Viagem

Japão, colorido e delirante o ano todo

Embora a época da florada das cerejeiras (hanami) seja a mais disputada, o outono se mostrou uma boa escolha para visitar o país. Confira nosso roteiro, que passa por Kyoto, Tóquio, Koyasan, Osaka...

16/05/2017 | 05h00    

Adriana Moreira - Tóquio

Templo Kiyomizu-dera, em Kyoto, no histórico bairro de Higashiyama

Templo Kiyomizu-dera, em Kyoto, no histórico bairro de Higashiyama Foto: Adriana Moreira/Estadão

Todos sentados do lado esquerdo do trem-bala que nos levaria de Kyoto a Tóquio, exatamente como recomendam os bons guias de viagem. São os melhores lugares para quem quer ver o Monte Fuji, símbolo do Japão, no trajeto de aproximadamente 2 horas. O dia claro de outono parecia perfeito para avistá-lo, e os celulares e máquinas fotográficas estavam a postos para qualquer sinal dele. Yuki, nossa guia que mora no Japão, mas já viveu no Brasil, explicou que ele deveria surgir no horizonte depois de 1h20 de viagem. Mas não, Fuji-San, como os japoneses se referem carinhosamente a ele, não se mostrou naquele dia. 

Tóquio era a última parada de uma viagem de dez dias pelo Japão. Já havíamos passado por Osaka, Koya-san e Kyoto, em uma aventura que certamente mereceria um tempo maior. 

Embora o Japão seja cobiçado especialmente durante a florada das cerejeiras, normalmente entre o fim de fevereiro e o começo de março, o outono se mostrou uma grata época para desbravar o país. O colorido das folhas em tons de vermelho, laranja, amarelo e algum verde, nos acompanhou em todo o trajeto, oferecendo um espetáculo contínuo. Além disso, o clima ameno e o fato de não se tratar de alta temporada foram bônus bem-vindos – ainda assim, as principais atrações de Kyoto e Tóquio apresentavam filas constantes, o que nos fez pensar que, durante o hanami (a florada das cerejeiras), alguns trajetos seriam inviáveis.

A expectativa é que até os Jogos Olímpicos, daqui a três anos, o fluxo de turistas aumente ainda mais. Segundo Keita Kadowaki, do órgão de promoção de Turismo do Japão, a ideia é que, dos atuais 20 milhões de visitantes, o Japão chegue a 40 milhões ao ano até 2020. 

Leia também: Conheça as butiques de frutas do Japão

Para isso, estão listadas medidas como a abertura de novos escritórios promocionais pelo mundo e a diversificação de destinos turísticos. Além disso, há um esforço notório em ampliar as informações em inglês em placas de orientação e pontos turísticos e também em formar cidadãos bilíngues. Embora todas as escolas ensinem inglês, os japoneses se sentem inseguros para falar o idioma. Ainda assim, sempre que precisei pedir ajuda fui atendida – mesmo que a explicação viesse apenas em gestos, e não em palavras.

Árvores de ginkgo espalham suas flores amareladas por toda Avenida Icho Namiki no outono 

Árvores de ginkgo espalham suas flores amareladas por toda Avenida Icho Namiki no outono  Foto: Adriana Moreira/Estadãi

Para o viajante independente, é possível explorar sozinho grandes cidades, como Tóquio e Kyoto, em que há avisos em inglês nas atrações (e uma série de aplicativos para ajudar). Os maiores desafios estão pelo interior – ainda assim, sorrisos, bom dias (konichiwa) e paciência vão levá-lo a qualquer lugar. Literalmente: muitas vezes, o turista é conduzido pela mão até o lugar desejado. Há muitos “Japões” dentro do Japão, mas a cordialidade e o cuidado com o outro são comuns aonde quer que se vá.

Fuji-san, por sua vez, parece não estar muito preocupado com os turistas. Segue se mostrando só quando tem vontade – o que ocorre com mais frequência no inverno, menos atraente para os estrangeiros. 

Tudo bem. Ir ao Japão e não ver o Monte Fuji é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa: ambos dependem de sorte, mas não são fundamentais para sua viagem, já que há tanto mais para descobrir. 

Mas sim: pode-se dizer que eu tive sorte. 

