Felipe Mortara|Estadão
Felipe Mortara|Estadão

Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2015 | 05h00

"A literatura desenvolve a solidão. Assim como estar na floresta, estar com os animais ou numa noite estrelada é desenvolver a solidão. Tu é arremessado para si mesmo" - Fabrício Carpinejar, escritor

MANAUS - Ideia esperta essa de reunir gente que adora pensar, ler, escrever e cantar, todos em um lugar único, longe do caos das metrópoles. Paraty faz isso há 13 anos com sua Festa Literária Internacional entre as ruas de pedra de seu centro histórico. Já a “Flip flutuante”, batizada de Navegar É Preciso, coloca um respeitável time de escritores e músicos para interagir com 120 leitores durante cinco dias a bordo de um navio pelas águas da Amazônia. Na edição de que participei, em abril, os autores Fabrício Carpinejar, Eliane Brum, Reinaldo Moraes e Joca Reiners Terron, mais a cantora Fabiana Cozza, eram navegantes de primeira viagem. O grupo tinha ainda o muito navegado Amyr Klink.O caro leitor interessado na próxima dessas viagens deve saber que a sexta edição, que será no mesmo Iberostar Grand Amazon, está marcada para 25 a 29 de abril de 2016. O roteiro continua contemplando o Rio Negro e o arquipélago Anavilhanas, mas o elenco a bordo mudará bastante: os escritores Mario Prata, Fernando Morais, Noemi Jaffe, Rodrigo Lacerda e Raphael Montes, e a atriz Clarice Niskier. A música será de Zeca Baleiro.

Enquanto em Paraty as linhas são traçadas entre casario histórico e as curvas da rodovia Rio-Santos, retas infinitas e sinuosos igarapés e igapós marcam a narrativa do Rio Negro. Se a Flip é Manoel de Barros, o Navegar É Preciso é Paulo Leminski, visceral e questionador. Com poucos espectadores a bordo, bombordo e estibordo, os encontros literários intimistas só poderiam aprumar para bons papos-cabeça.

Mas o roteiro literário, idealizado pela Livraria da Vila e executado pela Auroraeco Viagens (desde R$ 5.220 por pessoa, em cabine dupla, com tudo incluído, menos o aéreo), não fica só na falação.

Nos desembarques, caminhadas na floresta, banho em praia de rio e observação de animais fazem parte do programa. Jacarés, botos, tucanos, preguiças, macacos deram as caras durante os passeios em voadeiras. Mesmo com tanta gente interessante do cenário cultural a bordo, os protagonistas nos cinco dias de duração do cruzeiro são mesmo o Rio Negro e a Amazônia que o envolve. Preservação é tema onipresente.

“É a segunda vez que venho para cá”, disse o escritor Reinaldo Moraes, autor de Pornopopeia (Objetiva, 2009). “Sempre fico emocionado quando olho no mapa e me vejo no meio desse saladão”, brincou. Estreante na região, o arquiteto Roberto Loeb se encantou com o cenário e a prosa, mas demonstrou preocupação com as ameaças ao meio ambiente. “O impacto da falta de cuidado com o futuro da Amazônia me deixou bastante preocupado, principalmente em Novo Airão, uma cidade com ocupação muito precária.”

Proximidade. O convívio intenso, confinado pelas águas, é um lapidador caprichoso da intimidade. “Uma sensação inédita e estranha, um escritor num cruzeiro, preso na mesma gaiola que seus leitores”, disse Joca Reiners Terron, autor de A Tristeza Extraordinária do Leopardo das Neves (Companhia das Letras, 2013). “No final, se mostrou uma grande solução.”

Já na primeira das mesas redondas, de um total de seis, ficou claro no que os encontros se transformariam no decorrer do cruzeiro: sessões de terapia coletiva flutuante, com perguntas e debates. A prosa de uma hora entre o escritor Fabrício Carpinejar e a jornalista Eliane Brum fez o público navegar pelas várias Amazônias da percepção dela, formada a partir de muitas noites dormidas em aldeias e comunidades ribeirinhas em sua trajetória como repórter. Já a conversa com Amyr Klink foi bastante emocional, recheada de memórias da convivência com o pai. “Minha mãe escrevia muito, meu pai era bastante patriarcal, violento”, recordou. “Sempre tive muito acesso aos livros, descobri o mundo dos barcos tarde, mas foi por causa dos livros”, disse.

