Marina Guedes/ Estadão
Marina Guedes/ Estadão

Palmerston, um atol familiar no Pacífico

Todos os 47 moradores do atol, pertencente às Ilhas Cook, descendem de um ancestral em comum. Quem vê o forasteiro primeiro vira seu anfitrião

Marina Guedes, Especial para o Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2018 | 04h50

Das Ilhas Cook

A beleza do mar transparente impressiona quem desembarca no atol de Palmerston, nas remotas Ilhas Cook. Altos coqueiros, areia branca e fina, além de diversas espécies de peixes tornam o local semelhante aos demais destinos paradisíacos do Oceano Pacífico.

Sua história, porém, faz com que seja único e intrigante: as três famílias residentes descendem da mesma pessoa, o inglês William Marsters. Acompanhado de três mulheres, ele foi parar lá no final do século 19 com a tarefa de ocupar a remota ilha polinésia. “William nasceu Masters, mas mudou seu sobrenome para Marsters quando estava na Califórnia, na época da corrida pelo ouro. Não queria ser reconhecido”, conta Bill Marsters. Aos 67 anos, ele pertence à quinta geração e é responsável por uma das famílias na ilha.

Dos Estados Unidos, William foi a Manuae (também nas Ilhas Cook), onde trabalhou como guarda em um presídio. Lá conheceu o então responsável por Palmerston, John Brander que, em 1863, o convidou para viver e cuidar do local. “Ele teve 23 filhos com as três companheiras que trouxe. A esposa se chamava Akakaingaro. As outras, Matavia e Tepou, eram primas dela.”

Sentado na varanda de sua casa, que apelidou de “Yacht Club”, onde recebe os turistas, Bill aborda a história de sua família com a fluência de quem parece ter decorado o assunto. Com sotaque que mistura o maori e o inglês, oferece a quem chega sorvete, bananas e torradas. Apenas as frutas são locais – os demais alimentos vêm de Rarotonga (a principal ilha das Cook), em barcos que abastecem a população a cada três meses. Algumas vezes, com atraso de até um mês.

Bandeiras de identificação dos barcos, além de outros presentes dados pelos velejadores decoram sua casa, na porção central da ilha. As outras duas famílias, encabeçadas por Bob e Edward, ficam a oeste e leste de Bill, respectivamente. Hoje, 47 pessoas vivem em Palmerston. Segundo eles, há mais de 1 mil “Marsters” distribuídos pelas Ilhas Cook, Nova Zelândia e Austrália. “É comum saírem e regressarem. Foi o que aconteceu comigo. Voltei porque acho a vida aqui muito melhor”, diz Bill.

Complicações genéticas. Bill confirma que houve complicações genéticas em razão das uniões conjugais entre parentes. “Quando casei com minha primeira esposa, não sabia que éramos primos, porque ela foi criada longe de Palmerston. Já casados, descobrimos que nossos pais eram irmãos, mas já era tarde. Um de nossos filhos teve sérias complicações”, revelou, sem detalhar o problema. “Hoje, ele não anda e também não é capaz de falar”. 

Ainda segundo Bill, no início da ocupação de Palmerston, era comum a união entre pessoas da mesma família. “Principalmente porque era raro chegarem barcos aqui. Às vezes, vinham apenas dois por ano. Além disso, as pessoas não tinham conhecimento dos problemas genéticos que poderiam ocorrer aos filhos de relacionamentos entre parentes.” 

Hospitalidade. Outra característica do atol é a hospitalidade. A extensa barreira de corais impede que embarcações de médio ou grande porte tenham acesso à parte interna da rasa lagoa. Como também não há porto, a única opção para quem chega é fazer uso de boias, presas aos corais por correntes a uma profundidade aproximada de 15 metros. 

“A primeira família que avista o barco fica responsável pelo visitante. Cobramos uma taxa de US$ 10 por dia. Em troca, oferecemos alimentação e transporte (via lancha de alumínio) até a ilha”, detalhou Edward, o anfitrião dos quatro dias em que estive na ilha. A cada almoço, uma farta mesa: peixe fresco, arroz com leite de coco – recém extraído por Edward –, além de frutas e outras carnes. 