Viagem a comvite da Agência de Promoção Turística do Japão (JNTO)

PARA FAZER UMA VIAGEM ESPERTA

1. Aplicativos

Em Tóquio, as ruas não têm nome: use o Google Mapas para se localizar. Baixe o TokyoSubway, que funciona off-line: basta colocar a estação do metrô onde está e para onde quer ir e ele indica o caminho. O Takoboto é um dicionário japonês-inglês, mas vale usar o tradutor do Google (pesquise também por voz e imagem). Dica extra: leve o endereço ou o nome do seu hotel escrito em japonês caso precise pedir informação.

2. Dia a dia

Táxi é caro, especialmente em Tóquio; use com parcimônia. Lojas de conveniência (7Eleven, Family Mart, etc.) têm refeições rápidas e baratas. Terremotos de pequena intensidade são comuns no país. Não há o hábito de dar gorjeta, nem mesmo em restaurantes.

3. Etiqueta

Use as duas mãos para dar e receber presentes ou cartões de visita. Nos trens, você vai notar o silêncio – se for conversar, fale baixinho e deixe o celular sem som. Sempre tire os sapatos para entrar nos tatames e em casas. 

4. Vasos sanitários

As privadas no Japão são tecnológicas, com uma porção de botõezinhos. As mais modernas são aquecidas e totalmente automáticas: levantam a tampa, dão descarga e fecham a tampa sozinhas. Funcionam também como bidê, com jatos d’água com direções diferentes para homens e mulheres. Se fosse para fazer um ranking, a do Marriott, em Osaka, foi a mais tecnológica de toda a viagem.

SAIBA MAIS

Aéreo: não há voos diretos; fomos de American Airlines, que tem code share com a JAL, a ótima aérea japonesa. Desde US$ 2.417. 

 

Trem: voltado para estrangeiros, o Japan Rail Pass dá direito a viagens ilimitadas de 7, 14 ou 21 dias pelo Japão (incluindo o trem-bala Shinkansen) e tem ótimo custo-benefício. Compre em agências, antes de viajar. Os preços começam em US$ 250.

 

Site: jnto.co.jp.

 

Koyasan

A cidade sagrada do budismo

Há cerca de 130 templos em Koya-san, cidade sagrada do budismo; o Kongobu-ji é o mais importante deles

Há cerca de 130 templos em Koya-san, cidade sagrada do budismo; o Kongobu-ji é o mais importante deles Foto: Adriana Moreira/Estadão

Fazia frio quando chegamos a Koya-san, cidade sagrada para o budismo, em meio às montanhas da província de Nara. No ano de 816, Kobo Daishi (Kukai) recebeu permissão para criar na cidade, 900 metros acima do nível do mar, um complexo de templos budistas. Foi ali que ele formou uma legião de monges até o ano 835 quando, segundo conta-se, entrou em “meditação eterna”. Hoje, descansa no cemitério Oku-no-in para, segundo a lenda, acordar quando Buda chegar. 

São cerca de 130 templos – o principal deles é Kongobu-ji, erguido originalmente em 1593 e remodelado no século 19. Os visitantes deixam os sapatos na entrada e colocam uma espécie de pantufa para pisar no delicado piso de madeira, que leva por salões adornados com pinturas feitas no século 16 por Kano Tanyu. O ingresso custa 500 ienes (US$ 5), mas há um passe de 2 mil ienes (US$ 20) que dá direito a entrar em outras atrações da cidade.

Caminhando por ali, nos deparamos com vários grupos de jovens monges de diversas partes do mundo – conversei com australianos e tailandeses –, curiosos para saber de onde éramos e o que fazíamos ali. Foi assim que eu soube que nossa visita coincidiu com a de ninguém menos que Dalai Lama, que daria uma palestra ali naquele mesmo dia. Não encontrei o líder religioso, mas só de saber que estava no mesmo lugar que ele fiquei feliz. 

Fukushiin, ryokan (pousada) que funciona em um templo budista

Fukushiin, ryokan (pousada) que funciona em um templo budista Foto: Adriana Moreira/Estadão

Uma experiência indispensável em Koya-san é se hospedar nos ryokans (pousadas tradicionais que oferecem tatames com futons em vez de camas) dentro de um dos templos. Há cerca de 50 ali, mas nem todos aceitam estrangeiros. Ficamos no Fukuchiin (a partir de R$ 600 para dois), com monges simpáticos que até arranham o inglês. 

