Cecília Cussioli/Estadão
Cecília Cussioli/Estadão

Ilhas Maldivas, refúgio luxuoso e saudável de casais. E de solteiros também

Com 80% de seu território a pouco mais de um metro acima das águas, o arquipélago é para quem busca sossego e exclusividade

Cecília Cussioli, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2016 | 05h00

MALÉ - Cada dia nas Maldivas é um exercício cauteloso de contemplação do fim. Cada dia é uma lembrança da frágil vida à mercê do mar. Vinte e quatro horas a menos no coma vagaroso que vive o paraíso. Dizem que em cem anos as ilhas serão completamente engolidas pelas águas. Uma agonia nobre.

Visto do céu, o arquipélago de Maldivas se apresenta como uma obra de arte: pontos brancos pincelados aleatoriamente em uma tela de tinta turquesa com textura de mármore. São como pérolas dispersas sobre a vasta área de 90 mil quilômetros quadrados no meio do Oceano Índico, a 660 quilômetros da costa do Sri Lanka. As quase duas mil ilhas são um verdadeiro capricho da natureza.

VÍDEO: Relaxando nas Maldivas

Lagoas marinhas de água cristalina, areia branca e fina como talco e recifes de coral, que preservam um ecossistema diverso, encantando quem se aventura a nadar nas águas verde-azuladas. Arraias, tartarugas e tubarões podem ser facilmente encontrados nos mergulhos mais distantes da costa. Em cada ilha, um resort especializado em mimar seus hóspedes. A reputação hedonista e luxuosa estampa capas de revistas e editorias de moda todos os verões. O arquipélago é destino certo de supermodelos, jogadores de futebol e casais em lua de mel. Turistas intensos, apaixonados e cheios de pressa. Mas que aqui, escolhem as ilhas para desacelerar. 

Cada resort nas Maldivas está em sua própria ilha privada. São cerca de 100 opções, e a escolha do refúgio paradisíaco determina toda a experiência da viagem, já que raramente o turista é instigado a explorar o lado de fora. No topo da lista, os hotéis mais exclusivos do mundo competem para atingir patamares de luxo cada vez mais altos: de mordomos e piscinas privadas até menu de almofadas. Há estabelecimentos que apostam na diversão para famílias, outros que exploram atrações para surfistas e mergulhadores profissionais, e os que garantem a calma e a privacidade para quem quer se esconder na natureza. No país que tem uma das cidades mais densamente povoadas do mundo, é possível se sentir em uma ilha deserta. 

Microcapital. Com pouco menos de 160 mil habitantes, Malé não tem mais do que 6 quilômetros quadrados. Mais de um terço da população de 393 mil habitantes vive na capital. Ao contrário dos turistas dos balneários de luxo, essas pessoas têm pressa de partir. 

Maldivas é uma das regiões mais vulneráveis à elevação do nível do mar em função do aquecimento global. Pelo menos 80% do arquipélago está a pouco mais de um metro acima das águas, e estima-se que, nesse ritmo, até 2100 se tornará inabitável. Os maldivianos se tornarão refugiados climáticos e a hotelaria estará debaixo d’água – e não será a primeira vez. 

Em dezembro 2004, o tsunami provocado pelo terremoto na Índia devastou boa parte do território do arquipélago. Dois terços de Malé foram inundados e alguns dos principais resorts das ilhas ficaram completamente submersos. Dez anos depois, novos hotéis – ainda mais luxuosos – se estabeleceram na ilha e a capital se escondeu dentro de um muro. O paredão de três metros de altura é a única visão que boa parte dos turistas têm da cidade. O aeroporto, construído em uma ilha própria, facilita o serviço de boas-vindas dos hotéis. Hidroaviões e barcos buscam seus hóspedes logo no desembarque. 

SAIBA MAIS

Aéreo: quatro companhias vendem o trecho São Paulo-Malé-São Paulo: Turkish (US$ 1.333); Qatar (US$ 1.481); Etihad (US$ 1.600); e Emirates (US$ 1.680).

Visto: não é necessário

Site: visitmaldives.com

*A repórter viajou a convite do One&Only Reethi Rah.

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Taças e hábitos restritos aos resorts

Artigos religiosos, carne de porco e álcool não entram, o que pega de surpresa casais em lua de mel com suas garrafas de champanhe

Cecília Cussioli, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2016 | 04h50

A partir do desembarque no aeroporto de Malé, no trajeto até a sua bolha paradisíaca, é possível ver a muralha que isola a capital. Um isolamento que representa a marcante separação entre turistas e habitantes.

