João Ramos/Bahiatursa
João Ramos/Bahiatursa

Ilhéus de Jorge Amado

Cores, sabores, musas. Jorge Amado recheou a literatura nacional de belezas, exultou as qualidades e deu poesia às injustiças da primeira terra onde Cabral pisou, num descobrimento não só da Bahia - e de sua sociedade tão díspar e miscigenada -, mas da narrativa de quase um século de história política do Brasil.Este ano, mais precisamente no dia 10 de agosto, o escritor completaria 100 anos. E não vão faltar comemorações.

Alline Dauroiz, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2012 | 03h10

 

Das cerca de 40 obras de Jorge Amado, pelo menos 30 se passam em terras baianas. E ao andar pela capital Salvador, onde o autor passou a maior parte da vida, ou pela chamada Costa do Cacau (Ilhéus, Canavieiras, Itacaré, Una, Santa Luzia, Uruçuca e Itabuna, essa última, cidade natal do escritor), fica fácil se transportar para suas histórias, não só pelos cenários reais, mas pelo carinho (e marketing) dos locais para com Jorge. Não faltam botecos e restaurantes com menção a seus personagens - peixes à Gabriela, quibes do Nacib ou moquecas de siri mole, prato que deixava os lábios de Vadinho amarelos de dendê, em Dona Flor e Seus Dois Maridos.

 

Em Ilhéus, onde o escritor morou na infância e adolescência, cenário da obra mais famosa do chamado ciclo do cacau de Jorge Amado, tudo faz lembrar a morena Gabriela e os personagens do romance. Publicado em 1958, Gabriela, Cravo e Canela mistura fatos e personagens reais com a imaginação do autor no retrato sem pudores do conservadorismo dos coronéis, escancarando a hipocrisia da alta sociedade da época. Na ocasião do lançamento, o livro foi uma bomba na cidade, ainda comandada pelos coronéis do cacau, e o escritor foi declarado persona non grata. Mas é engraçado e encantador ver como, até hoje, a polêmica de seus livros e personagens estão vivos nas ruas da cidade.

 

Quem anda pelo chamado Quarteirão Comercial, no centro, e ousa lembrar da obra em voz alta, pode ser abordado por moradores mais velhos. "Jorge Amado tinha é muita imaginação. Dona Lourdes era uma mulher muito respeitada e distinta. Nada tinha de Gabriela", disse uma senhora à reportagem do Estado. A ilheense indignada se referia aos antigos donos do Bar Vesúvio, o libanês Emilio Maron e sua mulher, a exímia cozinheira Lourdes Maron, que, dizem, serviram de inspiração para Nacib e Gabriela - fato que aborrece os familiares do casal até hoje. Outra versão dá conta de que Gabriela seria uma mistura entre dona Lourdes e Felipa, mulata sensual que teria virado a cabeça do português Figueiredo, outro dono do Vesúvio, bar que existe até hoje ao lado da Catedral de São Sebastião.

 

Também no centro de Ilhéus, a casa de Antônio Pessoa, filho de coronel e antigo dono do cartório, também virou ponto turístico. Tudo porque, em 1975, Pessoa garantia que o personagem Tonico Bastos, vivido na época por Fúlvio Stefanini (e, hoje, por Marcelo Serrado), era inspirado nele - e saía pelas ruas para assuntar a opinião dos ilheenses sobre a novela da Globo.

 

Maria Antônia Machado, dona do cabaré Bataclan, apelidada por Jorge Amado de Maria Machadão, é outra lenda na cidade. No prédio que até 1946 servia de sede da boemia local, hoje funciona um restaurante com um pequeno museu dedicado à personagem real. Conta-se que ela realizou o sonho de toda "mulher dama": casou-se com um alfaiate e foi morar no Rio. Na parede, dois supostos retratos dão pista que Machadão foi uma mulher atraente. Um deles, cedido por um nonagenário que garante ter conhecido a Maria Tomba-Homem.

As histórias de Jorge Amado também sobrevivem nas fazendas de cacau, muitas abertas à visitação. É lá que antigos moradores relembram causos da Ilhéus rica, quando a cidade era a maior produtora de cacau do mundo. Lutas sangrentas para proteger as terras e histórias das famílias se misturam a objetos de época, transportando o visitante para o cenário de livros como Cacau (1933), Terras do Sem Fim (1943), São Jorge dos Ilhéus (1944) e Tocaia Grande (1984). Ali também os descendentes dos coronéis negam que eles fossem tão cruéis como sugeria as obras de Amado, aumentando a polêmica em torno do escritor.

 

Festa. Renegado e odiado pelo poder vigente durante décadas, o autor só voltaria ovacionado a Ilhéus em 1997, quando participou da inauguração da Casa de Cultura Jorge Amado, no sobrado onde viveu, no número 21 da rua que agora leva seu nome. Mas, neste ano de seu centenário, Ilhéus prepara uma festa digna de um pedido de desculpas.

 

Batizado de Amar Amado, o festival ocorre de 4 a 12 de agosto e promete shows de Caetano Veloso, Margareth Menezes, Família Caymmi e Orquestra Sinfônica da Bahia. Haverá ainda peças de teatro, dança, exibição de filmes baseados em suas obras e discussões sobre os romances em uma feira do livro. Musa de Amado na TV e no cinema, Sônia Braga foi convidada a ler trechos dos livros do escritor, assim como José Wilker, que interpreta o coronel Jesuíno Mendonça na nova Gabriela, da Globo, e já participou de outras adaptações. Além disso, os restaurantes da cidade incrementarão os pratos prediletos do autor.

 

E como na Bahia festa é quase um clichê, depois das fartas comemorações ao aniversário de Jorge Amado, que devem durar até o fim do ano, outro evento de igual importância deve se seguir em 2014, a celebrar o centenário de outro ícone: Dorival Caymmi, que não por acaso, era grande amigo e compadre de Jorge Amado.

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