O sapato fica do lado de fora durante sua estada. Há dois chinelos, um para as áreas comuns e outro só para o banheiro. Usa-se o yukata, espécie de quimono mais simples, para o dia a dia, em todos os lugares (como estava frio, mantive a roupa por baixo). O jantar, farto, é vegetariano e suficiente. Já o café da manhã tradicional, com sopa, arroz e bolinhos de textura estranha foi mais desafiador para o paladar ocidental.

O Fukushiin é um dos poucos com banhos termais acessíveis 24 horas por dia. Nesses lugares tradicionais na cultura japonesa não se usa roupa de banho – homens e mulheres ficam em locais separados, e há todo um ritual de banhar-se numa área comum, sentado em banquinhos com chuveirinhos e bacias individuais, antes de entrar nas piscinas.

Tatuagens não são bem vistas nesses banhos – recomenda-se cobri-las (durante muito tempo, eram associadas à máfia). No ryokan, havia duas piscinas, uma interna, tão quente que não consegui nem colocar o pé, e outra externa, de temperatura agradável na noite fria, de onde podíamos observar a linda lua que nos iluminava naquele ambiente relaxante.

Monges budistas foram à Koya-san ouvir o Dalai Lama

Monges budistas foram à Koya-san ouvir o Dalai Lama Foto: Adriana Moreira/Estadão

NÃO PERCA EM OSAKA

Osaka está a cerca de 1h30 de Koyasan. Nosso tempo na metrópole era curto, mas a cidade merece ser explorada com mais calma. De lá, é possível seguir de trem para Kyoto (cerca de 30 minutos), Tóquio (até quatro horas) ou à histórica Nara (de 30 minutos a 1 hora). 

1. Osaka-jo

Turistas posam com artista na entrada do Castelo Osaka-jo

Turistas posam com artista na entrada do Castelo Osaka-jo Foto: Adriana Moreira/Estadão

Construído em 1583, o castelo é fundamental para entender a história do Japão. Osaka-jo foi destruído duas vezes – a versão atual é de 1931, e cada andar é um minimuseu, com objetos, roupas, mapas e armaduras de época. A fila para ir no pequeno elevador é grande e demorada – vale a pena enfrentar as escadas até o observatório, no 8º andar. Fica em um lindo parque, tomado por cerejeiras. Entrada 600 ienes (US$ 6).

2. Harukas 300

Com 300 metros de altura, o prédio mais alto do Japão se ergue no centro de Osaka. Compre o ingresso com antecedência, pelo site (1.400 ienes ou US$ 14) para evitar filas. O observatório ocupa três andares, incluindo um jardim ao ar livre, protegido do vento, com mesinhas e um café. 

3. Dotonbori

Depois do Castelo, esse é o lugar que você não pode deixar de ir em Osaka. Um delicioso caos de lojas de bolsas, roupas, perfumes, eletrônicos, lembrancinhas, penduricalhos, comidinhas e personagens, temperado com telões imensos e barulhentos, apresentações artísticas, camelôs. As margens do Rio Dotonbori convidam a uma caminhada (há mais lojinhas e restaurantes ali) ou a um passeio de barco. 

Passeio de barco em Dotonbori, o divertido (e sempre lotado) centro de Osaka

Passeio de barco em Dotonbori, o divertido (e sempre lotado) centro de Osaka Foto: Adriana Moreira/Estadão

 

Kyoto

Como uma gueixa

O colorido das árvores na área do Kiyomizu-dera, no histórico bairro de Higashiyama, em Kyoto

O colorido das árvores na área do Kiyomizu-dera, no histórico bairro de Higashiyama, em Kyoto Foto: Adriana Moreira/Estadão

Fiquei surpresa ao descobrir que Kyoto não era uma cidade pacata, mas repleta de avenidas movimentadas e 1,5 milhão de habitantes. É claro que um lugar que conta com 1.600 templos budistas e 400 xintoístas – incluindo 17 patrimônios da Unesco – não poderia ser exatamente pequena. Mas, no meu imaginário, tudo ali era histórico, distante do caos urbano.

Nada que tire o encanto da cidade, cheia de ilhas de calmaria entre seus templos e parques como o Maruyama, onde fica difícil caminhar na florada das cerejeiras. Além disso, na antiga capital do Japão Imperial (do século 8º a meados do século 19) não há arranha-céus: os edifícios têm limite de 15 metros de altura, o que confere vistas maravilhosas em vários pontos da cidade, especialmente do templo Kiyomizu-dera. Fundado no ano 780, mas reconstruído no século 17, é todo feito de madeira com encaixes, sem uso de pregos.

