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Martinica em ritmo de calmaria

Clima tranquilo e familiar é a proposta da ex-colônia francesa. Aqui, baladas saem de cena para dar lugar a passeios pela natureza preservada e longos dias à beira-mar

Paulo Favero,

05 Dezembro 2011 | 23h00

FORT-DE-FRANCE - Até onde a vista alcança, não há sinal de badalação. Agitos são raros, celebridades passam despercebidas. Em muitos pontos, a Martinica destoa das ilhas caribenhas mais famosas: em lugar do aclamado fervor latino oferece aos visitantes paz e tranquilidade, roteiros históricos e natureza exuberante, pitadas de cultura local e uma herança francesa (a ilha faz parte do país europeu, na condição de departamento ultramarino).

 

Por tudo isso, atrai muito mais famílias com crianças, idosos e casais em lua de mel que jovens e solteiros. Um perfil que exige adaptação dos turistas aos horários locais: é comum, por exemplo, não encontrar restaurante aberto depois das 21h30.

 

"Ao contrário das ilhas colonizadas por ingleses, como Santa Lúcia e Dominica, a Martinica não é famosa por suas baladas. Quem quer diversão noturna acaba indo para estas outras ilhas", diz o martinicano Karim Confiant.

 

Mas nada disso significa marasmo - apenas que você terá de sincronizar seus horários. À luz do dia, praias agitadas ou desertas ocupam a costa nos 80 quilômetros de comprimento e 34 de largura, habitados por pouco mais de 400 mil moradores. As distâncias curtas são aliadas de quem deseja conhecer várias faixas de areia. Um carro alugado será muito bem-vindo: o transporte público deixa a desejar.

 

 

Como sempre faz calor na Martinica, a sensação é de verão eterno. A temperatura média fica em torno de 27 graus. Mas o ano é dividido em estações seca (inverno e primavera do Hemisfério Norte, entre dezembro e abril) e chuvosa (maio a novembro). O vento frequente ajuda a diminuir a sensação de calor, exatamente como nas vilas litorâneas do Nordeste brasileiro. E, mesmo na temporada, há espaço de sobra nas praias.

 

Salsa itinerante. Os esboços de vida noturna encontrados na Martinica ficam por conta dos clubes de salsa, cujos integrantes se reúnem aos sábados em uma cidade predefinida para promover espaços comunitários de dança. Às vezes há bandas ao vivo; em outras, DJs executam seus sets de salsa, o que inclui sucessos do repertório pop internacional, como músicas do U2 adaptadas. O zouk, ritmo que nasceu na Martinica, se espalhou pelo Caribe e chegou ao Norte do Brasil, também faz sucesso em tais festas.

 

"Eu não perco um evento. E acho que são importantes para que os jovens conheçam os ritmos", conta Raymond Maizeroi, morador da ilha.

 

Outra opção para quem busca algum agito noturno está em Pointe du Bout, na parte sul da Baía de Fort-de-France. Por lá, bares e restaurantes ficam abertos até um pouco mais tarde - algo como meia-noite. Trata-se de uma ótima opção para provar a culinária local, que mescla receitas francesas e creoles. Delícias preparadas com frutos do mar, ostras, porco e verduras frescas saem de cozinhas comandadas por chefs jovens e criativos, para serem acompanhadas de um bom vinho francês.

 

Entre as ruazinhas e varandas de Fort-de-France, a face urbana local

 

Entre movimentadas ruas estreitas e construções com varandas e fachadas desbotadas do começo do século 20, é no centro histórico de Fort-de-France que está o melhor da face urbana da Martinica. A maior cidade da ilha virou protagonista econômica depois da erupção do Monte Pelée, em 1902 que destruiu a então vibrante Saint-Pierre, mais ao norte.

 

Colada a Le Lamentin, onde fica o aeroporto, e a Schoelcher, que abriga a Universidade das Antilhas e Guiana, Fort-de-France concentra também os postos de trabalho da ilha, além de abrigar um quarto de sua população. O vaivém entre casa e emprego explica o congestionamento diário nos acessos à cidade.

