Honduras pode esperar

Conforme anunciado na semana passada, nosso indomável viajante, na companhia de sua mascote Trashie, rumou para Honduras onde, sem mais delongas, procurou hospedagem na Embaixada do Brasil.

miles@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2009 | 03h15

Os trajes elegantemente britânicos e a notória polidez de mr. Miles foram determinantes para que as portas se abrissem. No interior da representação, o correspondente deu com uma "disgusting" bagunça. Mas, com delicadeza, obteve a ajuda de um serviçal que tornou habitável um pequeno cômodo onde instalou seu sleeping bag.

Com a ausência do embaixador brasileiro em Tegucigalpa, que já dormia tranquilo no Brasil quando o presidente deposto Manuel Zelaya bateu à porta da representação, Mr. Miles fez questão de cumprimentar o único diplomata brasileiro que ainda resiste por lá, Francisco Catunda Resende (embora não tenha obtido dele muita atenção).

Devidamente instalado, Mr. Miles garantiu não ter sentido os efeitos de nenhum tipo de radiação ou da interferência química relatada recentemente por Zelaya.

"O único incômodo remarkable" - conta-nos Mr. Miles - "foi o odor amargo da promiscuidade que, definitivamente, não combina com o aroma da tintura que o senhor Zelaya usa em seus bigodes." Aliás, ao cumprimentar o ex-presidente, foi por ele inquirido com certa desconfiança: "Quem é o senhor?", estranhou Zelaya. "Apenas um hóspede. Just like you", respondeu-lhe.

Nosso viajante ainda propôs ao bigodado político uma partida de xadrez para fazer o tempo passar. Ao que parece, infelizmente, Zelaya só joga damas, o que levou mr. Miles a passar.

Na manhã seguinte, não sem antes agradecer a hospitalidade, o viajante britânico embarcou em um "amazing" ônibus interurbano e, com duas simpáticas galinhas empoleiradas em seus joelhos (às quais Trashie ignorou fleumaticamente), viajou até a cidade de Tela, na orla do Mar do Caribe. Conseguiu um quarto no Hotel Rio Mar e, sem muito esforço, localizou seu velho amigo Don Ardon, que já o conduziu, em outras ocasiões, ao Parque Nacional Marino Punta Sal - uma belíssima confluência de praias desertas e florestas repletas de aves exóticas.

O parque agora se chama Jeannete Kawas. O próprio Don Ardon, que mantém um serviço de barcos na região, fez questão de levar nosso viajante ao pequeno santuário, bem cedo, na manhã seguinte. Mr. Miles contemplou a beleza da Praia de Cocalito, mas dedicou o resto de seu dia a caminhar pela floresta com seu binóculo em punho, avistando aves e fazendo anotações em seu pequeno caderno.

Como retornou à praia com um ligeiro atraso apesar das recomendações, nosso correspondente enfrentou altas ondas em sua viagem de volta à Tela. Para seu alívio, Don Ardon é um marinheiro experiente e não mostrou nenhum sinal de preocupação. Trashie, por sua vez, desengoliu tudo o que havia comido durante o dia.

Quanto aos leitores que têm perguntado sobre a conveniência de visitar Honduras - que, não fosse a crise política, pouco seria lembrada -, mr. Miles julga prudente que qualquer viagem exploratória seja postergada até o encerramento das tensões atuais.

"O momento não é adequado, my friends. Nestes períodos de ânimos exacerbados, os seres de alma autoritária saem às ruas como baratas em dias de calor. E podem ser quite unpleasant. Besides, existe sempre a possibilidade do restabelecimento do toque de recolher, o que torna os dias desagradavelmente curtos. Confesso que tive alguma sorte, além da vantagem de já conhecer o país anteriormente. Há outros lugares muito semelhantes aqui nas imediações. Opte por um deles. Honduras, believe me, sempre pode esperar."

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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