Chegar a ele, no bairro histórico de Higashiyama, não é difícil. São cerca de 10 minutos de subida, em meio a lojinhas e multidões ávidas por gastar, o que pode deixar o trajeto um pouco mais demorado. O bacana é justamente ir devagar, vendo as vitrines, provando comidinhas e biscoitos, sem deixar de prestar atenção nas placas que indicam o caminho. 

Lá no alto, as folhas coloridas pelo outono parecem buquês. Parte do templo pode ser visto por fora, sem a necessidade de ingresso, mas vale pagar os 400 ienes (US$ 4) para percorrer todo o trajeto, passando pelos jardins e pela fonte de água considerada sagrada, caso tenha tempo. 

Tempo, aliás, é o que você mais vai precisar em Kyoto. Será impossível visitar todos os templos, mas há muitos highlights (leia abaixo) e as distâncias são grandes.

Na entrada dos templos, sempre há comidinhas de rua. “Tudo é confiável, pode comer sem medo”, avisa a guia Yuki. Não resisti aos bolinhos recheados de polvo e salpicados com alga fresquinha, o takoyaki. Seis unidades de felicidade por 500 ienes (US$ 5).

Transformação. Caminhar por Kyoto é se deparar, a todo momento, com mulheres, casais e famílias inteiras vestidas com trajes tradicionais japoneses. Especialmente em Higashiyama, há lojas que oferecem aluguel de trajes, produção de cabelo e maquiagem completa por preços que começam em 3.200 ienes (US$ 32). 

Uma maiko (jovem gueixa) caminha apressadamente por rua do bairro de Gion na cidade de Kyoto

Uma maiko (jovem gueixa) caminha apressadamente por rua do bairro de Gion na cidade de Kyoto Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Muito antes de turistas (japoneses e estrangeiros) dominarem as ruas com as tais vestimentas, eram as maikos e geikos (ou gueixas) que se vestiam dessa forma, a partir do século 15. Elas ainda existem – estima-se que cerca de 100 maikos (aprendizes) e outras 100 geikos trabalhem em restaurantes e casas tradicionais da cidade. Não há nada de ilícito no que fazem: são treinadas para se apresentarem, entreterem e servirem.

Gion é considerado o bairro das geikos – com sorte, talvez você veja uma delas no fim de tarde, seguindo apressada para alguma apresentação em um dos restaurantes da região. Fomos ao delicioso Gion Mametora, cuja caixa de sushis delicados (Mame sushi) custa US$ 42. Não espere menu em inglês ali ou nas casas vizinhas. 

Alguns hotéis mais refinados, como o Ritz Carlton, também transformam seus hóspedes em geikos. Para participarmos de um jantar no refinado restaurante Mizuki, todo o grupo – incluindo esta repórter – foram transformados.

As hábeis funcionárias trazem um cardápio de cabelos para você escolher apenas apontando, e uma porção de quimonos. Não é apenas vesti-lo: somos embrulhadas com várias camadas de tecidos para criar o visual. Os tamancos parecem de madeira, mas são mais leves e macios, o que facilitam a caminhada – embora seja necessário andar com mais delicadeza para não desequilibrar.

O jantar foi encantador – um dos pratos elaborados pelo chef Masahiko Miura imita os jardins japoneses: o pedaço de atum vem dentro de uma peça de gelo e descongela com sal e azeite – a ideia é simular o som da água corrente. Infelizmente, só não dá para comer muito com a roupa apertada, o que obriga a manter uma postura sempre ereta e elegante. Que pena devolver o traje.

OUTROS DESTAQUES

Kinkaku-ji 

Templo Kinkaku-ji, em Kyoto, é revestido de folhas de ouro

Templo Kinkaku-ji, em Kyoto, é revestido de folhas de ouro Foto: Adriana Moreira/Estadão

O templo budista coberto por folhas de ouro é de uma beleza hipnotizante. O Pavilhão Dourado foi construído em 1397, mas incendiado por um monge fanático em 1950. Cinco anos depois, foi totalmente reconstruído segundo o projeto original. Há um caminho demarcado por onde devem seguir os visitantes, já que se trata de um dos lugares mais visitados de Kyoto. A dica – que pode ser estendida para quase todas as atrações da cidade – é chegar bem cedo, antes dos ônibus de excursões. O ingresso custa 400 ienes (US$ 4). Há uma réplica dele em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, que também pode ser visitado; 11-4666-4895.