 

Arme-se de paciência. E, quando chegar ao centro, deixe o carro em um estacionamento (há cobrança mesmo que você pare na rua). O escritório de turismo local (tourismefdf.com) sugere roteiros prontos. Mas basta ter um mapa em mãos para chegar a lugares como a praça La Savane, onde está a estátua da imperatriz Josephine, primeira esposa de Napoleão e personagem mais ilustre da Martinica. Ao lado está o Forte Saint-Louis, de 1640, em um canto de onde se tem uma linda vista ao entardecer.

 

 

Desenhada pelo arquiteto Henry Pick para a exposição de 1889 em Paris, enviada de navio a Fort-de-France e reconstruída peça por peça em 1893, a Biblioteca Schoelcher é um dos prédios mais curiosos da cidade. Vale visitar também o belo Jardim de Balata (jardindebalata.fr) e o Museu Regional de História e Etnografia (cr-martinique.fr). Entre um programa e outro, o turista esbarra em velhos conhecidos como McDonald’s, Carrefour e até Galerias Lafayette.

 

Na orla. Termine o passeio na orla, que passou por obras de revitalização e hoje conta com pista de caminhada e playgrounds. Nos fins de semana, a área vira ponto de encontro dos moradores, quando são comuns as apresentações de salsa ao ar livre.

 

Revitalização, aliás, é um desafio atual da cidade. Construída em área de manguezal, ainda tem moradores vivendo em locais insalubres. Partes importantes de Fort-de-France estão em reforma, principalmente no centro histórico e à beira-mar.

 

Um projeto ambicioso está em andamento nas imediações da zona portuária: a construção do complexo de Pointe Simon, que abrigará uma torre de 20 andares (a maior da ilha), de arquitetura moderna, com escritórios comerciais, residências e a réplica de uma vila creole. Uma típica proposta pensada para se tornar cartão-postal.

 

MUITAS FORMAS DE SE PRODUZIR O TÍPICO RUM

 

Na Martinica, rum é assunto sério. Os fabricantes locais e os apreciadores mais exigentes sabem, por exemplo, que a bebida produzida na região do Monte Pelée, com solo vulcânico e muito fértil, é completamente diferente daquela fabricada no sul da ilha.

 

Por isso, para virar um conhecedor do destilado de cana-de-açúcar que é um dos símbolos locais, vale a pena agendar ao menos dois tours, em regiões distintas. A ilha tem 11 destilarias e produz 17 variações da bebida - sem falar no Museu da Cana (cr-martinique.fr), que atualmente tem em cartaz duas exposições: Açúcar, Uma Questão Mundial e Cana de Açúcar, Literatura e Cinema.

 

A lista de destilarias famosas tem nomes como Clément (rhumclement.net), Neisson (neisson.com), Saint-James (www.saintjames-rum.com), La Mauny (rhumdemartinique.com/lamauny) e Depaz (depazrhum.com/martinique.html). Na maioria, além de acompanhar o processo de produção da bebida, você pode visitar museus ou salas especiais dedicadas à história da marca e, logicamente, adquirir suas garrafas.

 

O rum natural é claro, transparente. Envelhecida em tonéis de carvalho, a bebida adquire coloração amarelada, além de status e preços elevados. Runs envelhecidos chegam a ser comparados aos melhores conhaques.

 

Boas-vindas. Tão característico e importante para a economia da ilha é o rum que a maioria dos restaurantes tem como prática padrão oferecer um drinque de boas-vindas preparado com a bebida. O ti-punch é feito com rum, xarope de cana e limão, enquanto o planteur punch mistura o destilado com suco de frutas, como laranja, goiaba, manga e abacaxi.

 

As destilarias locais também fazem o Shrubb, uma espécie de licor de laranja, no qual a fruta é macerada no rum.

 

ENCANTADORAS FAIXAS DE AREIA NOS QUATRO CANTOS

 

LE PRÊCHEUR - Nas praias da Martinica, "farofeiros" são maioria. Não carregam a pecha de deselegantes nem viram alvo de olhares de reprovação. Levar comida, bebida, isopor, canga e cadeira é a escolha mais sensata para passar um dia à beira-mar. Explica-se: nas faixas de areia de toda a ilha, é raríssimo ver um bar ou restaurante. Existem apenas mesas para piquenique, instaladas pelo governo. O comércio fica lá do outro lado do asfalto.

