Marco Pomárico/AE
Marco Pomárico/AE

Igrejas e bacalhau na Lisboa indiana

Nas ruas de Goa e Panaji ainda se ouve o idioma dos colonizadores

Rachel Verano, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2009 | 02h52

Casarões e fachadas em tons pastéis que lembram os de Lisboa. Um rio que poderia ser o Tejo. Igrejas e catedrais que não fariam feio no Alentejo. E um sotaque familiar que ainda se ouve pelas esquinas. Goa é a Índia que fala português, come bacalhau e bife da vazia, vai à missa aos domingos e reza o terço (embora isso possa acontecer com uma imagem de Shiva ou Ganesh ao lado).

Foi o último pedaço da Índia a se livrar do colonialismo - os portugueses, que desembarcaram por essas bandas em 1510, só foram embora em 1961. E deixaram as suas marcas por todo canto, em meio a quilômetros de praias que os hippies não demoraram a descobrir.

No século 16, a cidade de Old Goa, às margens do Rio Mandovi, se rivalizava com Lisboa e chegou a ter mais habitantes que a capital portuguesa. Nessa época, foram erguidos imponentes palacetes, igrejas belíssimas (como a de São Caetano, inspirada na Basílica de São Pedro, no Vaticano) e catedrais (caso da Sé, a maior da região, que demorou quase 60 anos para ser construída).

 

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Esse período de prosperidade, no entanto, foi interrompido pela Inquisição e pela Peste Negra, que dizimou a população. Os sobreviventes não tardaram a abandonar a cidade e, em 1843, a capital foi transferida para Panaji, a 12 quilômetros de distância. Old Goa adormeceu.

Hoje, os antigos barcos mercantes do Mandovi perdem em número para os cassinos flutuantes e Old Goa, revitalizada, transformou-se em atração turística e importante centro de peregrinação católica - a Basílica do Bom Jesus guarda os restos mortais de São Francisco Xavier, que chegou ao país com as primeiras missões jesuíticas, em 1542, e recebe milhares de fiéis do mundo todo em dezembro, mês de comemoração do aniversário da morte do santo.

Panaji é uma graciosa Lisboa em miniatura, coroada pela Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, com quase 500 anos, e enfeitada por um lindo casario colonial. O konkani, idioma regional, já é mais falado que o português, mas os mais velhos não escondem a emoção de ouvir a nossa língua. E se despedirão como antigos amigos da família, com um "até loguinho, passe bem, até mais ver..."

NA PRAIA

Goa ganhou projeção nos anos 1970, quando suas praias viraram paraíso de hippies. Duas décadas depois, a região ficou famosa pelas raves que duravam dias. Hoje, os grandes complexos hoteleiros invadiram a cena, mas a festa ainda resiste aqui e ali. Mas antes que você se anime muito, é preciso dizer que as praias de Goa não são nenhuma maravilha - o mar é apenas meio azul e as vacas circulam livremente. Mas a experiência, além de refrescar o calor indiano, vale a pena. Em grande parte por causa da 'fauna' local: o que se vê nas areias é uma mistura de remanescentes hippies, mulheres de cabelo cor de rosa e russas sem noção (e sem biquíni).

 

 

TERRA À VISTA

Maré alta. A força de dois homens, somada a algumas pedras, abaixa a rede. Menos de cinco minutos e mais três pescadores fazem peso para subi-la. Não vem peixe, mas não importa. Com o céu cor de rosa ao fundo, o malabarismo continua embalando o fim de tarde na colonial Fort Cochin. À beira do Mar Arábico, a cidade guarda marcas do elo com o Ocidente. Lá, Vasco da Gama desembarcou pela primeira vez na Índia, em 1498. A igreja mais antiga, uma sinagoga e um cemitério holandês resistem firmes e se misturam com a cor e a alegria dos indianos.

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