Marcos Müller/AE
Marcos Müller/AE

Mr. Miles conta de Tony Wheeler

De algum lugar distante do globo, nosso viajante conseguiu enviar notícias à redação, com a devida resposta a um de seus seguidores:

Mr. Miles, miles@estadao.com.br

20 Abril 2010 | 02h44

Prezado mr.Miles: na semana passada, assisti a uma palestra de Tony Wheeler, o criador dos guias "Lonely Planet". Ele é seu conterrâneo e esteve em mais de 150 países. O senhor o conhece? E será possível que ele tenha viajado para mais lugares que o articulista que leio todas as semanas? Sérgio Luis Bonelli, por e-mail

"What a nice remembrance, my friend! Sou muito amigo de Tony, a quem, por acaso, não tenho encontrado recentemente. Nem mesmo Maureen, sua simpática esposa, tenho visto nos últimos dois ou três anos, porque, for sure, temos viajado em direções diferentes. Eu os conheci, se bem me lembro, em um bar de Cingapura, por volta de 1975. Parecia-me um casal de hippies. Tony cabeludo, usando uma camisa de crepe indiano e, oh my God, uma horrível calça boca de sino. Maureen com uma bata tailandesa e chinelos de couro que, unfortunately, não escondiam sua origem irlandesa.

Conversamos ao redor de nossas Tiger Beers e Tony, sempre lacônico, contou-me que estavam escrevendo um guia para mochileiros chamado South East Asia on a Shoestring (Sudeste Asiático gastando pouco) no The New 7th Storey Hotel, onde se hospedavam. Maureen, mais falante, disse-me que tinha ótimas dicas, mas que não pretendia fazer daquilo uma profissão. Queria ser assistente social na Austrália. Ao ouvirem minhas modestas histórias, pareceram empolgados. Fizeram anotações, perguntas e mais perguntas. Senti prazer em poder ajudá-los. Nascia, ali, nossa amizade. Algumas semanas depois, recebi, pelo correio, os originais do guia com um pedido de avaliação. Gostei do modo como ele havia sido organizado, fiz comentários (aproveitados na edição definitiva) e, em pouco tempo, li nos jornais sobre o sucesso de vendas da obra.

Jamais poderia imaginar que daquele guia surgiria um império. Com o passar dos anos, vi Tony e Maureen se tornarem celebridades, ganhando uma fortuna ao guiar multidões por todos os cantos desse planeta.

Viajei algumas vezes com Tony nas décadas seguintes. Trata-se de um viajante irrequieto, impaciente e sagaz. Mas lacônico. O máximo que diz quando vê um lugar exuberante é "nice" ou, se de fato ficou emocionado até os recônditos da alma, "amazing". Sempre com um dos quase 600 guias de sua empresa nas mãos, ocupa-se em checar as informações e fazer anotações. Em países onde não se fala o inglês, não conversa com os moradores, porque, segundo conta, é péssimo com idiomas.

Seu gesto mais remarkable em cada viagem é comprar dois cartões-postais. Um vai para a mãe dele, Hillary, na Austrália, e o outro para a tia de Maureen, Kathleen, que mora nos arredores de Belfast. Tony não é, unfortunately, um bom companheiro de copo. Sempre pede um drinque local ? pisco sour, margarita, caipirinha, etc ?, sorve-o de uma vez só e encerra as atividades.

Quanto à sua segunda pergunta, my friend, devo lembrá-lo que não tenho ideia por quantos países viajei. Os números que aparecem abaixo foram reunidos em 1962, a pedido de uma linda repórter do San Francisco Chronicle. Em outras palavras: não os atualizo desde que Tony tinha 16 anos e nem sequer pensava em comprar sua primeira mochila."

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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