 

Como consequência, a orla é tão preservada que chega a surpreender. Na costa oeste, voltada ao Mar do Caribe, as águas são calmas; na leste, diante do Atlântico, há ondas.

 

O ideal é dividir a ilha em setores e privilegiar distâncias pequenas, para não passar muito tempo dentro do carro. Com esta dica anotada, veja a seguir as porções de areia realmente imperdíveis. E monte o seu roteiro.

 

Mar do Caribe, Norte

Anse Couleuvre, uma enseadinha de mar calmo, é o destaque da face norte caribenha da ilha. A aventura começa no acesso: uma serra pequena, mas bem tortuosa, capaz de provocar frio na barriga. Da praia parte a trilha de nível médio de dificuldade para Grand Rivière, passando pela deserta Anse à Voile, em uma caminhada pelo meio da mata com vistas incríveis do Mar do Caribe.

Perto de Anse Couleuvre está Anse Cerón, na cidade de Le Prêcheur. Tranquila e bastante procurada para nado com snorkel nas formações rochosas, tem boa infraestrutura: estacionamento, chuveiros e banheiros públicos.

Em Carbet, além da beleza das praias de mar calmo e transparente, chama a atenção a vista para o Monte Pelée. O pôr do sol costuma segurar turistas na areia até o último fio de luz. E há um pequeno centro gastronômico por ali - o simpático Petibonum faz uma competente mistura das culinárias francesa e creole.

 

 

Mar do Caribe, Sul

Na porção sul da costa caribenha está a maior concentração de turistas na Martinica. Próxima do aeroporto, a área conta com rede hoteleira ampla e abriga o movimento de Pointe du Bout. Por lá ficam a bela Anse Noire, de areias escuras por causa da origem vulcânica da ilha, e a vizinha Anse Dufour, em uma vila de pescadores, considerada uma das praias mais bonitas da Martinica.

A região de Anses D’Arlet atrai visitantes que aproveitam o mar calmo para atracar seus barcos nas águas incrivelmente azuis. Muitas casas de veraneio estão localizadas na beira da areia e é possível avistar espécies marinhas com snorkel bem perto da costa. Mais ao sul, Anse Diamant fica no caminho, e deve seu nome a uma estrutura rochosa no mar em forma de diamante. Lá também se pode ver um monumento em homenagem aos escravos, dos quais 90% da população da ilha descende.

 

 

Quem procura um lugar para passar o dia inteiro deve ir a Anse Figuier, talvez a mais bela praia da Martinica. A faixa de areia é curta, o que possibilita aproveitar as sombras dos coqueiros bem perto do mar. A água, morna e transparente, oscila do azul para o verde. É uma enseada de perder o fôlego. Curiosamente, apenas nesta praia existe uma placa avisando que "todo tipo de nudismo é proibido" - nas outras, é muito comum o topless.

No extremo sul da ilha, duas praias emblemáticas: Pointe Marin e Les Salines costumam atrair jovens. Fora da faixa de areia é possível encontrar bares, restaurantes e até ambulantes que vendem cangas e alguns tipos de artesanato. Nos fins de semana, vendedores de chichi, um petisco que lembra o churros sem recheio, se instalam por ali. Ao lado, a Petit Anse des Salines é uma praia de nudismo consagrada: só se chega até lá por uma trilha a pé.

 

Oceano Atlântico, Sul

Anse Trabaud, a primeira praia visitada na costa do Oceano Atlântico, evidenciou a diferença em relação ao lado caribenho da ilha: grandes ondas tornam o mar mais apropriado a surfistas e praticantes de kitesurfe. A areia, no entanto, é mais clara e o mar, mais azul.

Banhistas ficam mais à vontade em Cap Chevalier e Anse Michel - uma barreira de corais diminui a força das ondas e torna o mar convidativo. Tanto que você vai encontrar muitos turistas por ali. Bastante frequentada também é a região de Le Robert e Le François, que têm a oferecer belos passeios de barco. Dali, os turistas são levados aos famosos Fonds Blancs, bancos de areia branquíssima localizados a quilômetros da costa. Algumas ilhotas, que serviam de entrepostos comerciais na época da escravidão, são vistas durante o passeio.

