Damon Winter/NYT
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Lalibela, o labirinto sacro da Etiópia

Diz a lenda que, quando os 11 templos subterrâneos de Lalibela foram esculpidos, no século 12, eram os anjos que continuavam os trabalhos. Ainda hoje, o que não faltam ali são mistérios

Gilberto Amendola, Lalibela

02 Janeiro 2018 | 05h00

O sapateiro não vai à igreja. O seu ofício é do lado de fora. Enquanto você, turista, visita (sem sapatos) um dos templos de adoração religiosa de Lalibela, no norte da Etiópia, ele permanece ali, quieto, sério, velando o sono de um tênis Nike. Como ele recebe 3 birres (cerca de R$ 0,35) por igreja, ao fim das 11 visitas, você vai pagar US$ 1 (R$ 4) para o sapateiro. O valor é baixo e, no mais, não contratá-lo seria um erro. Um erro que pode te deixar descalço. Ou só de meias. 

O santuário de Lalibela é um complexo composto por 11 igrejas esculpidas em rocha. Trata-se do principal local de peregrinação religiosa dos cristãos ortodoxos da Etiópia. São construções do século 12, erguidas (ou, mais precisamente, escavadas) por ordem do rei Lalibela. Com elas, o rei quis criar uma espécie de nova Jerusalém para os cristãos – já que, na ocasião, “a oficial” estava sob domínio árabe. Hoje, o complexo é apontado pela Unesco como patrimônio da humanidade. 

Lalibela continua sendo local de peregrinação religiosa, um espaço de devoção e mistério. Mas, além disso, um lugar onde aquilo que pode ser chamado de “demasiado humano” se faz presente. Chega-se nela partindo da capital da Etiópia, Adis-Abeba. De São Paulo até Adis, são 11 horas de voo direto. Apesar de apenas 5 horas de fuso horário, eu, por exemplo, cheguei na Etiópia em pleno 2010.

Explico: o país, que foi um dos primeiros reinos cristãos da história, segue o calendário Juliano, criado pelo imperador romano Júlio César. Nós, e o mundo ocidental em geral, seguimos o calendário Gregoriano.

 

A chegada. O voo de Adis para Lalibela não dura mais de uma hora. E ao se aproximar da cidade, ainda do alto, é possível avistar o Nilo Azul. No último mês de outubro, quando visitei a região, o rio estava seco (o fluxo de água varia muito ao longo do ano). A impressão era de estar chegando no sertão, em uma região do Nordeste profundo do Brasil.

O aeroporto é tão pequeno que a gente espera pelas malas ao ar livre, do lado da pista de pouso. Até a área das pousadas e hotéis, próxima ao santuário, são mais 30 minutos de van, por uma estrada sinuosa e de mão dupla. No caminho, se o motorista não acelerar tanto ao ponto de te obrigar a fechar os olhos (Eu fecho. Vocês não?), será possível ver um pouco daquela África que talvez ainda habite o imaginário de muitos: pastores caminhando pela estrada com seus cajados, guiando bodes e cabras pelo vilarejo; casas de barro, tetos de palha e o chão vermelho; crianças que surgem do nada com seus uniformes do Barcelona e de outros times europeus; e religiosos que parecem impassíveis diante do mundo exterior.

Para entrar no santuário, paga-se U$ 50 – com mais U$ 10 ou 20 é possível contratar um guia local. Todos falam inglês (alguns também falam espanhol, herança do período em que a Etiópia tinha um governo comunista e mantinha relações com Cuba) e têm vasto conhecimento histórico. Vale a pena. 

 

Empreiteiros celestiais. O conjunto de igrejas é labiríntico – pequenos túneis e galerias ligam as igrejas. Sem um guia, você pode perder tempo andando em círculos. Você também precisa contratar o sapateiro, que, assim como o guia, também é um local, mas sem inglês fluente ou tanto conhecimento histórico.

Diz a lenda local que, durante a construção, 20 mil homens trabalhavam nas rochas durante o dia e os anjos terminavam o serviço quando a noite chegava. Por mais ceticismo que se tenha, não é difícil cair na tentação de acreditar em anjos escavadores ou arquitetos celestiais. As igrejas são o triunfo do improvável. Todo o complexo ficou pronto em pouco mais de 23 anos.

Ao entrar nas igrejas, o sentimento é de se estar pisando (pés descalços) no que há de mais misterioso e insondável. A luz natural que entra pelas frestas, a composição de cores no avermelhado das rochas, os quadros representando São Jorge, as cortinas de veludo vermelho (algum fã do David Lynch lendo?) e os fiéis agachados pelo chão fazem do ambiente algo que parece ser retirado de dentro de um sonho (ou, mais uma vez, de uma das criações de David Lynch). 

