Isso pode terminar mal

Não estamos sendo muito leais com nosso correspondente britânico: ele pediu que ainda mantivéssemos silêncio, mas anunciou que, possivelmente, em breve virá ao Brasil para visitar velhos amigos e atender ao convite de alguns fãs-clubes organizados. Julgamos que, ao contar esse pequeno segredo, estamos exercendo uma leve pressão para que nosso incansável viajante volte a nos incluir entre seus destinos. So help us God!

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2015 | 03h00

A seguir, a pergunta da semana:

Na verdade, meu e-mail não dirige uma pergunta específica a mr. Miles. Só gostaria de deixar registrado que acabo de voltar de uma viagem de 18 dias por Alemanha e Áustria, onde fui tratado com desprezo, sarcasmo e grosserias em sete de dez contatos que tive com alemães e austríacos. Talvez a questão do fluxo migratório esteja influenciando esse tipo de conduta... Fato é, não volto a esses dois países tão cedo. - José Luis, por e-mail.

Well, my dear Joseph, vejo pelo endereço eletrônico que você é proprietário de uma escola de inglês, pelo que, by the way, me congratulo. Espero que sua cátedra ensine o inglês escorreito que, of course, é o de nosso reino. Caso contrário, sempre é tempo de aperfeiçoar-se, isn’t it?

Pois é justamente por meio da questão do idioma que me atrevo a apresentar uma das possíveis respostas à sua contrariedade. As you know, dear Joseph – apesar dos esforços de Goethe, Heine e outros poetas da língua alemã –, o idioma praticado tanto na Alemanha quanto na Áustria (países que você visitou) não é exatamente delicado. Os 30% de pessoas que não lhe foram desagradáveis possivelmente falavam o inglês que você tão bem domina. Os demais, I presume, deram-lhe respostas em alemão, o que deve ter soado desprezível, sarcástico ou grosseiro. Não é nada disso, my friend. O idioma alemão, para alguns, tem uma sonoridade agressiva e um tanto autoritária. Prova disso é que, no século 19, os príncipes prussianos se comunicavam apenas em francês. O alemão era utilizado, believe me, para a comunicação com os animais.

É claro que aquela monarquia – ao contrário da nossa – não podia mesmo ter durado. Mas há um exemplo clássico de como as palavras em alemão às vezes não representam a delicadeza do que querem representar. Veja por exemplo o caso das lindas e suaves borboletas. No inglês, são leves butterfly. Em espanhol, tem o som calmo de mariposas. No italiano são ainda mais delicadas: farfalle. E, até no francês, papillon é um termo doce de se ouvir.

Você sabe como os alemães chamam suas borboletas? De schmetterling! A mim me soa como o nome de um avião de ataque militar. ‘Miles: abaixe-se. Lá vem uma formação de schmetterling!’

Talvez seja por isso que você diga que não pretende voltar tão cedo. Pode ser, as well, que você deu azar em seus encontros. Se a proporção fosse invertida, sua correspondência, probably, nem sequer teria sido enviada.

Não nego, however, que as pessoas possam estar exaltadas com a chegada dos imigrantes. Um passado não muito antigo condena a xenofobia e o nacionalismo exagerado daqueles povos. Se for isso, vou me sentir ainda mais triste com a nossa espécie humana. Pessoas que vivem em países majoritariamente formados por imigrantes – as you, Brazilian friends – vivem da harmonia de todas as influências. Isso lhes fez e sempre fará bem. Don’t you agree?

Enfim, Joseph, escolha você mesmo entre as alternativas. Eu prefiro ficar com a primeira. Caso contrário, isso tudo pode, once again, terminar muito mal.

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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