Bambuzal de Arashiyama

Você saberá que está no caminho certo para o bambuzal conforme aumentam o número de lojinhas tentadoras e opções gastronômicas. Experimente fechar os olhos por alguns momentos – concentre-se nos sons do vento entre os bambus. A Rua Saga-Toriimoto reúne construções preservadas do início do século 20.

Yasaka-jinja

Procurado especialmente para celebrar o ano-novo, o templo fica encostado ao Parque Maruyama. Uma multidão vai agradecer e fazer pedidos tanto próximo à meia-noite de 31 de dezembro quanto nos dias seguintes. Em julho, há o festival Gion Matsuri, que toma as ruas do vizinho bairro de Gion com carros alegóricos e apresentações.

Fushimi-inari 

Templo xintoísta Fushimi-inari é conhecido por seus milhares de torii (portões) enfileirados ao longo de quatro quilômetros

Templo xintoísta Fushimi-inari é conhecido por seus milhares de torii (portões) enfileirados ao longo de quatro quilômetros Foto: Adriana Moreira/Estadão

Um a um, os portões vermelhos (torii) marcam o caminho de 4 km até o topo do Monte Inari. São milhares, alinhados por uma trilha que leva de 2 a 3 horas para ser concluída (não é preciso ir até o final, logicamente). Os portões são oferendas de famílias e empresas a Inari, o deus do arroz para o qual é dedicado o templo xintoísta. Grátis.

Chion-in

O templo serviu de locação para O Último Samurai (2003) e é um dos mais populares do Japão. Com espaços amplos, foi fundado em 1234 – mas as construções atuais mais antigas são do século 17. Destaque para o sino de 1633, o maior do Japão, com 70 toneladas. Na véspera de ano-novo, ele soa 108 vezes. 

 

 

 

Tóquio

Além dos arranha-céus

Região de YaNeSen tem clima de interior, mas as facilidades encontradas em uma capital cosmopolita como Tóquio

Região de YaNeSen tem clima de interior, mas as facilidades encontradas em uma capital cosmopolita como Tóquio Foto: Adriana Moreira/Estadão

Nada resume melhor a atmosfera da capital japonesa do que o cruzamento de Shibuya, menor do que as imagens fazem parecer e até que relativamente calmo quando visitado durante o dia. À noite, especialmente às sextas-feiras e sábados, aquela multidão que já nos acostumamos a ver em milhares de vídeos toma conta do local. Há mais turistas que locais, que gravam vídeos e mais vídeos, tiram selfies e mais selfies de todos os ângulos possíveis.

Tóquio é exatamente isso: apressada, às vezes barulhenta, mas sempre organizada. O bê-á-bá turístico tradicional, além de Shibuya, você certamente já ouviu falar: Akihabara, o distrito dos eletrônicos e dos animes (tem tudo para os fãs, de biscoitos a bonecos); Harajuku, o point dos jovens descolados e da moda “diferentona” – é um barato entrar nas lojinhas e há uma Daiso, onde dá para comprar milhares de lembrancinhas por 100 ienes (US$ 1); o mercado de peixes de Tsukiji, aquele do leilão dos atuns gigantes.

Não deixe de visitar nenhum deles na sua primeira ida à cidade, especialmente o mercado. Vá de manhã cedo, mas esqueça o leilão, que tem poucos lugares para turistas e filas gigantescas, que começam ainda de madrugada. Chegue por volta das 9h – é só descer na estação de metrô Tsukishijo (na Tsukishi é preciso andar uns 300 metros).

Não há muita diferença de um mercadão municipal – caixotes e carrinhos passando por todos os lados, vendedores vendendo seus produtos e ralhando com turistas que impedem a passagem, água empoçada, trabalhadores sentados comendo marmita. Segui um grupo de turistas para encontrar a área dos pescados, a mais interessante: um mundo de peixes frescos, atuns gigantes, vieiras, ouriços, tudo fresco. Alguns exemplares ficam em aquários improvisados até a hora do abate.

 

No entorno, pequenos (ou melhor, minúsculos) restaurantes – alguns não servem mais que 15 pessoas por vez. Às 10 horas da manhã, um deles já tinha uma placa no fim da fila, avisando que não era mais possível atender ninguém daquele ponto em diante. E a espera era longa.

