Maratona para os olhos - e para o estômago - em Viena

A navegação até Viena durou apenas o período da noite, já que a capital austríaca está em torno de 65 quilômetros de Bratislava. Desembarcar no início da manhã, já com os olhos medicados (o que é o poder de um antibiótico!), me deu ânimo para, literalmente, ver tudo o que pudesse. Viena foi a cidade em que passamos mais tempo atracados, aproximadamente 15 horas. Suficiente para ter uma ideia da cidade, mas muito aquém da atenção que ela merece, como pude constatar no fim do dia.

VIENA, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2012 | 03h09

Viena se desenvolveu de forma circular, com 23 bairros. O centro histórico corresponde à área da antiga vila medieval, então cercada por uma muralha, para se defender de ameaças constantes (como os turcos, que estiveram na Hungria por 150 anos). A cidade teve um grande desenvolvimento durante a Idade Média em razão de sua localização. Mercadores passavam por ali, deixando dinheiro de impostos e produtos novos para o comércio local. Viena cresceu, e as pessoas passaram a morar fora das muralhas - daí os bairros ao redor terem no nome a palavra dorf, "aldeia" em alemão.

Em 1858, o imperador Francisco José mandou derrubar a muralha e promoveu uma mudança visual em Viena, construindo em seu lugar a Ringstrasse. Com quatro quilômetros de extensão, a via tem formato de ferradura, apesar de ter sido batizada de "anel". Muito do esplendor da capital austríaca se encontra nela (em construções como a Ópera de Viena) ou em seu entorno, repleto de museus (entre eles, o da Secessão, com sua cúpula dourada, e as instituições do MuseumsQuartier, um quarteirão de arte).

Andar pela região circundada pela via foi um dos meus passeios preferidos. Lá estão a Catedral de Santo Estevão, lojas e cafés. Após percorrer a Graben, umas das principais ruas do centro antigo, virei na Kohlmarkt, onde marcas internacionais desfilam ao lado da tradição da Demel, confeitaria do século 19.

Meu almoço foi a umas duas quadras dali, no Café Central. Aberto em 1876, o lugar recebia gente como Sigmund Freud no início do século passado. Comi um schnitzel, autêntico prato vienense. A apetitosa milanesa, servida com batatas e limão para espremer em cima, é encontrada nos livros de receita da cidade desde o século 18. Prepare-se, a vitrine de sobremesas do Café Central é uma perdição.

Voltando pela Herrengasse (rua do Café Central), encontrei o Palácio Imperial (Hofburg), durante 600 anos ocupado por imperadores. A imensa construção abriga vários museus no centro de Viena. Os Habsburgos governaram a Áustria até o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, e deixaram sua marca em toda parte. Mulher de Francisco José (aquele que mandou construir a Ring), a imperatriz Elizabeth é onipresente. Além de ter museu próprio, Sissi, como é conhecida, estampa de quadros a souvenirs. Neste ano, tem programação especial para marcar os 175 anos de seu nascimento.

Fiquei morrendo de vontade de visitar a residência de verão da imperatriz Sissi, com suas 1.441 salas. O suntuoso Palácio de Schönbrunn era o destino do passeio opcional oferecido pela AmaWaterways aos passageiros à tarde. Preferi conhecer melhor a capital austríaca e deixar Schönbrunn para uma próxima vez, com mais calma. Fui, então, ao Albertina conferir Monet Bis Picasso (Monet a Picasso), com quadros de vários dos meus pintores favoritos. Ao lado de obras dos artistas que dão título à mostra, pinturas de Paul Cézanne, Amedeo Modigliani e Henri Matisse, entre outros, contam o Modernismo. A exposição, antes temporária, foi reorganizada e reaberta em março como parte da coleção permanente do museu.

Na praça logo em frente ao Albertina, há as tradicionais carrocinhas de salsicha vienense. Eu não aguentava mais comer, mas era questão de honra provar uma legítima em Viena. Outra renomada guloseima da cidade pode ser provada na rua ao lado, mas essa é bem mais refinada. Na Philharmonikerstrassee, em clima imperial e com garçonetes vestidas de copeiras, o Café Sacher serve a sacher-torte original, receita inventada em 1832. A torta é puro chocolate e vem recheada com geleia de damasco. Se for fã de massas mais molhadas, acrescente o creme que a acompanha.

Voltei para o barco para me recompor da maratona. Quando a noite caiu, fui conhecer um heuriger, como é chamada tanto a taverna que serve apenas vinhos produzidos pela família proprietária, quanto o vinho jovem, fruto da última colheita. Na Mayer am Pfarrplatz, provei um pot-pourri de aperitivos e pratos austríacos, acompanhados de vinho branco e tinto. A taverna fica na casa onde Ludwig van Beethoven viveu em 1817. Não poderia ter uma maneira melhor de encerrar a visita a Viena e de brindar a um dia sensacional. /N.M.

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