Atrás das cortinas vermelhas, segundo os guias, existem tesouros e livros sobre o futuro da humanidade que já teriam enlouquecido os homens que tiveram coragem de ler suas páginas. Dentro das igrejas é comum encontrar fiéis encolhidos pelo chão. Normalmente, estão em estado de oração, falam com Deus, cantam ou simplesmente permanecem em silêncio. Convém ao turista entender que não se está em um parque temático. Ser delicado em relação às fotos é uma questão de respeito. 

 

A mais emblemática. A igreja mais famosa do santuário é aquela dedicada a São Jorge. Um pouco mais afastada, ela se assemelha a um monólito coberto por uma cruz grega. Seu interior não é muito diferente daquilo que pode ser visto nas outras 10 escavações. Cada igreja tem um sacerdote responsável. Com eles, um elemento menos transcendental entra em cena: o dinheiro.

Os sacerdotes não recusam posar para fotos, mostrar suas cruzes e vestimentas. Mas, obviamente, esperam a contrapartida em birres. Em conversas mais reservadas, moradores e guias falam da “riqueza” acumulada por alguns religiosos (que também seriam donos de terras, animais e casas). 

Ainda assim, a postura de um morador perante o seu sacerdote é de total respeito e devoção. Não existe contato físico entre sacerdote e fiel. A interação entre eles é feita através da cruz. Enquanto ao homem comum (mulher ou criança) é reservado o direito apenas de beijar a cruz consagrada, o sacerdote responde ao gesto de carinho tocando com a mesma cruz partes do corpo de seus seguidores.

Na saída do complexo, você será abordado por muitos moradores, principalmente crianças. A maioria não quer dinheiro. O que as crianças querem é conversar. Querem praticar o inglês e saber coisas de outros países. Ao invés de dinheiro vivo, muitos pedem alguma lembrança de viagem, como peças de roupa. Eventualmente, eles também vendem artesanato. 

Aliás, sobre esse assunto vale uma ressalva. A prática na Etiópia é a da pechincha: não tenha receio em dar sua contraproposta. Antes de fechar a compra, verifique se a peça em questão não está marcada com um grande “made in China”. Uma boa lembrança é uma réplica das cruzes empunhadas pelos sacerdotes. Os preços podem variar de US$ 5 a US$ 20. Ou você pode levar para casa apenas essa aura de mistério e contemplação.

 

TRADIÇÃO À MESA

Para comer com as mãos

A expressão "comer com os olhos" é usada quando algum prato tem o poder de despertar o nosso paladar pela aparência. No caso da Etiópia, o correto deveria ser dizer “comer com as mãos”. Afinal, é assim que se come no país. O prato mais adequado para esse tipo de experiência é o injera com wat. O injera é uma espécie de panqueca com consistência mais esponjosa, que lembra o pão sírio. É feito a base de farinha e de um grão muito comum na Etiópia, o teff (rico em proteínas e minerais, vem sendo usado por corredores, já que aumentaria a performance em corridas longas). Na preparação do injera, a farinha é fermentada em água durante 3 dias e, depois, assada sobre uma placa de barro.

Com o pão aberto sobre um prato, o wat é colocado. O quê? Wat são legumes, carnes e grãos dispostos sobre a injera. O prato é feito para ser compartilhado, e o pão faz as vezes de talher – é com ele que você vai pegar o que estiver sobre o pão. 

A experiência é deliciosa, mas apimentada. Por isso, uma boa ideia é pedir a cerveja local, a levíssima São Jorge. Ou, talvez, um dos vinhos do país, cada vez mais bem ranqueado entre especialistas.

Aroma de café 

Famoso mundialmente, o café etíope é melhor aproveitado em uma cerimônia. Nada muito ritualístico, mas bonito de se acompanhar e saboroso ao paladar. Em algum momento, você vai se deparar com uma mulher de vestido florido, sentada no chão e dedicando-se ao preparo. O ritual dura cerca de 15 minutos. Os grãos são lavados e colocados em uma fogueira de lenha. Depois de quentes, são torrados em uma panela – o processo é controlado por uma especialista, que define o ponto certo só de olhar para os grãos. Uma vez torrado, o grão é moído com um pilão. Em seguida, o café é filtrado – e pronto.

O segredo é que todo esse processo é para pequenas quantidades. Não existe café no bule ou na garrafa térmica. Para cada pedido (ou conjunto de 4 ou 5 xícaras), o trabalho recomeça. A simpatia e o sorriso no rosto de quem prepara também faz parte da experiência.

O café é aromático e forte, e deixa uma certa borra nas xícaras. Aliás, não é difícil encontrar as xícaras tradicionais do país (sem alça) à venda. Eu mesmo trouxe três, que têm deixado até o meu café de cápsula mais gostoso (o efeito é psicológico, eu sei). Ou, se preferir, traga na mala o café em pó.