 

Oceano Atlântico, Norte

Uma visita à Península de Tartane, na parte norte do litoral atlântico, completa o circuito pelas melhores faixas de areia. Perto de La Trinité, as praias por ali têm uma paisagem bem diferente de todas as outras do restante da ilha. Há muitos pescadores e vegetação farta. Dê uma olhada em Anse l’Etang e na bela Anse Bonneville, considerada a praia dos surfistas.

 

ORGULHO E IDENTIDADE

A cultura é, provavelmente, o território no qual a Martinica melhor consegue se diferenciar da França metropolitana. Uma forte identidade local ganha corpo, voz e sonoridade na literatura, na música e mesmo no futebol. O mais ilustre dirigente político da ilha foi Aimé Césaire (1913-2008), prefeito de

Fort-de-France por décadas, mundialmente conhecido por sua obra literária e, especialmente, por sua poesia surrealista. Fundador do movimento literário da negritude com o poema Caderno de um Regresso ao País Natal (1939), o autor destacava as raízes africanas para resgatar o orgulho de ser negro entre os ex-escravos e colonizados.

 

Literatura

Crítico voraz do colonialismo europeu, Aimé Césaire foi o relator da lei que elevava algumas antigas colônias a departamentos ultramarinos da França. Por sua qualidade literária e ideias progressistas, acabou influenciando muitos movimentos de esquerda e autônomos na Martinica. O principal deles, que existe até hoje, é o que prega a independência em relação à França.

 

Césaire deixou seguidores, como o também escritor Edouard Glissant, que morreu em fevereiro deste ano, aos 82 anos. Glissant partiu do conceito de negritude de Césaire para criar ideias que batizou de antilhanidade e crioulização. Militante anticolonização e autor de um trabalho que mistura memórias, folclore, declarações polêmicas e reflexões, abriu caminho para escritores e artistas creoles mais jovens da própria Martinica, como Raphäel Confiant e o premiado Patrick Chamoiseau.

 

Música

O músico Kolo Barst, que costuma cantar em creole, foi outro dos artistas martinicanos influenciados pelas ideias de Edouard Glissant. E também aderiu ao movimento de independência da Martinica, que não é violento e usa a cultura como veículo para propagar ideias.

 

Mas, para além dos objetivos contestadores, outras manifestações culturais autenticamente martinicanas merecem a atenção do visitante. O carnaval local é a festa mais importante do ano, quando a ilha inteira se engaja nos preparativos. O formato se assemelha bastante ao carnaval brasileiro: quatro dias de desfiles, carros alegóricos, rainhas e fantasias elaboradas. No território da música popular, o zouk embala de almoços nos restaurantes de praia a apresentações ao ar livre. Outro ritmo que merece atenção é o bèlè, de origem africana, que usa tambores como base.

 

Futebol

O futebol é um dos pontos que melhor evidenciam as contradições de ser um departamento ultramarino - e não um país de fato. Apesar de estar no Caribe e ter seleção própria, resta à Martinica ceder jogadores à equipe francesa nos campeonatos internacionais. A ilha não faz parte da Fifa e compete apenas nas eliminatórias da Copa Ouro, um torneio regional.

 

Por isso mesmo, muitos moradores preferem torcer pelo Brasil a incentivar a França - especialmente os defensores da independência da ilha -, o que faz da camisa da seleção brasileira de futebol um belo cartão de visitas, capaz de despertar simpatia, quebrar o gelo e dar assunto a conversas.

 

Não são poucos, aliás, os martinicanos que já fazem planos para vir ao Brasil assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2014.

 

SAIBA MAIS

Como ir: a Air Caraïbes (aircaraibes.com) tem três voos semanais, aos domingos, segundas e quintas-feiras, desde Belém (PA) diretamente a Fort-de-France, por a partir de 502,41 (R$ 1.240). É a opção mais prática - são apenas 3h30 de voo. Via Estados Unidos, são pelo menos duas paradas - como na American Airlines (aa.com.br): o trecho ida e volta, a partir de SP, custa desde R$ 4.071,94

Visto: não é necessário

Vacina: exige-se a contra febre amarela

Moeda: euro

Idioma: francês (boa parte da população também fala o creole)

Carro: alugue um para explorar a ilha - é preciso ter mais de 21 anos. Há várias opções no próprio aeroporto

Pacotes: confira as opções no blogs.estadao.com.br/viagem

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