Ainda no avião, a comissária entrega o primeiro indício dessa segregação turística: o formulário aduaneiro. Artigos religiosos, carne de porco e álcool não entram, o que pega de surpresa casais em lua de mel com suas garrafas de champanhe compradas nos free shops das conexões até lá. As Maldivas são um país de governo islâmico e a lei determina que a população, em sua maioria muçulmanos sunitas, não pode praticar outras religiões, comer carne suína e consumir bebidas alcoólicas. 

Mas nada disso se aplica aos territórios ocupados pelos resorts. A primeira garrafa de bebida costuma ser presente do hotel, logo no check-in. 

A economia das Maldivas, anteriormente baseada na pesca, hoje depende do turismo. O arquipélago recebe anualmente mais de 1 milhão de visitantes, a maioria chineses e europeus. Mais de 60 mil estrangeiros vivem nas ilhas para trabalhar no lucrativo setor. A escassez de combustível e alimentos e a dificuldade geográfica de abastecimento fizeram muitos hotéis criarem uma cultura quase de subsistência, com plantações orgânicas. 

O governo enfrenta obstáculos para a formulação de políticas públicas – uma vez que a justiça está subordinada à sharia, a lei islâmica – e estratégias de desenvolvimento, principalmente em um cenário de constante instabilidade política.

Em 2012, acusado de corrupção e terrorismo, o presidente Mohammed Nasheed foi obrigado por militares a renunciar após várias semanas de protestos instigados pelo ex-ditador Maumoon Abdul Gayoom. No ano seguinte, o meio-irmão de Gayoom, Abdulla Yameen, foi eleito presidente. Em março de 2015, o ex-presidente Nasheed foi condenado a 13 anos de prisão, em um julgamento que a ONU considerou injusto. Poucos meses depois, o vice-presidente foi preso por arquitetar o assassinato de Abdulla Yameen, colocando o país em alerta, e proibindo a circulação de pessoas entre as ilhas. 

Nas calmas águas turquesas das pérolas do Índico, fora do muro, tudo parecia igual.

Saiba também! Calcule entre US$ 150 e US$ 200 por dia para gastar com refeições, pensando em almoço e jantar. Os resorts oferecem pacotes com meia pensão ou pensão completa, mas veja sempre quais restaurantes estão incluídos.

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Cecília Cussioli, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2016 | 04h50

 

São sete da noite e o dia começa a cair nas Maldivas. De frente para ocaso, em uma plataforma construída sobre as águas, Julia se despede do sol. “Tenho o melhor escritório da ilha”, garante a instrutora de ioga. Melhor escritório do mundo, muitos diriam.

No resort One&Only Reethi Rah, a agenda para as aulas de ioga e pilates é a mais lotada. Aulas particulares no “escritório de Julia” são quase impossíveis. Há quem agende um horário antes mesmo de chegar ao país. A combinação de paisagem e solidão cria um ambiente ideal para meditar e se reenergizar. 

O Reethi Rah atualizou minhas definições de luxo. As instalações são confortáveis e bem decoradas; a prataria, impecável. Há lojas exclusivas como se espera em resorts dessa categoria. Aqui, vende-se sobretudo privacidade.

Cada hóspede tem sua própria vila, que além de acomodação oferece uma exclusiva fatia do paraíso. A única decisão é optar por casas na praia – a diária mais em conta, que começa em US$ 1.190 por noite – ou palafitas sobre o mar, com tarifa mínima de US$ 1.800. Também fica no hotel a vila que é considerada uma das acomodações mais luxuosas do planeta, batizada de Grand Beach Villa, com piscina privada de 160 metros quadrados, salas de estar e de jantar e dois quartos. Aqui, a diária pode chegar a US$ 42 mil. Site: bit.ly/oreethirah.

 

 

Cada uma das 128 vilas são perfeitamente projetadas para maximizar a sensação de isolamento, eliminando os pontos de vista dos alojamentos adjacentes. É possível passar dias no hotel lotado sem cruzar com ninguém. 

A ilha é grande o suficiente para exigir bicicleta (ou carrinho elétrico) para ir de um lado ao outro, viajando por longas trilhas de areia, sombreadas por uma densa floresta de palmeiras. Todos os caminhos levam ao sol. 

