Letras e melodias que vieram de berço

O primeiro endereço da corte do rei A simpática casa azul de número 13 na Rua João de Deus Madureira, no bairro Recanto, perto do centro, pode até passar despercebida por quem visita desavisado a cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Mas basta perguntar a qualquer morador pelo filho famoso da cidade para descobrir que naquele endereço nasceu, há 71 anos, Roberto Carlos Braga. Então um garoto como outro qualquer, ele adorava a ladeira para brincar de bicicleta e carrinho de rolimã. Morou ali até os 13 anos com a mãe (a famosa Lady Laura), o pai e os três irmãos. Comprado em 2000 pela prefeitura, o espaço foi transformado na Casa de Cultura Roberto Carlos (28-3155-5257), e expõe fotos, discos e instrumentos musicais de um dos cantores mais festejados da história do País. Já a cidade, que hoje tem pouco mais de 200 mil habitantes, conheceu a fama depois que a música Meu Pequeno Cachoeiro, composta por um certo Raul Sampaio e gravada por Roberto Carlos em 1969, estourou. O apego do rei ao lugar é tão grande que, em 2009, Roberto Carlos fez questão de iniciar sua turnê comemorativa de 50 anos de carreira no Estádio do Sumaré, lá mesmo, em Cachoeiro. Turisticamente a região atrai com opções de caminhada e escalada - os picos do Itabira (600 metros de altitude) e da Pedra da Penha (1.100 metros) são os principais mirantes. Outra curiosidade é a excêntrica Fábrica de Pios de Aves Maurílio Coelho, que produz apitos de madeira que imitam, claro, sons de aves. Outro cachoeirense famoso é o escritor Rubem Braga, cujo nome batiza o teatro municipal.   'Mama África' entre as vielas de Catolé  Foi nas ruas de sua cidade natal que o cantor Chico César gravou o videoclipe de seu maior sucesso. Enquanto desfia os versos de Mama África (1995), que falam de uma mulher que luta para sustentar os filhos, Chico circula pelas vielas de Catolé do Rocha, no interior paraibano, seguido por uma multidão - os tais filhos da protagonista da música. O nome curioso da cidade mistura o de um de seus fundadores - o tenente coronel Francisco da Rocha Oliveira, que, em 1774, ergueu uma capela ali -, e o de uma espécie de coqueiro muito farta na região, o catolé. A Casa do Béradêro, ONG criada por Chico César - hoje, secretário de Cultura da Paraíba -, tem oficinas de música e dança e apresentações. O Monte Tabor é o melhor mirante local. Lá de cima (o caminho tem calçamento), uma bela vista da cidade e do verde que a cerca.   Existe outra cidade igual a Brejo da Cruz? Há um dito popular em Brejo do Cruz, a 300 quilômetros de João Pessoa, segundo o qual quem bebe de suas águas volta para matar as saudades. O cantor Zé Ramalho, que nasceu lá, criou outra forma de lembrar de sua cidade natal. Na canção homônima, ele canta, em ritmo de blues: "Eu não me lembro se existe uma cidade igual a Brejo do Cruz". Apesar da período de estiagem, a água que jorra ali é tida como o maior patrimônio local. Tanto que a fertilidade do solo atraiu agricultores por volta de 1750. O poço mais tradicional é o Cacimbão, onde os moradores se refrescam, já que fica perto do centro da cidade de 13 mil habitantes. Outros lugares para relaxar são... as redes. De origem indígena, são feitas em pequenas fábricas como a Nijota (83-3443- 2408) e a Tecelagem Itamaracá (83- 3443-2138), que vendem as peças por preços de R$ 15 a R$ 40. Moringas de barro do sítio Santa Rosa também fazem sucesso.   Daniel e rafting, a cara da paulista Brotas A relação entre rafting, Brotas e o cantor romântico Daniel é, no mínimo, curiosa. Cada um dos ingredientes ajudou a fazer a fama do outro. O nativo mais famoso da cidade - há pôsteres autografados dele pelo comércio local - sempre lembra publicamente sua terra natal, embora não tenha feito nenhuma canção para homenageá-la. Em entrevistas, costuma recomendar passeios de ecoturismo, principal atividade na região. O Rio Jacaré-Pepira é um dos melhores do Estado para rafting e boia-cross. A melhor época para a se aventurar pela correnteza vai de novembro a abril. O percurso de rafting com 4h30 de duração custa a partir de R$ 85 por pessoa na Canoar. Com crianças, o Hotel Fazenda Primavera da Serra oferece boa estrutura, passeios de charrete, pescaria e caminhada até a Cachoeira do Martelo, com 55 metros de altura.   