximando do adversário tradicional, o nacionalismo irlandês.

Rose, além de escrever um minucioso diário, publicou três volumes de poemas, lendas e canções em gaélico que tinham sido conservados pela tradição oral e ela foi compilando nas aldeias de pescadores e entre camponeses de Antrim. Além de bela, culta e liberal, Rose - cujas tertúlias reuniam presbiterianos, anglicanos e católicos - foi amiga e protetora de Roger Casement (1864-1916), o fascinante personagem cujas pegadas trato de seguir pela Irlanda.

Quando adolescente, no fim do século 19, Casement estudou por três anos no colégio de Ballymena e passou muitos fins de semana em Galgorm, de acordo com o que ficou registrado nos diários escrupulosos de Rose. Aqui ele talvez tenha lido essas memórias dos grandes exploradores ingleses, como Livingstone e Stanley, que lhe abriram o apetite pelas viagens à África.

Apesar de ter nascido em Sandycove, Dublin (perto da Torre Martello, onde começa o Ulisses de Joyce), sua família era daqui e em Antrim ele passou parte de sua infância e adolescência. Na idade adulta, voltava a esta terra sempre que podia para curar sua nostalgia e sossegar seu espírito dos tumultos que o assaltaram ao longo de uma vida intensa, aventureira e arriscada como a de um paladino de novela épica.

Grande parte da sua trajetória esteve consagrada a denunciar a exploração e o maltrato das comunidades indígenas da África e da Amazônia, e, também, principalmente em seus últimos anos, a lutar pela independência da Irlanda. Quando, na véspera de sua execução, o carrasco da prisão londrina de Pentonville, sr. Albert Ellis (nos momentos livres era também barbeiro), procedia à macabra cerimônia de pesá-lo e medi-lo para que a corda com a qual ele seria enforcado fosse da consistência e da altura adequadas, Casement pediu que seus restos fossem sepultados não longe daqui, na Baía de Murlough, que em suas cartas era referida como "a baía do paraíso".

As autoridades britânicas não lhe deram a alegria: o enterraram na prisão em que o enforcaram (por traição, pois conspirara com os alemães na 1ª Guerra para contrabandear armas destinadas aos irlandeses que se revoltaram na Semana Santa de 1916), em um túmulo anônimo e ao lado do célebre assassino de mulheres dr. Crippin, executado anos antes. Só em 1965 seus restos foram entregues à Irlanda e agora repousam no cemitério dublinense de Glasnevin, sob uma sóbria lápide em gaélico (que ele nunca aprendeu, apesar de seus esforços) que diz: "Morreu pela Irlanda."

LUGAR MAIS BELO

Roger Casement tinha razão de querer ser enterrado na Baía de Murlough, pois se trata do lugar mais belo da Irlanda, da Europa e talvez o mundo. Nela culmina um dos mais maravilhosos vales de Antrim, que, entre montanhas coloridas por todos os matizes de verde, árvores frondosas, córregos, cachoeiras, escarpados íngremes, descem ao encontro do mar agitado que arremete contra rochedos esculturais. Há revoadas de pássaros passeando pelo céu e, quando os dias são claros e sem nuvens como aqueles que os deuses celtas me reservaram, pode-se ver, a uma grande proximidade, o volume da Ilha de Rathlin, em cujas aldeias centenárias Rose Maud Young recolheu muitas das poesias e histórias do milenar Eire, e as costas da Escócia. A paisagem parece desabitada de seres humanos, natureza em estado puro, virginal e edênica.

É claro que se trata de pura aparência. Essa terra de castelos, vales, fantasmas, poetas e famosíssimos contadores de histórias itinerantes (os seanchaí) é também uma das mais violentas da Europa, onde guerras étnicas e religiosas exasperaram o povo e semearam sangue, ódio e ressentimento. Não apenas os séculos da ocupação britânica; também os da partilha - que transformou em parte do Reino Unido os seis condados da Irlanda do Norte - estão marcados por matanças e atentados injustos. Algum rastro de tudo isso está presente nas alturas da Baía de Murlough, onde, há alguns anos, o Sinn Fein ergueu um monumento em homenagem a Roger Casement. Pouco depois acabou sendo dinamitado por um destacamento terrorista do Ulster e não foi reconstruído desde então. Os pedaços espalhados que dele sobrevivem no solitário outeiro são um inquietante alerta para a existência da outra face da moeda nesta paisagem de sonho.

FUTURO

O que acontecerá agora na Irlanda do Norte? Depois dos acordos firmados no governo Tony Blair entre unionistas e republicanos, haverá paz nesses seis condados? Poderão os fantasmas e os vivos de Antrim dormir tranquilos? Quem percorre a pujante Belfast e suas noites agitadas, a fértil planície que a cerca e as cidades do interior, que parecem ter encontrado o segredo milagroso do fazer coexistir a tradição e a modernidade em absoluta harmonia, não transmite nem de longe a impressão de que poderia haver um retrocesso, e nem de que os grupos de extremistas intransigentes que ainda realizam atentados a bomba e assassinatos conseguirão realizar seu objetivo de destruir a paz e voltar ao enfrentamento de antes.

Quase todos com quem conversei são otimistas e pensam que o futuro reforçará o processo iniciado com o desarmamento dos dois bandos e a política substituirá a guerra fratricida. Um destes otimistas é Christopher Brooke, o amável castelão de Galgorm. Está convencido de que a coexistência posta em marcha graças aos acordos entre os ancestrais adversários, a imersão na Europa, a mecânica da globalização e as exigências econômicas fortalecem a integração e a paz. Que Cuchullain e os demais deuses do panteão do Eire o ouçam e tornem realidade este justo desígnio.

Nos despedimos ao pé do retrato do tenebroso dr. Colville. Tem um olhar místico e ligeiramente zombeteiro. Seus pequenos olhos franzidos e claros parecem condoídos de nos verem partir. Porque neste país até os teólogos transgressores e os fantasmas praticam com brio o vício da hospitalidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.