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Maravilha de cenário

"Cinematográfico" é daqueles adjetivos manjados no turismo. Basta falar de qualquer destino com paisagens espetaculares que lá vem o clichê: é um lugar cinematográfico. O Brasil, contudo, está repleto de cenários que se encaixam, literalmente, nesta categoria. Basta dizer que o País baterá este ano seu recorde de produções, com 115 lançamentos até o fim de 2013 - a média dos últimos anos foi de 80 filmes. Motivo de sobra para falar de cantos tão interessantes a ponto de virarem, de fato, locações de cinema.

FELIPE MORTARA, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2013 | 02h18

Não se trata apenas de beleza, mas de ambientes com algo a mais. "É preciso ter uma relação de prazer e empatia com o lugar para que seja bom para filmar. Há alguns superinteressantes, mas que se você põe uma câmera, destrói. É preciso achar uma locação que tenha alma cinematográfica", explica Marcelo Gomes, diretor do premiado Cinemas, Aspirinas e Urubus (2005), rodado em Cabaceiras, no sertão da Paraíba. Cenário aparentemente inóspito, mas que, além de ganhar o apelido de Roliúde Nordestina pelas inúmeras produções rodadas ali, atrai milhares de turistas anualmente.

O cinema pode servir de inspiração para o turismo, segundo Heitor Dhalia, diretor que trouxe um recorte voraz do garimpo no meio da Floresta Amazônica em Serra Pelada (2013). "O cinema é muito potente na construção do imaginário. Possui o poder de teletransportar o espectador", afirma. "E o turismo também te tira da vida comum e leva a outras experiências de vida, de sabores. A um universo que não é o seu cotidiano." Para o ator e diretor Carlos Alberto Riccelli, a tela ajuda a tornar tudo mais familiar. "O seu jeito de entender e vivenciar as cidades que viu no cinema é diferente, já vem com a mítica dos filmes que você assistiu", acredita.

Engana-se quem pensa que lugares turísticos, cuja imagem é muito explorada, não possam ser observados por outro ângulo. "Sem dúvidas que um ponto turístico pode sediar uma cena. Desde que exista um sentido para estar ali, que seja orgânico com a história", opina Monique Gardenberg, diretora de Ó Paí Ó, que transformou Salvador em um grande set de filmagens em 2007.

"O Pelourinho vive do turismo. E procurei mostrar as diversas formas que aquelas criaturas exuberantes inventam para garantir a sua sobrevivência. Desde trançar cabelo até ler búzios ou tirar foto de pobre com gringo", lembra Monique.

René Sampaio, diretor de Faroeste Caboclo (2012), fez seus personagens reviverem a Brasília underground dos anos 1980. "O importante é o lugar servir à história. E não fazer com que a história se adapte a ele", defende Sampaio, brasiliense apaixonado pela capital federal, que aponta também a importância do olhar afetivo da câmera com a cidade. "Da minha Brasília o filme carrega a imensidão do céu, dos espaços abertos. O sol correndo debaixo dos pilotis, por onde João de Santo Cristo foge da polícia."

Sempre ela. Principal protagonista das produções brasileiras, o Rio de Janeiro sabe capitalizar sua beleza (e seus aspectos dramáticos) em cima do cinema. De Cidade de Deus a Minha Mãe É Uma Peça - recordista de público deste ano, com 4,5 milhões de espectadores -, a capital fluminense esteve envolvida em mais da metade das 83 produções nacionais lançadas em 2012, segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Além do Corcovado e do Pão de Açúcar, o sucesso pode ser atribuído à RioFilme. Desde 1992, a empresa pública de fomento à indústria audiovisual da cidade atua nas áreas de distribuição, expansão e estímulo à formação de público. Até este mês era a única empresa do gênero no País, mas, com a recente criação da SP Cine - com o aporte inicial de R$ 25 milhões -, a Prefeitura de São Paulo pretende fazer frente à força do cinema fluminense.

Para entender o envolvimento carioca com as telonas é preciso olhar para o passado. "A primeira projeção e o primeiro registro de imagens em movimento no Brasil foram aqui no Rio, no fim do século 19", diz Sérgio Sá Leitão, secretário municipal de cultura e diretor-presidente da RioFilme.

De acordo com ele, após uma decadência política, econômica e cultural entre as décadas de 1970 e 1990, a cidade virou o jogo. "Em geral o Rio aparece muito bem nos filmes. Mesmo nos que tratam de mazelas, a cidade mostra seu potencial cultural. Isso acaba tendo impacto positivo na cidade."

De braços abertos

Pode reparar: se um filme se passa no Rio, parece que os diretores dão um jeitinho, nem que seja de relance, de incluir o Cristo Redentor em alguma cena. Uma imagem emblemática, que identifica a Cidade Maravilhosa de imediato. Mas há mais sets espalhados pela capital fluminense. Seja comédia romântica ou filmes sobre diferenças sociais, a metrópole recortada por praias e pontilhada por favelas e morros tem o set perfeito.

Em Cidade dos Homens (2007), por exemplo, ao mesmo tempo em que toca no delicado tema do tráfico de drogas, o diretor Paulo Morelli revela a estonteante vista do alto do Morro do Vidigal - numa época em que não havia Unidade de Polícia Pacificadora no local. Hoje, há ali hostels que recebem mochileiros do mundo todo, como o Casa Alto Vidigal (altovidigal.com) com diárias desde R$ 30 - e vista sem preço. Além de hospedagem, alguns pratos ganharam fama, como os que a cozinheira Léa Silva serve no restaurante Laje da Tia Léa (21-98089-9961) - experimente a feijoada aos sábados (R$ 50).

Bem diferente do agito urbano da capital, a pacata Arraial do Cabo, a 160 quilômetros da capital, mistura tranquilidade e beleza numa dimensão espantosa. Tanto que cativaram o diretor Heitor Dhalia, que viu ali as paisagens que precisava para compor o seu À Deriva (2009), com Laura Neiva e o ator francês Vicent Cassel no elenco.

A areia é branca de doer os olhos. O mar é de um azul ímpar. Mas o grande tesouro só pode ser visto com tanque e máscara de mergulho. Tartarugas, meros, lulas, lagostas, arraias e golfinhos vivem em harmonia nas ilhas do Farol e dos Porcos, nos sacos do Cherne e do Cordeiro. O filme foi rodado em uma dezena de praias como a do Forno, na Ponta d'Água e na Gruta Azul. Em um passeio de escuna de quatro horas (em média, R$ 40) é possível visitar as praias cinematográficas.

Se a saudade de um agito bater, basta correr para as vizinhas Cabo Frio (15 km) e Búzios (38 km), com sua badalada Rua das Pedras, para encontrar restaurantes, bares e vida noturna.

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