Tudo bem dar uma escapadinha do debate para registrar um arco-íris lá no deque. De brinde, três botos-cor-de-rosa circundando o navio. As saídas para explorar os arredores do Rio Negro funcionam, simultaneamente, como escape e combustível para os debates. “Distantes do celular, as pessoas se desarmam da tecnologia e o que sobra é tempo, a possibilidade de conversar”, acredita Samuel Seibel, diretor da Livraria da Vila. “E isso faz com que se sintam em casa e façam revelações do fundo do coração.”

*O repórter viajou a convite da Livraria da Vila e da Auroraeco.

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Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2015 | 05h00

NOVO AIRÃO - De repente, as risonhas e barulhentas criaturas de bico fino e comprido e olhos esquisitos estão ali. Ficar cara a cara com o boto-cor-de-rosa, espécie ameaçada de extinção, é surpreendente. Durante parada em Novo Airão (a 180 quilômetros de Manaus pela estrada), a voadeira alcança o Flutuante dos Botos. Não tem caminhada na mata, observação de aves ou macaquinhos que supere essa doce experiência.

Por muitos anos, a família de Marilza Medeiros viveu ali e se acostumou a jogar peixes para os botos que passavam. Ao longo do tempo, os animais foram se tornando habitués e quase membros da família, tanto que alguns até ganharam apelidos. Não é permitido nadar com as criaturas, mas é possível ficar sobre uma plataforma com água até a cintura e tocá-las com cuidado. Com um apetite infinito, mas ainda assim dóceis e simpáticos, os botos saltam e colocam o corpo fora d’água para pegar peixes das mãos da alimentadora.

Apenas uma corda delimita a área restrita aos bichos. Pode até parecer que estão cercados por redes, mas os botos circulam livremente pelo rio. Também não há garantia de vê-los – mas desencontros são raros. Independentemente do número de visitantes, os botos são alimentados oito vezes ao dia, de hora em hora, das 9 horas ao meio-dia e das 14 às 17 horas. O programa está incluído no pacote, mas caso decida ir por sua conta, o preço costuma ser de R$ 15 por pessoa. 

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Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2015 | 05h00

IRANDUBA - Sem refinar o olhar, tudo ao redor pode parecer uma massa verde homogênea. Mas apenas até que você chegue bem perto, navegando de voadeira pelos igarapés e seus estreitos igapós. De vários tamanhos e formatos, vermelhas, amarelas e alaranjadas, as folhas imprimem a aura amazônica. Frutos de aspectos múltiplos e nomes sem fim. Lapidar a visão demanda algum tempo, mas logo se distinguem jacarés espiando sob os galhos ou um casal de araras-canindé vigiando a morada, do alto de um imenso tronco morto.

Percorrer trilhas aquáticas, eis o grande barato dos passeios de barco pela floresta. Desligado o motor da voadeira, apenas o barulho da água ecoa pelos canais que envolvem as mais de 400 ilhas de Anavilhanas, segundo maior arquipélago fluvial do mundo. Quebrado por um bando de papagaios, o quase silêncio logo se restabelece. A região das Três Bocas concentra um sem-número de espécies e de cores.

O passeio dura hora e meia. O céu nubla-se sobre a beleza vegetal ao entardecer, o cinza-chumbo rivaliza com o verde berrante das folhas. Em poucos instantes, a dúvida de chuva vira certeza de tempestade. Encharcados, os urbanos visitantes nas voadeiras agora pertencem à paisagem. Água por todos os lados e todos sob efeito dela. Implacável e literal, esse exemplar feroz de chuva amazônica evoca outra dimensão de intensidade e vida. Ninguém disfarça o sorriso.

Todos atentos. No penúltimo dia de cruzeiro, estamos já bem perto de voltar ao mundo urbano, em Iranduba, a 22 quilômetros de Manaus. Em volta só há selva e o Rio Negro – miúdo nesse trecho, com 100 metros de largura, o que é nada diante dos 5 quilômetros entre margens nas porções mais vultosas. E bastou a voadeira entrar pelo primeiro igarapé para brotarem animais nas árvores.

“Olha uma preguiça.” “Tem duas cores, que fofa, está olhando para nós.” Reproduzido inúmeras vezes na pequenina embarcação, diálogos como esse revelavam o nascimento de observadores com olhar afiado. Aprendemos rápido: logo era só um de nós cobrar para os demais encontrarem o tucano de bico destoante, o casal de araras, o boto cercando um cardume.

Famoso hotel de selva perto de Manaus, o Ariaú Towers Lodge surge na paisagem. Não desembarcamos, mas pudemos perceber que muitos dos bichos que ficam nos arredores são, de alguma maneira, alimentados e cuidados pelo hotel. Talvez por isso, a cerca de 500 metros da hospedagem, sofremos um muito bem-vindo ataque. Um bando com mais de 15 micos-de-cheiro, fofos de dar raiva, invadiu nosso barco. Leves e curiosos, quicavam nas cabeças dos turistas, que precisam sempre estar atentos aos óculos e celulares, alvos fáceis para serem levados por curiosidade.

