Lições de Sir Pancratius

'Há várias razões que levam uma pessoa a desprezar a viagem de outra. A inveja é uma delas'

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2015 | 02h06

Uma coisa é certa. Apesar de tentar ser o mais agradável possível, nem sempre mr. Miles agrada a todos os seus leitores. Nosso viajante, porém, admira o fair-play e não se recusa a publicar a correspondência contrária, como a da leitora que discordou de sua afirmação de que "voltar faz parte de uma viagem", publicada semana passada.

Bom dia!

Discordo do senhor totalmente. Viajo bastante e noto que, ao voltar, ninguém quer ouvir os meus relatos. Esse mundo, cada vez mais idiota, mudou, e está tão competitivo que a pessoa que não viaja quer tirar toda a importância da viagem da outra. Minhas lembranças e experiências vão morrer comigo. Mas pode deixar que eu valorizo cada momento, e posso reviver tudo nas conversas com meu marido e companheiro de aventuras. Obrigada pelos textos sempre enriquecedores!

Luelyn Jockyman, por e-mail

"Well, well, Luelyn: pelo menos o seu marido (e companheiro de aventuras) compartilha suas viagens! Como isso é bom! Quando alguém mais sabe quais emoções você viveu, que surpresas teve, de que detalhes mais gostou, etc., é como se você tivesse guardado sua viagem no seu computador e em algum hard disk alheio. Se um dia a memória lhe falhar, você pode recorrer às lembranças alheias. E, of course, ainda há uma terceira opção: preencher o vácuo de seus relatos com inteligência e fantasia, qualidades, besides, que se adquire viajando.

Vejo, however, pelo tom de sua correspondência, que você se refere ao mundo como ?idiota? e que as pessoas andam tão mesquinhas que nem sequer querem ouvir o que as viajantes têm a contar. Não fique tão raivosa, dear Luelyn. Shame on them! Don?t you agree?

O fenômeno dos ouvintes renitentes não é novo e está arrolado no Grande Livro dos Fenômenos Viajores, tomo 12, capítulo 57, alínea B, de autoria de Sir Pancratius Mortimer II, notável docente da Universidade de Cambridge na cadeira de Patologia Forense.

As you see, viajar não era a especialidade de Sir Pancratius. However, observar viajantes, suas reações, metamorfoses e atitudes tornou-se, ao longo dos anos, um hobby do venerando mestre que, no seu dia a dia, tinha, convenhamos, muito pouco contato com a alma humana.

Pois diz Sir Pancratius que há diversas razões que levam alguma pessoa a desprezar a experiência de viagem de outra. A inveja, of course, é uma delas. A segunda, em geral, é de responsabilidade de quem está contando: quando falta-lhe objetividade, humor, carisma ou, apenas, se o narrador é francamente chato, sua audiência tende a ? nessa ordem ? bocejar, tossir e dispersar. Há mais um motivo nada desprezível: viajantes frequentes (como eu) tendem a falar mais de lugares remotos ou encantadores do mundo do que dos filmes que estão fazendo sucesso na cidade. E, para quem não viaja, o cinema é muito mais acessível. Don?t you agree?

Por fim, darling, Sir Pancratius Mortimer II menciona, na rubrica Interesses Divergentes, a completa ausência de empatia que pode ocorrer na conversa entre viajantes e ouvintes com interesses opostos. For instance: você está falando maravilhas sobre o Museu Rafael Larco Herrera de Arte Pré-Colombiana, em Lima, no Peru, e a sua plateia odeia o que chama de ?programa de índio?. Nesse caso, tente mudar de assunto e dê o preço das liquidações do Sawgrass Mills, em Fort Lauderdale. É possível que a conversa, aí sim, fique muito animada."

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos 

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