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Adis-Abeba, capital em transformação

Revitalização do aeroporto, novo hotel e um skyline ainda repleto de gruas. Com a ampliação dos voos que têm Adis-Abeba como ponto de conexão, a cidade começa a ganhar novo panorama

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2018 | 04h45

ADIS-ABEBA - O suingue de pescoço da dançarina quase me deixou com torcicolo. Só de olhar. Esse foi o resultado de 24 horas em Adis-Abeba, capital da Etiópia. Minha passagem por lá foi rápida. Claro, um dia é insuficiente para conhecer aquela que é a maior cidade do país e sede das nações africanas. Mas mesmo com o tempo exíguo, Adis (como é carinhosamente chamada por locais) se mostra elétrica e cativante.

O aeroporto internacional está passando por um processo de revitalização. Então, não espere algo muito organizado: alguma confusão na chegada é certa. Não estresse. 

A reforma do aeroporto e do entorno está sendo patrocinada pela companhia aérea do país, a Ethiopian Airlines (uma estatal com gestão independente). Além do aeroporto, um hotel de luxo está sendo construído para, entre outras coisas, abrigar passageiros em trânsito. Nos últimos anos, a Etiópia vem se tornando um importante ponto de conexão, com operação em aeroportos de 100 destinos internacionais nos cinco continentes. 

A cidade que cresce, e se transforma, ao redor do aeroporto, quer ser vistosa e um tanto americanizada. Os primeiros sinais de um centro financeiro começam a aparecer. No momento, muitos prédios estão em construção – sinal que a paisagem deve mudar totalmente em dois ou três anos.

Ao avançar um pouco mais em direção ao coração da Adis é possível encontrar-se com algo bastante semelhante às periferias de grandes cidades brasileiras. Minha experiência foi em horário de pico, passando por áreas comerciais e terminais de ônibus. Gente saindo do trabalho, gente fazendo compras, gente... Lamentei não poder curtir mais aquele lado caótico de cidade grande. A diferença do centro para a área do aeroporto é evidente. Assim como no Brasil, a divisão de classes sociais se faz visível na desigualdade dos bairros ou regiões. Embora a imagem de um país miserável tenha se cristalizado no nosso imaginário, principalmente se você viveu os anos 80, período em que a Etiópia enfrentou uma grande seca, o que se vê é uma capital em expansão.

 

Encontro com Lucy. Cheguei a tempo para uma visita à Lucy, que está no Museu Nacional da Etiópia. Lucy é o esqueleto de um australopitecus fêmea, um hominídeo bípede, encontrado em 1974 no Vale Awash, no centro da Etiópia. O nome é uma homenagem à canção dos Beatles Lucy in The Sky of Diamonds, música que era cantada pelos arqueólogos para comemorar o sucesso em encontrar vestígios de civilização. Em razão da extrema fragilidade de seus ossos, Lucy está acondicionada em uma caixa especialmente projetada para evitar novos desgastes. Ela teria vivido há 3,2 milhões de anos.

À noite fui conhecer um restaurante/casa de show chamada Yod Abyssinia. A entrada imita um castelinho e a decoração exagerada me fez pensar que tínhamos caído em um desses típicos lugares pega-turista, que carnavalizam a tradição e embalam tudo de um jeito opaco e inofensivo. Fiquei feliz em perceber que estava enganado. 

O local tem um bufê de comidas típicas que cobre todas as curiosidades gastronômicas locais. Além disso, o show é conduzido por músicos que não fazem feio à tradição jazzística da Etiópia (entre os grandes nomes do país está o do músico Mulatu Astatke, um dos mais cultuados da África).

A surpresa da noite fica por conta da esketa, dança tradicional em que a cabeça e os ombros de quem baila parassem em desacordo com o resto do corpo. É como se o pescoço deles fosse a nossa cintura. É lindo, mas dói só de ver. Meu voo de volta foi logo na manhã do outro dia. Tive medo de ter de enfrentar quase 12 horas de voo com torcicolo. Não foi o caso. Ainda bem.

SAIBA MAIS

Como ir: a Ethiopian Airlines oferece cinco voos semanais diretos entre São Paulo e Adis-Abeba. Para ir a Lalibela é preciso fazer conexão na capital; o trecho ida e volta custa a partir de US$ 1.476. Dependendo do seu destino, é possível fazer um stopover de até 72 horas na capital sem custo adicional.

 

Visto: O documento pode ser pedido pela internet ( evisa.gov.et) ou no próprio aeroporto, na chegada ao país. Nos dois casos, o visto custa US$ 40 e é válido por 1 mês. Optar pela versão online significa uma fila menor na imigração. 

*O repórter viajou a convite da Ethiopian Airlines.  

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