Simone Biehler Mateos/Estadão
Simone Biehler Mateos/Estadão

Meu coração é um guia de viagem desatualizado

Os casos de um surrado coração viajante

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

09 Janeiro 2018 | 03h00

Meu coração é um guia de viagem desatualizado. As ruas são as mesmas. Só que estão um tanto deterioradas. As placas foram mudadas (mais de uma vez) e pelos menos duas ou três vias foram rebatizadas. O herói da edição passada não sobreviveu ao revisionismo histórico do último verão. 

Meu coração é um guia de viagem desatualizado. Os restaurantes da moda de ontem vivem dos trocados de fantasmas sentimentais. Resenhas escritas por gente que já morreu ainda atraem os distraídos. E os quadros tortos na parede avisando que ali já foi o melhor qualquer coisa de 2006 me deixam emotivo. O lugar que eu não podia deixar de conhecer jaz anônimo na esquina da Bowery com a 2nd Street.

Meu coração é um guia de viagem desatualizado. Onde antes era construção, hoje passa um metrô. A nova estação facilita a vida, mas nos rouba algumas lembranças. Era bom atravessar aquela rua e alimentar a expectativa de te reconhecer. Você trabalhava naquele prédio alto que já não existe mais. Tem a loja de bordados, a loja de narguilé, a loja de bonsais, a loja de vermute e a loja de palíndromos. Só não tem aquele bar, onde a gente tomou aquela cerveja, com aquele cliente bêbado recitando um poema de E.E. Cummings.

Meu coração é um guia de viagem desatualizado. A moeda não mudou, mas está tudo muito mais caro. Quanto custa uma passagem só de ida? As regras de etiqueta também mudaram. O que antes era educado, hoje soa afetado. Algumas coisas melhoraram. Por inércia. O cinema adulto virou estacionamento que virou igreja que virou terreno baldio e agora é um parque urbano. A vizinhança que precisava ser evitada hoje é o metro quadrado mais valorizado. 

Meu coração é um guia de viagem desatualizado. Quanto custa um táxi? Quanto de gorjeta? O telefone da polícia? Preciso levar quanto de dinheiro pra passar um dia? Qual o monumento mais visitado? Que personalidade viveu naquela viela? Preciso levar agasalho? Até que horas o museu fica aberto? Que horas são no Brasil?

Meu coração é um guia de viagem desatualizado. O mapa ainda serve. Mesmo que, às vezes, me leve para cantos errados da cidade. As páginas estão amassadas, castigadas pela mochila ou por terem sido imprensadas no bolso de trás de alguma calça jeans. São tantos lugares marcados com um lápis fininho. Observações que fiz antes de pisar aqui pela primeira vez. Uma delas foi feita com caneta vermelha. Não lembro mais por qual razão. Vai ver era um lugar especial que hoje deletei da memória por instinto ou autopreservação. As páginas rasgadas por descuido são as minhas preferidas. 

Meu coração é um guia de viagem desatualizado. Um guia que eu emprestei sei lá quantas vezes. Uns cuidaram direito. Outros nem tanto. Teve quem ficasse com ele por longos anos. E ainda dissesse: “tá velho, não serve mais”. 

 Meu coração é um guia de viagem desatualizado. Eu gosto de voltar para os lugares em que já estive. Mesmo que eles só resistam nesse exemplar ultrapassado e detonado no fundo do meu peito/armário. 

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