As fotos? Ah, essas ficaram incríveis. 

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Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2015 | 05h00

O acento peculiar pode enganar, mas o guia Alex é brasileiro. Talvez até mais do que eu e você. Aprendeu a falar tucano, o idioma de sua tribo de origem, antes do português. Na Aldeia Caruru, que fica à margem do Rio Tiquié, pelos idos de São Gabriel da Cachoeira e na fronteira com a Colômbia, além da habilidade linguística, ele adquiriu a capacidade de interpretar e mimetizar a floresta – que fica muito clara durante a caminhada por um denso trecho de mata no igarapé de Jaraqui, com 1h30 de duração.

Tudo tem significado e utilidade na selva. Onde nós visitantes enxergamos mato, Alex vê casa. Munido apenas de um facão, mostra aos urbanos visitantes como construir, em cerca de 20 minutos, uma cabana com palha de bacaba, uma espécie de palmeira. Habituado a caçar e pescar desde pequeno, acostumou-se a passar dias entre as árvores em busca de alimentos. Isso foi antes de ser enviado por padres para um internato em Manaus, aos 16 anos. Inclusive foi lá que um professor o rebatizou Alex Marques, pois seu nome original, Ëremirh – que significa rouxinol na língua tucano – era “muito complicado de pronunciar”.

Apaixonado e didático, Alex explica como confeccionar uma corda com pau de envira, cortando e tecendo com esmero, até atingir um fio robusto que surpreende pela resistência. Tudo tem utilidade; uma folha de bacaba arrancada da cobertura da recém-construída cabana é transformada em uma flecha. Interessado em madeiras para canoas e remos, Amyr Klink chega mais perto para entender como transformar um galho de paxiúba em arco. “É o saber além dos livros, o conhecimento não literário”, divagou o navegador.

“Gosto de levar o grupo para sentir a floresta como eu sentia na minha infância”, disse Alex. “Adoro voltar para a minha aldeia, ajudar a manter as tradições e resgatar os rituais.” O olhar continua afiado: durante uma saída noturna para focagem de animais, apanhou com facilidade um pequeno jacaré. Depois, munido de uma lanterna potente, distinguiu a jiboia de um metro de comprimento toda enrolada, pronta para dar o bote, em um emaranhado no qual víamos apenas galhos.

"As pessoas se desarmam e o que sobra é tempo, a possibilidade de conversar. Isso faz as pessoas se sentirem em casa e fazerem revelações do fundo do coração", Samuel Seibel, diretor da Livraria da Vila​

OUTROS CRUZEIROS

Com seus 120 passageiros, o Iberostar Grand Amazon, que hospeda o cruzeiro Navegar É Preciso, tem porte médio para padrões amazônicos. Há outras opções de roteiros regulares, tanto em embarcações menores, para pouquíssimos navegantes, quanto para quem prefere mais companheiros a bordo e uma atmosfera luxuosa.

1. Pioneiras: as embarcações dessa família são pioneiras em cruzeiros regulares pela Amazônia – os roteiros cobrem o Rio Amazonas (3 dias), o Negro (4 dias) ou ambos (7 dias). O Amazon Clipper tem capacidade para 16 passageiros e é mais simples, com beliches nas cabines; a partir de US$ 620 por pessoa, com refeições e passeios incluídos. O Clipper Premium, mais elegante, tem cabines com camas e acomoda até 34 pessoas. De US$ 867 a US$ 1.744. Na Viverde.

2. Expedições: dois navios fazem expedições de 7 dias pelas águas amazônicas. No elegante iate Tucano, a Viagem ao Coração da Amazônia custa desde US$ 3.450 e vai até o Rio Jauaperi. Já a Expedição Katerre pode ser feita nos barcos de design regional Awapé (até 8 pessoas) e Jacaré Açu (até 16). Roteiros de 7 dias custam a partir de R$ 4.250 por pessoa. Também na Viverde.

3. Luxo só: o navio Seabourn Quest tem um roteiro de 41 noites que sai de Manaus em 9 de novembro, passa por Anavilhanas, Santarém, desce pelo litoral brasileiro, chega a Montevidéu, vai até Ushuaia, cruza o Estreito de Magalhães e termina em Valparaíso, no Chile. Na versão de 20 noites, os passageiros desembarcam em Buenos Aires. Preços desde US$ 4.639, mais US$ 2.344 em taxas. Para até 458 passageiros, na qualitours.com.br.

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