Johannesburgo, cidade de contrastes

Áreas ricas como Sandton e Melville se contrapõem à pobreza de Soweto. E até lá casas simples estão cercadas por residências da classe negra emergente, um shopping center e um hotel quatro estrelas

João Fellet, ESPECIAL PARA O ESTADO, JOHANNESBURGO

25 Maio 2010 | 01h58

Vida árida. Garotos brincam com carrinhos de pedaços de ferro conseguidos em Kliptown, no subúrbio de Soweto. Foto: Chris Kirchhoff, MediaClubSouthAfrica.com 

 

É curioso uma metrópole com 6 milhões de habitantes, que possui museus e áreas como Sandton, com condomínios, hotéis de luxo, shopping centers e cassinos, e Melville, endereço da badalação, ter entre seus destinos turísticos obrigatórios um bairro pobre. Só não soa mais estranho porque estamos falando de Johannesburgo, cidade de contrastes, e de Soweto, periferia que fez história no levante contra a segregação racial.

No dia 11 de junho, quando o juiz der início ao jogo de abertura da Copa do Mundo, entre México e África do Sul, o zunido festivo das vuvuzuelas será ouvido em Soweto que, não muito tempo atrás, vivia ao som de tiros de fuzil e voos rasantes de helicópteros. A poucas quadras do Soccer City, o estádio em Johannesburgo que abrigará o primeiro jogo do Mundial, o bairro pobre mostrará ao mundo que sabe torcer com a mesma intensidade com que combateu o apartheid.

 

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Construído para ser um imenso dormitório de trabalhadores negros no início do século 20, Soweto se transformou desde que o regime segregacionista caiu, em 1990. O comércio formal, antes restrito a poucos refeitórios e mercados, diversificou-se e cresceu. O bairro ganhou áreas verdes, o quatro estrelas Soweto Hotel e o moderno shopping center Maponya Mall. Quem conseguiu ascender socialmente após a queda do regime ergueu casas que lembram as das áreas ricas da cidade, criando um contraste até dentro do próprio bairro.

Com a Copa, vieram outros benefícios. Antes dependente de vans e trens superlotados nos horários de pico, Soweto ganhou corredores de ônibus na sua principal avenida. Muitos dos seus moradores foram empregados na construção do Soccer City, que custou quase R$ 750 milhões. Com a expectativa de aumento do turismo no bairro durante o Mundial, albergues foram inaugurados para receber os visitantes.

 

Vida bela. Locais como Cape Town e Sandton são consideradas áreas nobres, com hotéis de luxo e shoppings centers. Foto: Jeffrey Barbee, MediaClubSouthAfrica.com 

 

A rua da paz. Embora não seja uma área propriamente turística, já que a maioria dos seus moradores segue vivendo na pobreza, Soweto tem recebido fluxo constante de visitantes nas últimas décadas.

Em excursões organizadas por agências é possível visitar a única rua do mundo em que já moraram dois vencedores do prêmio Nobel da Paz, a Vilakazi Street, onde ficam as antigas casas do ex-presidente Nelson Mandela (www.mandelahouse.com), hoje um museu que também merece ser visto, e do arcebispo Desmond Tutu.

Outras paradas são a Praça Walter Sisulu of Independence, onde ocorreram as primeiras grandes manifestações contra o apartheid, nos anos 1950, e o Museu Hector Pieterson (na esquina da Khumalo com a Pela Street), que homenageia um garoto de 12 anos morto pela polícia durante um protesto estudantil, em junho de 1976.

Os jovens faziam passeata contra o uso nas escolas do africâner, língua da população sul-africana de origem holandesa. A polícia abriu fogo contra os manifestantes. Hector foi fotografado após ser baleado, enquanto era carregado por um amigo. A imagem desencadeou uma onda de revolta em guetos de todo o país. Mais de 500 estudantes foram mortos numa sequência de protestos. Hoje, no jardim do museu, há tijolos para cada uma das vítimas, boa parte delas até agora não identificada.

Pelas calçadas. Em lanchonetes e barracas de comida, pode-se provar lanches típicos do bairro, como o kota (batata frita, queijo e mortadela) e o mageu (uma bebida de milho). Ou ainda conversar com os moradores sobre as expectativas deles em relação à Bafana Bafana, como é chamada a seleção sul-africana. Torcida, pelo menos, não faltará. "Quem sabe o barulho das vuvuzuelas desconcentre os nossos adversários", diz o motorista Gift Thabela, de 32 anos.

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