Filhos pródigos. De Dona Canô e de Santo Amaro Prestes a completar 105 anos (em 16 de setembro), Dona Canô é a personalidade mais famosa de Santo Amaro, cidade de cerca de 58 mil habitantes a 72 quilômetros de Salvador. Mãe de duas das figuras mais ilustres da música brasileira, Caetano Veloso e Maria Bethânia, ela costuma abrir sua casa aos turistas, principalmente durante as festas de São João, quando a mesa fica repleta de comidas típicas. Além de terem gravado músicas em homenagem à cidade - Caetano fala de sensações em Céu de Santo Amaro e Bethânia, de amor em Santo Amaro - os dois voltam ao menos uma vez por ano à cidade natal, no aniversário da matriarca. Que se mantém ativa ao organizar, por exemplo, a festa da padroeira Nossa Senhora da Purificação, em 2 de fevereiro - um ritual que lembra a Lavagem do Bonfim de Salvador, só que nas escadarias da igreja local, concluída em 1700 e decorada com azulejos portugueses e pinturas a óleo. No entorno, visite cachoeiras como a do Urubu, com 38 metros de altura e cinco quedas d'água. O acesso é por caminhada, com guia. Informações no telefone (75) 3241- 8600. Para cultura e história, o Museu do Recolhimento dos Humildes (75-3241-1394) possui valioso acervo de móveis do século 19 e arte sacra.   Refúgio mineiro de Milton, com aroma de café "Vem depressa, na estação / Pra ver o trem chegar / É dia de festa..." Na canção Três Pontas, de seu disco inaugural Travessia (1967), Milton Nascimento celebra a cidade que o viu crescer e começar a carreira. Bituca, como Milton ficou conhecido na cidade mineira, não nasceu ali. Mas foi homenageado com o centro cultural que leva seu nome (Rua Celso Gazola, 23). E volta sempre que pode: o próximo show em Três Pontas será em 8 de setembro, parte da turnê comemorativa de seus 50 anos de carreira. Ingressos a R$ 40. Mais: ingressos@maroloproducoes.com.br. Outro filho famoso da cidade é o jazzista Wagner Tiso, que, nos anos de 1960, também fez parte do movimento Clube da Esquina. A 290 quilômetros de Belo Horizonte, Três Pontas tem turismo rural - há quem a chame de capital mundial do café - em fazendas abertas a visitantes. O Hotel Fazenda Pedra Negra tem museu e nove quartos na casa de 1880.   Duas Barras vale um samba de Martinho A Vila Isabel está até no nome artístico. Mas, como confessa na música Meu Off Rio (1994), o coração de Martinho bate também por outro lugar. "Nos arredores, Cantagalo, Teresópolis / Nova Friburgo e Bom Jardim, bem no caminho / Meu off Rio tem um clima de montanha..." Não descobriu? Ele faz mesmo questão de manter o segredo: "Se alguém pergunta, eu não digo / Onde fica o tal lugar / Mas canto um samba para quem adivinhar". A gente assopra: trata-se de Duas Barras, na região serrana do Rio de Janeiro, a 180 quilômetros da capital, onde o cantor nasceu. Parapente, trilhas e pescaria são atividades altamente recomendadas na cidade. O centrinho é pacato, com praça, coreto e eternas partidas de dominó. Até o cantor Lenny Kravitz descobriu a paz do lugar. Depois de visitar as cachoeiras Alta e do Tadeu, fica fácil entender porque o pop star americano comprou uma fazenda lá. E porque, até na canção, o sambista reconhece que "A minha Vila fica meio enciumada".   Axé, bossa nova e os vapores do Velho Chico O que o axé de Ivete Sangalo e a bossa nova de João Gilberto têm em comum? A procedência. Ambos são baianos da mesma terra, Juazeiro, e do mesmo rio, o São Francisco - ainda que tenham construído suas carreiras longe dali, em Salvador e no Rio. Ainda pouco explorada turisticamente, Juazeiro tem como atração o Museu Regional do São Francisco (74-3612-3055), que funciona em um prédio de 1925. O acervo inclui documentos, fotos, móveis, roupas e peças dos barcos a vapor que navegavam pelo rio, além de uma biblioteca sobre o Velho Chico. Ali ao lado fica o Vapor Saldanha Marinho, popularmente conhecido como Vaporzinho. A primeira embarcação do tipo a navegar pelas águas do Rio São Francisco - a partir do final do século 19 - hoje vive em uma praça. Para quem quiser navegar, aos sábados o Vapor do Vinho circula pela represa de Sobradinho, ali perto. São oito horas de passeio, que inclui parada e degustação na vinícola Ouro Verde. Custa R$ 90 por pessoa e pode ser reservado no site vapordovinho.com. O proprietário, Rogério, também monta passeios sob medida. Em junho de 2011, quando completou 80 anos, a cidade preparou uma série de homenagens a João Gilberto, com exposições e shows no centro de cultura que leva o nome do ícone da bossa nova (centrodeculturajoaogilberto.blogspot.com.br). O espaço tem uma sala de espetáculo com 300 lugares e um anfiteatro externo com capacidade para 1.500 pessoas.

O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2012 | 03h11

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