Entrei na fila de um outro restaurante. Tudo objetivo: você fala o número do prato que quer, paga antes de entrar e senta quando chega sua vez, no local determinado pela atendente. Uma placa avisa que não é permitido trazer bebidas de fora e que ali não se vende nenhuma: o chá e a sopa estão incluídos em todos o pratos – o meu levava ainda arroz e atum cru, fresquíssimo e muito bem servido, por US$ 10. 

Para ver uma Tóquio ainda mais autêntica, embora já no radar dos hipsters, siga para YaNeSen (região dos distritos de Yanaka, Nezu e Sendagi). O templo de Nezu tem um jardim repleto de azaleias em maio, e toriis enfileirados à exemplo do Fushimi-Inari de Kyoto (embora em menores proporções, é claro).

Se você descer na estação Nezu do metrô, siga para Yanaka pelas ruas tortuosas (uma delas, apelidada de Snake por causa de suas curvas), paralelas à avenida principal. É ali que está o verdadeiro tesouro: lojinhas de doce e artesanato, sapateiros e oficinas, casas comuns, bares e restaurantes, frequentados essencialmente por seus moradores. Siga até Yanaka-Ginza para encontrar comidinhas e lojas interessantes – uma delas vende tudo o que se imagina com formato ou estampa de gatinhos.

Mercado de peixes de Tsukishi, em Tóquio

Mercado de peixes de Tsukishi, em Tóquio Foto: Adriana Moreira/Estadão

Dali, pegamos novamente o metrô. Uma amiga insistiu para que fôssemos ver as árvores de ginkgo no distrito elegante de Gaienmae. Acompanhei, mesmo sem saber direito do que se tratava. No outono, a Avenida Icho Namiki fica interditada para automóveis para que todos possam andar (e tirar milhares de fotos) entre as folhas amarelas que começam a cair. Se sua viagem for em novembro, não deixe de passar por lá.

OUTROS DESTAQUES

Sky Tree e Tokyo Tower

A 634m de altura, a Sky Tree tem dois observatórios, um a 350m e outro a 450m. Vá cedo para ver o Monte Fuji; 3 mil ienes (US$ 30). De 1958, a Tokyo Tower tem observatórios a 150m e a 250m (o segundo está em reforma); 900 ienes (US$ 9). 

Palácio Imperial

A muralha e o fosso foi tudo o que restou do Castelo Edo original. Escolha um dia ensolarado para percorrer os belos jardins, com entrada grátis. O atual palácio, de 1968, só é aberto ao público duas vezes por ano: 23 de dezembro (aniversário do imperador) e 2 de janeiro. 

Asakuja Senso-ji

O templo budista fica perto da Sky Tree (visite ambos em um só dia). É o mais popular da cidade – na saída, prove bolachinhas, sorvete frito e outras comidinhas ao longo da Nakamise, espécie de shopping ao ar livre. Vários riquixás se concentram ali e levam a um tour pela região.

 

Ginza 

Gucci, Dior, Louis Vuitton, Sony, Apple, Uniqlo, além de shoppings e galerias refinadas são algumas das lojas do bairro mais chique de Tóquio, com fachadas ultramodernas e telões iluminados. Aos fins de semana, a rua Chuo-dori fica fechada aos automóveis.

Shimokitazawa 

Perto da movimentada área de Shinjuku (repleto de karaokês, lojas e uma estátua do Godzilla), o bairro de Shimokita tem vibe mais descolada, com ruas estreitas de ares antigos, mas frequentado por jovens, com baladas, cafés, brechós, ateliês, bares (izakayas)... 

 

Hakone

Desventuras em série para ver Fuji-San

Monte Fuji visto do Lago Ashinoko, em Hakone

Monte Fuji visto do Lago Ashinoko, em Hakone Foto: Ricardo Freire/Estadão

Parecia uma boa ideia. Trem, teleférico e barco, tudo junto por 4.250 ienes (US$ 42) com o Hakone Freepass para um bate-volta até Hakone, a 2h20 de Tóquio. Sabendo que a viagem seria longa, chegamos por volta das 7 da manhã na estação central de Tóquio – esperávamos que por volta das 10 horas já estivéssemos na cidade, conhecida por suas águas termais e por oferecer belas vistas do Monte Fuji.

Meu amigo tinha o Japan Rail Pass, que permitia o trajeto até Odawara em um trem mais rápido (seria 1h45 de percurso), mas eu não. Como a diferença tarifária para mim era grande – 4.050 ienes (US$ 40) no trem rápido contra os 1.360 ienes (US$ 13) no comum –, concordamos em viajar na segunda opção, usado por quem trabalha e estuda em Tóquio e com muito mais paradas.

