Edison Veiga/Estadão
Edison Veiga/Estadão

Isla Negra: a mais lúdica

"Que me esperava em Isla Negra? A verdade verde ou o recato?”"

Edison Veiga, ISLA NEGRA / O Estado de S.Paulo

13 Junho 2017 | 04h45

“Cheguei de detrás do mar / e onde vou quando me atalha?” Pouco mais de 1 hora de ônibus separa Valparaíso de Isla Negra, região costeira de El Quisco. Apesar do nome, não é uma ilha. O batismo foi obra do próprio Neruda, de tanto observar as rochas escuras que podem ser avistadas no mar, a partir de sua casa. Do ponto de ônibus, na ruazinha principal da cidade, é preciso uma caminhada de cerca de 500 metros até a residência do poeta – parte, em uma ladeira de terra.

A mais lúdica das três casas de Neruda foi também a escolhida por ele para ser a última morada – no jardim estão sepultados tanto o poeta quanto sua terceira e última mulher, Matilde Urrutia. “A quem posso perguntar / o que vim fazer neste mundo? / Por que me movo sem querer, / por que não fico parado? / Por que vou sem rodas rodando, / sem penas nem asas voando, / e por que quis transmigrar / se meus ossos vivem no Chile?”

Espalham-se pelos cômodos as coleções: de conchas, de garrafas coloridas, de chapéus, de mascarones – no total, são 3,5 mil objetos expostos. Conta-se que Neruda gostava de ser acordado com o nascer do sol. Assim, a cama fica posicionada de modo que os primeiros raios do dia pudessem fazer cócegas em seus pés e ir subindo pelo seu corpo; quando o sol chegava à sua cabeça, era hora de se levantar. “Quem acorda o sol quando dorme / em sua cama abrasadora?” 

São muitas as referências a trens: da locomotiva exposta no jardim à própria maneira como os cômodos são encadeados, tais e quais vagões; o pai de Neruda era ferroviário. “Há alguma coisa mais triste no mundo / que um trem imóvel na chuva?”, “Morreram talvez de vergonha / este trens que se extraviaram?”, “Lançam fumo, fogo e vapor / as ou das locomotivas?”, “E o pai que vive nos sonhos / volta a morrer quando despertas?” Do extenso quintal da casa, a vista do mar é das mais deslumbrantes. “E o mar não está emprestado/ à terra por curto prazo? / Não teremos que devolvê-lo / com suas marés à lua?”

Apesar de certamente o ponto alto e a própria razão turística de Isla Negra ser a casa do poeta, há ainda a curiosa casa-instalação-espaço-cênico La Nave Imaginaria. A construção parece um estranho barco multicolorido onde o “capitão”, o artista que ali mora, conduz a um criativo percurso teatral instigante para adultos e crianças. 

Infelizmente, deparei-me com um aviso afixado na porta de que o barco não estava navegando. Segundo informações, um novo espetáculo tem previsão de entrar em cartaz apenas em setembro. “Quantas semanas tem um dia / e quantos anos tem um mês?”

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