Arte: Batistão
Arte: Batistão

Legisladores viajantes

Passear pelo mundo às custas do povo? Até nosso simpático inglês desaprova tal conduta

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2009 | 02h40

Nosso célere viajante está em Sidi Bou Said, na Tunísia, por duas razões bem distintas. Uma delas, "de cunho militar", segundo suas próprias palavras, para celebrar o aniversário da derrota imposta ao Afrika Korps, naquele país, pelas tropas de Montgomery, no meio das quais ardia de calor um certo Lieutenant Miles. O outro motivo - porque ninguém é de ferro - foi aproveitar o já generoso clima levantino para deliciar-se nas águas do Mar Mediterrâneo.

Miles, sempre discreto, não revela se está ou não na companhia de sua famosa amiga tunisina, a atriz Claudia Cardinale. De lá, ele enviou a correspondência da semana:

Mr. Miles: todo mundo sabe que você é um defensor radical do direito de viajar. Agora, por pressão popular, nosso Congresso "cortou" o festival de viagens que nossos representantes faziam, ofereciam para seus amigos e, em alguns casos, até vendiam. Qual é a sua opinião sobre o assunto?

Dr. Paulo Mello Savoia, por e-mail

"Well, my friend, trata-se, again, de um convite para que eu me intrometa em assunto interno da política brasileira, ingerência que sempre me soa bastante indelicada. However, fiquei sobejamente surpreso ao saber que vossos representantes conquistavam, junto com o mandato, essa muito extraordinária regalia. Compreendo, agora, porque há tantos candidatos nas eleições brasileiras?

Unfortunately, não tenho tempo de acompanhar o desempenho da Câmara dos Comuns em Brasília, mas sou levado a supor que, tendo viajado abundantemente mundo afora, vossos legisladores sejam todos homens muito cultos, com vastíssima referência internacional.

Devem falar, of course, vários idiomas e possuir notáveis bibliotecas com relatos de soluções bem-sucedidas em outras nações nas áreas de saúde, educação, cultura, saneamento, obras públicas, etc.

Am I right?

Por outro lado, a sua notícia me dá conta de que o incomum benefício foi cortado por pressão popular. O que isso significa? Estariam os nobres deputados e senadores brasileiros desprezando a infinita sabedoria que o conhecimento de outros povos, costumes e ideias poderia lhes proporcionar?

Oh, my God! Será possível que, em vez de utilizar o mais valioso dos benefícios para adquirir boas doses de estofo e ilustração, os egrégios representantes optaram por banhar os sufrágios de seus eleitores nas águas tépidas do Mar do Caribe? Ou por arriscar seu estipêndio e seus jetons nas inúmeras e tentadoras mesas de jogo de Las Vegas?

It would be really disgusting, isn't it?

Viajar, como já disse e repeti, não é o ato de locomover-se de um lugar ao outro. É, em minha modesta opinião, uma forma de arte, que envolve sonho, bom senso, estudo, observação e reflexão.

Aqueles que viajam às próprias expensas têm até o direito de sonhar mal, estudar pouco, observar errado e fazer reflexões pouco brilhantes. At least, eles estão pagando por seu prejuízo.

Já os que ganham esse direito às custas de toda uma nação deveriam usá-lo apenas e sempre em proveito dela mesma.

E se assim o fizerem estarão auferindo, de qualquer maneira, todo o engrandecimento pessoal reservado aos viajantes. Don't you agree?"

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

Mais conteúdo sobre:
Viagem Mr Miles

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.