Escolhemos a data para ir a Hakone baseados na previsão do tempo, que andava chuvoso e fechado nos últimos dias. Queríamos um dia claro, para que a montanha-símbolo do Japão não tivesse mais desculpas para se esconder de nós. Esquecemos, no entanto, que se tratava de um sábado, e aparentemente o Japão inteiro teve a mesma ideia.

Quando descemos na estação de Odawara e vimos o tamanho da fila para embarcar no bondinho, pensamos que chegaríamos um pouco mais tarde em Hakone, mas não imaginávamos o calvário que seria dali para frente, com filas intermináveis a cada parada e vagões tão lotados quanto a estação da Sé às seis da tarde.

Mesmo num dia calmo, o fato é que não há necessidade de pegar o trenzinho, que cruza as montanhas e exibe uma bela paisagem (desde que não haja uma porção de cabeças espremidas à sua frente) e tem uma das paradas próxima ao Hakone Open Air Museum (entrada 1.600 ienes ou US$ 16), com esculturas ao ar livre, como o mineiro Inhotim. Se tivesse mais tempo, teria descido ali para descansar e apreciar as 120 obras do jardim, além de outras coleções – há mais de 300 só de Picasso. 

O teleférico, reaberto recentemente, também é dispensável. É até interessante ver as minas de enxofre de Owakudani, mas não emociona – nessa parada, as barraquinhas vendem ovos cozidos no vapor vulcânico (tem gosto defumado e não é nenhuma iguaria).

Em vez de passar por isso, pegue o ônibus em frente à estação de Odawara e vá direto para a cidade, a meia hora dali. Se for o caso, contrate o tour de barco (1.840 ienes, US$ 18) pelo Lago Ashinoko à parte, que tem uma das paradas no templo Hakone-jin ja (mas você pode ir andando). Passeie entre as ruas ou até cacife um day-use nos onsen (pousada com termas) para relaxar nas águas termais. 

Chegamos finalmente ao barco, a última parte da epopeia, por volta das 15 horas, quando o sol começava a baixar. É um passeio bem turístico, com decoração à la Piratas do Caribe, mas o cenário é belo. O Monte Fuji parece ter ficado com pena de nossas desventuras e surgiu exuberante, para nossa alegria (e das câmeras).

Finalmente, estávamos felizes e relaxados, embora famintos e cansados. Foi triste chegar ao outro lado da margem e constatar tudo o que havíamos perdido de ver com o dia claro. Mas era preciso se apressar: tínhamos de voltar a Tóquio e as filas eram imensas...

Onde ficamos

Hotéis em Kyoto, Tóquio e Osaka onde a equipe se hospedou

Harukas 300, o prédio mais alto do Japão, fica em Osaka

Harukas 300, o prédio mais alto do Japão, fica em Osaka Foto: Adriana Moreira/Estadão

Osaka Marriott Miyako

O hotel ocupa do 38º ao 57º andar do prédio mais alto do Japão, o Harukas 300. Os quartos são confortáveis e espaçosos, com uma vista privilegiada para o parque onde está o Museu de Belas Artes e o zoológico de Osaka. A estação de metrô está logo ao lado e, para os hóspedes, subir ao topo do Harukas 300 é grátis. A partir de 24.740 ienes (US$ 247). 

Ritz Carlton

As unidades de Kyoto e Tóquio têm propostas bem diferentes, que resumem o espírito de cada cidade. O primeiro faz o visitante se sentir em hospedarias tradicionais, mas com todo conforto inerente à rede. Alguns quartos têm jardins japoneses individuais, e há diversas atividades para os hóspedes. Uma delas é o inesquecível passeio em bicicletas elétricas de manhã bem cedo, quando as ruas ainda estão tranquilas e é possível absorver toda a essência de Kyoto. Em Tóquio, o hotel ocupa a Midtown Tower, edifício mais alto da cidade no agitado distrito de Roppongi, repleto de restaurantes, bares e casas de Pachinko (caça-níqueis). O lobby fica no 45º andar e os quartos vão até o 53º – dali, dá para avistar o Monte Fuji. Tarifas a partir de 44.190 ienes (US$ 440) em Tóquio e 55 mil ienes (US$ 550) em Kyoto.