Malta: sol, mergulho e história

Nicholas de Piro não parece um monge guerreiro. Enquanto percorria o palazzo do século 16, o venerando senhor parecia mais propenso a me oferecer uma xícara de chá do que a matar alguém em nome de Cristo. Seu palácio, denominado Casa Rocca Piccola, está aberto ao público em razão do seu valor histórico.

ELISABETH EAVES / MALTA , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2014 | 02h06

A ordem de Nicholas de Piro, os Cavaleiros de Malta (oficialmente, a Ordem Soberana e Militar Hospitalária dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta) tornou-se notória pela violência e desordem que espalhou no início do século 16, seu apogeu, e ainda no século 18. Originários das famílias mais nobres da Europa, os Cavaleiros deixavam a pátria sob votos de castidade e obediência, e partiam para combater os infiéis. Hoje, a ordem não vai mais a guerras - cuida de doentes e pobres. Entretanto, ao chegar à porta do palácio de Piro, em Malta, no Mediterrâneo, eu não sabia que ela ainda existia.

A história de Malta - um arquipélago a 80 quilômetros ao sul da Sicília - é repleta de episódios funestos. Hoje, porém, é difícil apontar um lugar do país onde não se encontre paz e segurança. Suas águas cristalinas de um azul intenso proporcionam o melhor snorkeling e a mais interessante prática do mergulho na Europa. As praias de Malta, suas baías circundadas por rochedos, colinas áridas e seu clima quente, há muito atraem os vizinhos do norte à procura de um lugar ao sol para veranear a preços acessíveis.

A tranquila superfície do país oculta um passado extraordinariamente rico - foi governada por fenícios, gregos, cartaginenses, romanos, bizantinos e árabes, entre outros. Depois de brevemente conquistada por Napoleão, na virada do século 19, Malta passou décadas sob o governo inglês, antes de se tornar independente em 1964.

Fundada durante as Cruzadas, a Ordem dos Cavaleiros Hospitalares de São João estabeleceu-se em Malta em 1530 e deixou marcas indeléveis. Castelos, catedrais e Valeta, ainda hoje a movimentada capital da nação, foram edificados a mando dela.

Em um passeio pelas ruas de Valeta, definida pela Unesco como "um dos lugares históricos mais preservados do mundo", me dei conta de que estava na cidade construída pelos Cavaleiros. O traçado racional das vias que o arquiteto Francesco Laparelli, ex-assistente de Michelangelo, criou há centenas de anos, continua intacto e torna quase impossível perder-se na cidade.

Para compreender até que ponto a geografia influenciou a história de Malta, dei uma volta de táxi aquático pelo Grande Porto. A baía de pouco mais de 3,5 quilômetros foi alvo de cobiça de muitas potências navais. Hoje, suas águas são sulcadas por todo tipo de embarcações, dos barcos a remos de madeira de cores vivas, chamados dghajsa, aos "barcos-disco", alugados nas noites dos fins de semana para festas.

Contei quatro importantes fortificações - além de Santangelo (em reforma, deve reabrir em 2015), há o Forte Ricasoli, Santelmo e San Michele. Vi as muralhas abruptas de Valeta de um novo ângulo, erguendo-se a mais de 80 metros, onde o jardim público Upper Barrakka oferece a visão de um conquistador do trecho abaixo. Era isso que todos que tentaram conquistar Malta queriam: um porto bem defendido no meio de um mar repleto de embarcações.

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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