Com ar de sofisticação descontraída, é possível se sentir em casa. Um lar com sete diferentes cozinhas, comandadas por premiados chefs que criam experiências gastronômicas a cada noite. Escondido no ponto mais ao norte da ilha, diante da praia, o restaurante Fanditha serve especialidades árabes acompanhadas de vinhos rosés e champanhes. Já no jardim do Chef's Garden é possível apreciar a simplicidade de um jantar completamente orgânico, feito exclusivamente com produtos cultivados no próprio hotel. 

Um premiadíssimo SPA completa a experiência de autoindulgência. 

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Cecília Cussioli, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2016 | 04h50

Para quem decide passar um tempinho na capital Malé (sim, há hotéis; o site oficial das Maldivas lista vários “city hotels”), há dois passeios interessantes. Mas o mar ocupa 90% do território do país, e é nele que estão as atividades indispensáveis.

Hukuru Miskiiy. Visite a mesquita mais antiga do país, de 1656, feita de pedra coral e decorada com escrituras do Alcorão. Construída sobre os alicerces de um templo antigo, o interior é interessante e famoso por seu trabalho de laca fina e esculturas elaboradas de madeira. Um longo painel, esculpido no século 13, comemora a introdução do Islã nas Maldivas. 

Mercado de Produtos e Mercado de Peixes. Ainda na capital, não deixe de conhecer o mercado onde moradores do país inteiro se encontram para vender produtos de cultivo familiar e importados. Cocos e bananas são os produtos mais abundantes por ali. Outro interessante ponto em que os habitantes se abastecem é o mercado de peixes, próximo ao porto. Peixes, polvos e mariscos são trazidos diretamente da pescaria do dia, fresquíssimos, e limpos em bancas por ali mesmo. O movimento é mais intenso no meio da tarde, quando os pescadores voltam com barcos cheios. 

Hammerhead Point. Também conhecida como Rasdhoo Madivaru, Hammerhead Point é o local de mergulho mais impressionante dos recifes das Maldivas. Tubarões-martelo, arraias e outros animais de grande porte são visitantes frequentes. Fora das barreiras do recife, a profundidade é de mais de 200 metros de água excepcionalmente cristalina. Os mergulhos em Hammerhead geralmente começam antes do amanhecer, descendo por volta das 6 horas para uma maior chance de encontrar os animais. 

Restaurante subaquático. As mesas do Ithaa, restaurante no resort Conrad, ficam dentro de um túnel de vidro, a uma profundidade de 5 metros sob as águas. Serve apenas refeições em formato de menu degustação: quatro pratos no almoço e seis no jantar. Reserve: bit.ly/maldivasithaa.

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O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2016 | 04h50

 

Emirados Árabes.

Com duas opções de conexão às Maldivas desde o Brasil, em Dubai e Abu Dabi, o país complementa os dias de praia e calmaria no Índico com compras, gastronomia e diversão. Dubai inaugura nesta quarta-feira, 31 de agosto, a sua ópera; Abu Dabi prevê para o fim deste ano a abertura de sua filial do Louvre

Qatar.

Sede da Copa do Mundo de futebol de 2022, o país vai na mesma linha dos Emirados Árabes (e pode ser uma alternativa para quem curte o estilo e quer variar): prédios superlativos, compras, gastronomia. A ilha artificial The Pearl reproduz marinas e um estilo mediterrâneo em pleno Golfo Pérsico. O Museu de Arte Islâmica é o principal atrativo da capital, Doha. Site: visitqatar.qa.

Sri Lanka. 

Ao sul da Índia, a ilha propõe imersão cultural. Templos budistas, florestas, parques naturais como o Uda Walawe, elefantes e as ruínas de Anuradhapura, capital do Sri Lanka por mais de um milênio, são as atrações. Voe à capital, Colombo (Eithad, Emirates, Turkish e KLM), e vá às Maldivas (ou volte) de SriLankan. Atenção: deixe bastante tempo para a conexão. 

Europa.

Para combinar Maldivas com Europa, considere Londres e Viena: Austrian e British são as únicas empresas aéreas do continente que voam direto ao arquipélago. Do Brasil, você não consegue comprar nos sites as passagens conectadas. Nesse caso, será indispensável pedir ajuda a um agente de viagens.

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