Arte|Estadão
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Horário de verão

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2015 | 03h00

Nosso pontualíssimo viajante, tão habituado a mudar os ponteiros de seu relógio quanto a fazer sua higiene matinal, estranhou a quantidade de e-mails que recebeu comentando o início do horário de verão em grande parte do Brasil. Muitos deles, como sempre ocorre, comemoravam o advento de dias mais longos; outros lastimavam alterações em seus relógios biológicos, que lhes trouxeram insônia, mal-estar e dores de cabeça. Mr. Miles, é claro, aproveitou para discorrer sobre o tema. A resposta da semana:

Mr. Miles: gosto muito da mudança de horário que ocorre nessa época do ano. Todos os países mudam de horário na mesma época? Soraya Tencini Alves, por e-mail

Well, my dear, vejo que você não está muito afeita a este tema (o que não é nenhum problema) e terei o maior prazer em tecer algumas digressões sobre ele. O horário de verão, que aqui chamamos de daylight saving time, é uma liberalidade de cada nação e parte delas o adotam com o objetivo de reduzir o consumo de energia. Isso ocorre porque, com horários diversos, evita-se os chamados “picos no consumo”, momentos em que o sistema fornecedor de energia fica sobrecarregado e a luz sai mais cara para os grandes consumidores.

Há países, sobretudo os mais próximos à linha do Equador, onde uma alteração desse tipo não produz a menor diferença. Eu diria, besides, que o horário de verão é uma mera manipulação do fuso horário. Ele também é desrespeitado ao bel- prazer por alguns governos, apesar dos acordos de Tempo Universal Coordenado – o único jeito que conhecemos de que os relógios de todos tenham a mesma hora em qualquer parte do mundo, mais as variações resultantes da geografia. Fácil? Nem tanto, mas basta a óbvia evidência de que a hora de referência do planeta é a de Greenwich – um bairro muito pontual aqui de Londres – para que a aceitemos sem mais delonga.

Theoretically, my dear, os horários foram estabelecidos para ajustar-se aos períodos de incidência da luz do sol ou do brilho das estrelas. Therefore, seja onde for, entre seis e sete da tarde, meu aparelho ingestor de scotch apita dando início aos trabalhos.

Na China, however, o governo central decidiu desprezar as evidências luminosas e, apesar da extensão longitudinal do país, cravou um horário único nacional, conveniente aos pequineses. Eis que os habitantes do oeste do país – my friends in Ruoqiang ou Kashi – acompanham o nascer do sol por volta das nove ou dez da manhã. Isn’t it crazy?

Você certamente não saberá também, darling, mas a diferença de fuso entre os países nem sempre é baseada em horas cheias. Vou lhe dar alguns exemplos: a província de Newfoundland, no Canadá, fica, usually, apenas meia hora à frente do Brasil. Com o horário de verão, eles agora estão meia hora atrás de vocês. Já comparando horários normais (que um amigo meu insiste em chamar de ‘hora de Deus!’), a Austrália está 12h45 adiantada em relação ao Brasil. Ou seja: meio dia, mais meio tempo de uma partida de futebol. Easy to remember, isn’t it?

O caso mais curioso de que me lembro, ainda que de uma precisão notável, era o do fuso horário adotado em Bombaim até 1951. Até aquele ano, quem viesse de Londres era obrigado a adiantar o relógio em exatas quatro horas e cinquenta e um minutos para adequar-se à realidade local, que divergia em 39 minutos do chamado Indian Standard Time. Aliás, vítima desse minuto extra, recordo-me que, certa vez, atrasei exatos sessenta segundos para um chá com Rudyard Kipling. Shame on me!

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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