Hotéis que sabem hospedar

A passagem pelo sul do Brasil, nosso correspondente decidiu ir para o Uruguai de modo a encontrar o ex-presidente Mujica Cordano, que, mais do que um apaixonado pelas ideias, é um amante da vida

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2017 | 03h40

"Sujeito simples, de rara ternura”, nas palavras do viajante britânico, Mujica é tão tranquilo que parece nunca ter feito uso da teína que deixa os bebedores de chimarrão sempre acesos.

“Foi uma boa surpresa, my friends. O Uruguai continua sendo uma ilha de paz na América do Sul, mas são visíveis os sinais de que vive um inicio de recuperação econômica. E os uruguaios, as you know, são uma espécie de argentinos-sem-topete, que não disputam Carlos Gardel, porque sabem que foi no lado norte do Rio da Prata que ele nasceu.

A pergunta da semana:

Prezado Mr. Miles: quais são as qualidades que o senhor aprecia e quais as que detesta em um hotel?

Angelina Morganti, por e-mail

Well, my dear, that’s a nice question. É preciso, however, colocá-la na perspectiva correta. Em alguns lugares, o simples fato de haver um hotel já é qualidade suficiente. O mundo está repleto de lugares remotos nos quais, não importa quanto dinheiro você possua, a única alternativa é uma pequena hospedaria de cinco dólares – e, nesses casos, quando se chega cansado, você fica até feliz em dividir seu whisky com as baratas. 

A pior em que já estive, if I remember, ficava em algum lugar remoto de Bornéu. Os quartos tinham catres e eram divididos por meias paredes, de modo que era absolutamente inevitável ouvir os ruídos produzidos pelos demais hóspedes. Tentei me distrair com o bulício de um casal apaixonado mas, no cubículo anexo, um motorista de caminhão roncava como um lorry engine. It was really disgusting

Mas, de volta à sua pergunta, eu diria que o que mais aprecio em um hotel – além, of course, da variedade de seu bar –, é a hospitalidade e a cortesia. Você dirá que esses são valores óbvios, mas eu lhe asseguro que, em sua forma genuína, ambas são raras de se encontrar. Um hotel hospitaleiro é aquele que você se sente bem recebido assim que chega. Nada de mesuras ou sorrisos premeditados. Os rostos dos serviçais iluminam-se com verdadeira felicidade pela sua presença. O hóspede sente-se como um velho amigo voltando ao lar. No meu caso, devo admitir que isso é mais frequente porque, in fact, estou quase sempre voltando a hotéis que me produziram esta sensação da primeira vez. 

A cortesia é uma extensão natural da hospitalidade. Eu diria, my dear, que é como um dom, uma habilidade inata que não se aprende em escolas e que, usually, origina-se de antigos valores de um povo.

É mais que justo, for instance, que um hotel seja adequadamente remunerado pela hospitalidade que oferece e pelos equipamentos de que dispõe. However – e agora chego aos valores que me desagradam –, há, nos hotéis modernos, atitudes de franca hostilidade em relação aos seus hóspedes.

Senão, vejamos: chaves que precisam ser encaixadas em geringonças na parede para fazer funcionar a energia indicam que, na opinião do hotel, o hóspede é um perdulário por definição. Eis uma atitude de hostilidade. Ora, caríssimos: pois que usem suas teses de eficiência para fabricar parafusos! Don’t you agree? E o que dizer dos estabelecimentos que taxam, com valores espantosos, ligações telefônicas ou o uso da internet? Não seria muito mais cortês e agradável incluir esses valores irrisórios no preço da diária? E esses corredores sombrios de hoje em dia que vão se iluminando apenas quando um sensor capta sua presença? Seria esta bobagem realmente necessária para qualquer hóspede que não sonhe ser um(a) top model? 

Sorry, my dear, mas a tal moderna e frívola hospitalidade não me cativa. Ainda prefiro o velho charme de hotéis como o hoje sofrido Hotel Baron, em Aleppo, na Síria, onde tomei fartas doses de whisky com Thomas Edward (N. da R.: Thomas Edward Lawrence, mais conhecido como Lawrence da Arábia) e troquei ideias com Agatha (N. da R.: Agatha Christie, escritora), ao tempo em que ela escrevia o primeiro esboço de seu Assassinato no Orient Express, no quarto 203. E que ninguém duvide de minha relação cavalheiresca com Agatha – by the way, uma mulher pouquíssimo atraente.

Hoje, unfortunately, os quartos do Baron estão arruinados. Mas, quando ia a Aleppo para encadernar meus passaportes, ainda ficava por lá. Parece-me que sobrou muito pouco do antigo hotel. Foi-se o prédio, restam as lembranças, mas, regrettably, elas também acabarão desaparecendo na poeira dos tempos.”

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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