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Mínimos detalhes

Da sinfonia de aves ocultas na vegetação à brutal delicadeza de insetos e pequenos seres venenosos, a maior floresta tropical do mundo esconde nos pormenores uma beleza superlativa

Fábio Vendrame, O Estado de S. Paulo

07 Outubro 2013 | 17h01

IQUITOS - Alvorada na mata. Primeiro amanhecer na Amazônia. Às 5 horas tudo ainda está escuro. O silêncio parece absoluto. Céu nublado. Chove fininho. Havia decidido acordar mais cedo. Estava diante de uma chance rara. Queria despertar com a floresta.

Para chegar ali havíamos navegado 150 quilômetros rio adentro na noite anterior, desde o porto de Iquitos, no coração da Amazônia peruana. Agora o Aria, um hotel-butique flutuante, está parado em Yanayacu, às portas da Reserva Nacional Pacaya Samiria. Pouco a pouco o tempo vai abrindo. Em instantes a floresta parece se incendiar. O sol se levanta por detrás da vegetação. Traz com ele os primeiros sinais da vida selvagem. A selva renasce a cada dia.

Ouço pássaros. Tento descobrir onde eles estão. Quanto mais procuro menos vejo. Desisto de buscá-los com os olhos e decido sentir com os ouvidos. Às cegas, escuto cada vez mais.

A cada instante a frequência e a intensidade aumentam, como se houvesse uma competição entre eles. Uma sinfonia alada está oculta na selva. Novos sons me fazem abrir os olhos na tentativa de identificar os autores da melodia. Quanto mais vejo menos escuto. Volto a fechar os olhos. Paisagens sonoras são tão belas quanto as visuais.

Posso ver a mata, o rio, o céu, as nuvens. A essa altura, o horizonte está tingido de rosa, depois laranja, vermelho, magenta. Aos poucos fica tudo azul.Meia hora depois, continuo sozinho no deque. Os demais passageiros permanecem em suas cabines. Podem ver a Amazônia pela ampla janela das suítes. Não podem, porém, escutar os primeiros cantos do dia.

Identifico um barulho diferente. O rumorejar de folhas. Abro os olhos. Alguns bandos começam a aparecer. Ora silenciam. Ora cantam. Eles nos viam o tempo todo e, agora, decidem que chegou a hora de serem vistos por nós. Voam de um galho a outro. Mudam de posição. De árvore em árvore.

São pequeninos e parecem ainda menores diante da imensidão da mata. Só então me dou conta de que as árvores estão apinhadas. As aves se confundem com as folhas, se camuflam nelas. Então a ficha cai.

A paisagem é tão rica e diversa, há tantos arbustos e folhas diferentes, que tudo parece a mesma coisa. É isso. A beleza da maior floresta tropical do mundo está nos detalhes. No microcosmo. No diminuto.

Já posso enxergar as aves. E identificar muitos tons de verde. Formatos, cores e tamanhos de galhos e folhas. As linhas retas da cidade, do concreto, não existem aqui. O design da floresta é minimalista. Cada pedacinho esconde uma multidão de vida.

Me recordo do que Nexy Gaviria, um homem do rio, me havia dito na tarde anterior, antes do embarque, ainda em Iquitos. “O meio ambiente não nos pertence; somos nós quem pertencemos a ele.” Intercalava conselhos enquanto me contava sobre a vida dos kukamas, a etnia dominante naquelas bandas.

Dizia que via os turistas como gente que se esforça para ver o que gostaria e esquece de apreciar o que está diante deles. “Você, quando entrar na mata, preste atenção nos detalhes, nas coisas pequenas”, aconselhou. “Só assim poderá entender algo do que acontece nela.”

Nos próximos três dias era isso o que eu faria. Ficaria atento às sutilezas desse mundo verde de águas torrentes. Na Amazônia tudo parece muito grande, grande demais, e é. Aqui, os animais não se aproximam. Ao contrário, se escondem. Se estiver ansioso para ver bichos, melhor procurar um zoológico.

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