Domingo é dia de missa (a maioria dos habitantes é protestante), que ocorre em dois horários, às 10h e às 16h. Mulheres usam vestidos com comprimento abaixo dos joelhos e chapéus floridos. Os homens, calça e camisa. Todos tiram os sapatos na entrada da igreja. 

Quando há visitante, é comum o pastor incluir agradecimentos aos forasteiros. O culto é particular, com trechos cantados em maori. No resto do dia, descanso. Mas a religião está presente no dia a dia, como se nota no discurso dos moradores. “Deus é muito generoso conosco. Nunca nos faltou água, temos chuva o suficiente o ano todo, e comida”, observou Edward, ao falar sobre os recursos naturais do atol. 

Em menos de uma hora de caminhada é possível percorrer toda a ilha. Meu primeiro passeio foi guiado por David, primogênito de Edward e Shirley, e Matt, recém chegado da Austrália, também parente. No roteiro, visita à escola, área de concentração dos painéis solares, antena para uso de internet e telefone celular, instalados há seis anos. A última parada foi no cemitério principal, ao lado da Igreja, onde está o túmulo de William Marsters. 

Quando o inglês James Cook descobriu o atol, em 1774, a ilha não era habitada. Em 1998, velejadores do barco Enduro fizeram uma detalhada pesquisa após visitarem Palmerston, em 1998, sobre a origem dos moradores. A principal fonte usada foi o British Public Record Office (PRO), entidade responsável pelo armazenamento dos arquivos nacionais do Reino Unido entre os anos de 1838 a 2003. 

Em agradecimento à hospitalidade de Bill Marsters, os proprietários do Enduro retornaram a Palmerston com os arquivos impressos. É este material que Bill mostra aos turistas.

Hoje, as Ilhas Cook são um país autônomo, em livre associação com a Nova Zelândia. Com uma área de 2 milhões de quilômetros quadrados e um total de 15 ilhas, tem o maori e o inglês como idiomas oficiais. 

Navegar é preciso. Diferentemente de ilhas conhecidas, como Taiti ou Bora Bora, o acesso a Palmerston não é possível por meio aéreo. Os principais visitantes são velejadores, normalmente em deslocamento pelo Pacífico. A partir de Mopélia, por exemplo, no extremo Oeste da Polinésia Francesa, são 540 milhas náuticas (pouco mais de 1 mil quilômetro). Em média, quatro dias de navegação, no caso de um barco de médio porte, como o que eu estava. 

Foi da Polinésia que parti, a bordo do veleiro Meccetroy, capitaneado por Diego Volpi, italiano com mais de 35 anos de experiência em travessias. O barco, um monocasco de 12 metros, ou 41 pés. A alta temporada no atol ocorre entre agosto a outubro. Tive a sorte de ir no final, coincidindo com a época de migração das jubarte. Quase todos os dias, fui surpreendida por uma. Algumas vezes tão próxima que cheguei a pensar se o mamífero iria, acidentalmente, bater no veleiro. As tartarugas-marinhas também eram frequentes. 

A única restrição que impede a permanência no atol ocorre quando o vento sopra a partir do oeste. Nesse caso, há risco de que o barco seja arrastado para cima dos recifes de coral que circundam a ilha. Em 2011, o velejador do barco de bandeira norte-americana Riri não seguiu as instruções dos moradores e, por pouco, não teve um trágico desfecho. “Se não fosse nossa ajuda, indo resgatá-lo de madrugada, certamente teria morrido”, lembrou Edward.

Hoje, o mastro da embarcação é usado como suporte para a tenda que cobre a mesa principal de sua casa. Os restos do casco permanecem na praia, e servem de lembrete a quem chega: visitar Palmerston é uma aventura.

Saiba mais 

Como chegar: há voos a partir da Nova Zelândia, Austrália, Polinésia Francesa, Estados Unidos e Canadá até Rarotonga, principal localidade das Ilhas Cook. Até Palmerston, entretanto, somente pelo mar. É possível embarcar em um veleiro particular ou viajar em barco cargueiro da Taio Shipping, com limitado número de cabines para passageiros, a partir de Rarotonga. Há apenas três viagens por ano, e o deslocamento demora três dias, ao longo de 520 quilômetros. As cabines custam, em média, US$ 450 cada trecho. 

Sites: cookislands.travel; ports.co.ck

 

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